SACERDOTE Palavra do
Padre David Francisquini
Pergunta – Há mais ou menos um ano, minha mulher e eu descobrimos a Missa tradicional. No início, fomos por curiosidade, talvez até com alguma reserva. Depois, pouco a pouco, aprendemos a entrar no silêncio, a acompanhar o rito com o missal, a saborear uma liturgia mais recolhida, marcada pelo senso do sagrado e do mistério. Com o tempo, percebemos que já não conseguíamos mais participar com facilidade da Missa no rito novo, que passou a nos parecer ruidosa, muito exterior e pouco propícia à oração profunda. Alguns amigos, notando a nossa ausência na Missa paroquial habitual, passaram a nos censurar, dizendo que os fiéis ligados à tradição se fecham em si mesmos e esquecem algo essencial da Igreja: o “estar juntos”. Segundo eles, se cada grupo escolhe o rito que prefere, a liturgia deixa de ser um fator de unidade e passa a ser elemento de divisão, quando não de exclusão. Para reforçar o argumento, evocam a chamada “comunhão eclesial”, insistindo que o bispo celebra apenas no rito novo, e que, portanto, não seria possível permanecer em comunhão se não se participasse “da mesma mesa eucarística”. O que pensar diante dessas objeções?
Resposta – O primeiro a dizer é que essas objeções não podem ser tratadas de modo superficial. A unidade da Igreja não é um detalhe secundário nem uma questão meramente prática. Ela pertence ao núcleo da fé católica. A Igreja é una porque foi fundada por Jesus Cristo e porque Ele mesmo quis essa unidade. Mais ainda: a unidade da Igreja é o desejo expresso do Senhor, o anseio do Bom Pastor, que deseja reunir suas ovelhas dispersas para que haja “um só rebanho e um só pastor”.
Portanto, ninguém que ama a Missa tradicional pode desprezar a unidade da Igreja. Mas, justamente por levar essa unidade a sério, cumpre compreender corretamente o que a Igreja entende por comunhão. Para benefício dos leitores, na minha resposta vou
basear-me num estudo recente do Pe. Jean de Massia, intitulado precisamente Missa tradicional e comunhão eclesial, publicado no site claves.org.
Unidade e comunhão não são sinônimas
A primeira distinção fundamental ajuda a esclarecer muitos mal-entendidos: unidade e comunhão não significam exatamente a mesma coisa. A unidade sublinha o fato de a Igreja ser indivisa; a comunhão, por sua vez, destaca a união harmoniosa de realidades diversas em torno de um mesmo princípio.
São Paulo explica isso com a imagem do corpo humano. O corpo é uno, mas possui muitos membros, e nem todos exercem a mesma função. Assim também é a Igreja: nela há diversidade de vocações, carismas, espiritualidades, ritos e missões, e essa diversidade não ameaça a comunhão — ela a manifesta.
Pensar que a comunhão exige que todos sejam idênticos, celebrem do mesmo modo e façam exatamente as mesmas coisas é um erro profundo. Isso seria confundir unidade com uniformidade. A Igreja nunca exigiu uniformidade absoluta; ela sempre viveu de uma unidade rica, viva e orgânica.
Comunhão não é fabricada: ela é recebida
Outro ponto essencial é compreender que a comunhão da Igreja não é, antes de tudo, uma obra humana. Ela não nasce simplesmente da multiplicação de encontros, reuniões, atividades ou “momentos de partilha”. A Igreja não é uma associação criada por afinidade humana, mas um mistério sobrenatural fundado por Jesus Cristo.
Na visão católica, a comunhão não vem “de baixo”, como se os fiéis precisassem se esforçar para produzi-la. Ela vem “do alto”, como um dom de Deus. Não é algo que nós inventamos; é algo que recebemos. Antes de ser comunhão entre os homens, a comunhão eclesial é comunhão dos homens com Deus. Como ensina São Paulo, Deus é fiel e nos chamou à comunhão com o seu Filho. É essa comunhão vertical com Deus que torna possível a verdadeira comunhão horizontal entre os homens.