Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 874 | página 32-33
| MATÉRIA DE CAPA – CAMINHO SINODAL | (continuação)

pressupõe uma concepção “historicista”, que não parte da Verdade revelada, mas de uma situação histórica concreta à qual a Igreja deve se adaptar.

A quem ouvem os promotores do Sínodo?

Os organizadores do Sínodo pedem que todos sejam ouvidos, incluindo os ateus: “Juntos, todos os batizados são o sujeito do sensus fidelium, a voz viva do Povo de Deus. Ao mesmo tempo, para participar plenamente no ato de discernimento, é importante que os batizados escutem a voz de outras pessoas do seu contexto local, incluindo pessoas que abandonaram a prática da fé, pessoas de outras tradições de fé, pessoas sem crença religiosa etc. (...). Devemos chegar pessoalmente às periferias, às pessoas que abandonaram a Igreja, que raramente ou nunca praticam a sua fé, que estão em situação de pobreza ou de marginalização, aos refugiados, aos excluídos, às pessoas que não têm voz etc.”12

É possível atribuir propostas erradas e escandalosas ao Espírito Santo?

Não. Seria uma manipulação blasfema. Mons. Robert Mutsaerts, bispo auxiliar de Bois-le-Duc, na Bélgica, afirma: “Até o momento, o processo sinodal mais se parece com um experimento sociológico, e tem pouco a ver com a ideia de que o Espírito Santo far-se-ia ouvir em meio a tudo isso. Poder-se-ia mesmo falar em blasfêmia. O que se torna cada vez mais claro é que o processo sinodal será usado para alterar uma série de posições da Igreja, apoiando-se no Espírito Santo como escudo, muito embora, na realidade, o Espírito Santo tenha inspirado o contrário disso ao longo dos séculos”.13

Por que os promotores do Sínodo insistem em escutar especialmente as “minorias marginalizadas”?

O Vademecum insiste na necessidade de fazer “todos os esforços possíveis para envolver as pessoas que se sentem excluídas ou marginalizadas” (p. 11). Quase se poderia dizer que o documento manifesta uma ‘opção preferencial’ pelas minorias: “A síntese deve prestar especial atenção às vozes daqueles que muitas vezes não são ouvidos, e integrar aquilo a que poderíamos chamar o ‘relatório minoritário’. O feedback não deve sublinhar apenas experiências positivas, mas deve trazer à luz também experiências desafiantes e negativas” (p. 21).

“Não se deve excluir pontos de vista só porque foram expressos por uma pequena minoria de participantes. De fato, por vezes a perspectiva do que poderíamos chamar o ‘relatório da minoria’ pode ser uma testemunha profética do que Deus quer dizer à Igreja” (p. 41).

As consultas em âmbito continental levam isso em conta?

Sim. Quase todos os documentos que concluem as etapas continentais da jornada sinodal (Sínteses Continentais) mencionam explicitamente que foi tomado um cuidado especial para consultar as “minorias marginalizadas”.

Por exemplo, lê-se na Síntese norte-americana:

“Na Assembleia Continental, bem como em nossos relatórios nacionais, houve um profundo desejo de maior inclusão e acolhimento na Igreja. De fato, um dos principais fatores observados que rompem a comunhão foi a experiência de muitos de que certas pessoas ou grupos não se sentem bem-vindos na Igreja. Os grupos citados durante a Etapa Continental incluíam mulheres, jovens, imigrantes, minorias raciais ou linguísticas, pessoas LGBTQ+, pessoas divorciadas e recasadas sem anulação, e pessoas com diferentes graus de habilidades físicas ou mentais” (n. 26).14

Em teoria, o processo sinodal deveria consultar o “Povo de Deus” como um todo. Isso foi feito?

Não. De acordo com a doutrina que inspira o Sínodo sobre a sinodalidade, conforme explicado em páginas anteriores, o “Povo de Deus” como um todo deveria ser consultado como sendo infalível in credendo (em sua crença). Porém, somente poucas minorias foram chamadas a participar no processo consultivo do Sínodo. Coincidentemente ou de propósito, eram minorias progressistas já empenhadas em reformar a Igreja.

Por exemplo, a Conferência Episcopal Francesa informou que “mais de 150.000 pessoas se mobilizaram para contribuir com reflexões sobre o Sínodo de 2023”.15

Isso representa apenas 3,47% dos fiéis que vão à missa dominical, ou 0,35% de todos os católicos na França.

Um documento do Sínodo Nacional da Igreja Católica Espanhola afirma: “14.000 grupos sinodais participaram na Espanha, envolvendo mais de 215.000 pessoas, em sua maioria leigos, mas também consagrados, religiosos, padres e bispos”.16

Isso representa apenas 7,7% dos fiéis que vão à missa dominical, ou 0,77% dos católicos.

Esses números são consistentes em quase todos os países: na Áustria, 1,04% dos católicos participaram; na Bélgica, 0,54%; na Irlanda, 1,13%; na Inglaterra, 0,79%; na América Latina, 0,21%; até mesmo na Polônia, país mais católico, a participação foi de apenas 0,58%.17

Na Alemanha, uma iniciativa on-line em apoio ao Synodaler Weg (Caminho Sinodal) coletou apenas 12.000 assinaturas.18

O país tem 21,6 milhões de católicos.

O Padre Gerald E. Murray, notável canonista e analista religioso americano, observa : “Está claramente ocorrendo uma revolução na Igreja hoje, uma tentativa de nos convencer de que a aceitação da heresia e da imoralidade não é um pecado, mas sim uma resposta à voz do Espírito Santo, que se expressa por meio de pessoas que se sentem marginalizadas por uma Igreja que, até agora, tem sido infiel à sua missão”.

“Inclusão”

O que significa “inclusão”, para os promotores do Sínodo?

Apesar da importância que o processo sinodal atribui à “inclusão”, nenhum documento oficial define esse termo. Pareceria que, sendo o objetivo da sinodalidade “caminhar juntos”, a humanidade toda deve participar dessa jornada, sem excluir ninguém.19

Embora esse termo seja frequentemente usado como sinônimo de “integração”, há uma diferença importante, pois “a integração implica a adaptação dos indivíduos às características do ambiente”; enquanto a inclusão “baseia-se na adaptação de normas, políticas e realidades sociais, para permitir a integração de todos os membros da sociedade de forma diversificada”.20

Ou seja, em nome da diversidade sacrificar a identidade coletiva, para aceitar todos “como são”.

Essa “inclusão radical” mudará as estruturas e a doutrina da Igreja?

Sim. De acordo com os promotores do Sínodo, o caminho para uma maior inclusão se “inicia com a

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