a Igreja”. Advertindo que “os católicos ultraconservadores estão afiando as suas armas em vista da assembleia sinodal de outono”.
Scaramuzzi escreve: “O panfleto, intitulado ‘Processo sinodal: uma caixa de Pandora’ foi publicado pela associação ‘Tradição Família e Propriedade’, uma velha conhecida no Vaticano”.
Austen Invereigh, biógrafa do Papa Francisco, recorreu ao Twitter para denunciar o “canhão anti-Sínodo” do Cardeal Burke em relação ao livro da TFP. E Famille Chrétienne, a versão francesa do semanário italiano Famiglia Cristiana, também publicou um longo artigo.8
É impossível listar todas as notícias publicadas. Elas são literalmente centenas. De Washington a Londres, de Buenos Aires a Paris, de Manila a Dubai, e particularmente na Itália, o livro sobre o processo sinodal está obtendo um sucesso que surpreendeu um pouco a todos. Qual é a razão de tal boom? Um artigo de Nico Spuntoni em Il Giornale pode lançar alguma luz.
Sob o título “O Sínodo dos medos: ares de cisma na Igreja de Francisco?”, Spuntoni escreve: “Quanto mais nos aproximamos do início da primeira sessão da XVI assembleia geral ordinária do Sínodo dos Bispos, que durará de 4 a 29 de outubro de 2023, mais aumentam as tensões na Igreja. [...] Na verdade, pouco mais de um mês após o início, outros prelados começaram a expressar os seus receios sobre o que poderia acontecer na Igreja depois da assembleia”.9
Coincidência ou não, o livro da TFP parece ter aberto não uma caixa de Pandora, mas uma cornucópia, trazendo à tona sentimentos muito profundos do Povo de Deus (o verdadeiro), e dando coragem a muitos fiéis. Quase poderíamos falar, num sentido teológico, de um momento de graça verdadeiramente propício.
O livro Caminho sinodal, uma caixa de Pandora não pretendeu apresentar doutrina nova ou expor as ideias dos autores, mas sim relembrar a doutrina tradicional da Igreja sobre os temas nele tratados. Por outro lado, baseia-se exclusivamente nos documentos oficiais do Sínodo dos Bispos e da Comissão Teológica Internacional, bem como em comentários autorizados de cardeais e bispos. Por fim, o livro trata de fatos conhecidos de todos e bem documentados.
Neste sentido, o livro da TFP não pode de forma alguma ser tachado de “ideológico” sem antes especificar claramente:
– onde as doutrinas católicas invocadas estão erradas;
– onde os fatos concretos citados e documentados são falsificados;
– quais comentários de cardeais, bispos, padres e estudiosos não correspondem à verdade.
O espírito do livro é o do amor reverente à Santa Igreja, e obedece ao convite à “parresia” formulado diversas vezes pelo Papa Francisco. Não entendemos por que falar com serenidade, franqueza e respeito, baseado em documentos oficiais e fatos comprovados, seria uma manobra ideológica.
Muitos comentadores, com efeito, destacaram o tom sereno do livro e a sua clara intenção de ser sempre respeitoso e reverente para com a autoridade da Igreja. Por que então certas reações? Formulemos uma hipótese.
O fato é que, com a crescente difusão deste livro e de outros estudos e declarações semelhantes, fica cada vez mais claro aos olhos da opinião pública que grande parte do “Povo de Deus” também não se sente adequadamente representada nem no modo burocrático do processo sinodal nem em muitas das propostas por ele apresentadas.
O número de pessoas efetivamente consultadas para a preparação dos documentos sinodais é insignificante. Em muitos casos não ultrapassa 2% de católicos praticantes. É claro que o Sínodo sobre a sinodalidade é quase exclusivamente obra de minorias muitas vezes radicais. No entanto, elas afirmam falar por todos. Dizem que devemos “caminhar juntos”, mas a verdade é que muitas pessoas nem sequer foram informadas desta “caminhada”...
Além disso, parte significativa da opinião pública católica começa a mostrar preocupação pelo fato de a invocação do Espírito Santo estar sendo demasiadamente utilizada como força motriz do processo sinodal. Por trás desta invocação, quase como se fosse uma voz conclusiva e inapelável, parece haver uma pressa excessiva das minorias progressistas em impor algumas questões amplamente discutíveis, e outras já definitivamente encerradas pelo Magistério da Igreja.
Se acrescentarmos a isto a linguagem muitas vezes hermética dos documentos sinodais, compreensível apenas pelos especialistas, podemos compreender como o verdadeiro Povo de Deus se sente “perdido, confuso, perplexo e até desiludido”, parafraseando João Paulo II.10
É precisamente esta situação, confusa e aparentemente inexplicável, que foi publicada no livro da TFP, Caminho sinodal, uma caixa de Pandora.
Explicando de forma simples e direta o que está em jogo, o livro colocou em ordem os fragmentos de um quebra-cabeça, deixando claro que nas intenções dos seus promotores mais açodados o processo sinodal não é transparente nem espontâneo, mas apenas uma enésima tentativa de revolução na Igreja. Sentindo-se enganados, muitos fiéis começaram a erguer a voz. E aqui “começamos a explicitar os temores pelo que poderia acontecer na Igreja depois da assembleia”.11
O futuro está nas mãos de Deus pela mediação universal de Maria Santíssima. Uma coisa, porém, é certa: qualquer tentativa de mudar a Igreja na sua constituição divina ou na sua doutrina infalível é irremediavelmente utópica, pois a Igreja foi fundada por Nosso Senhor Jesus Cristo e as portas do inferno não prevalecerão contra Ela.
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