Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 874 | página 28-29
| MATÉRIA DE CAPA – CAMINHO SINODAL | (continuação)

Carta de recomendação do Cardeal Burke

16 de junho de 2023

Festa do Sagrado Coração de Jesus

Meus sinceros parabéns pela publicação de Il processo sinodale, un vaso di Pandora: Cento domande e cento risposte, que trata de forma clara e abrangente uma situação muito séria na Igreja de hoje. É uma situação que, com razão, preocupa todos os católicos conscientes e pessoas de boa vontade, os quais constatam o dano evidente e grave que está sendo infligido ao Corpo Místico de Cristo.

Dizem-nos que a Igreja que professamos como sendo Una, Santa, Católica e Apostólica, em comunhão com nossos antepassados na fé desde o tempo dos Apóstolos, será agora redefinida pela sinodalidade — um termo sem antecedente na doutrina da Igreja, e para o qual não há definição razoável. A sinodalidade e seu adjetivo [sinodal] tornaram-se slogans por meio dos quais uma revolução está em curso, para mudar radicalmente a compreensão que a Igreja tem de si, de acordo com uma ideologia contemporânea que nega muito do que a Igreja sempre ensinou e praticou. Não se trata de uma questão puramente teórica, pois esta ideologia já foi colocada em prática há alguns anos na Igreja na Alemanha, espalhando amplamente a confusão, o erro e seu fruto, a divisão — na verdade, o cisma — , prejudicando gravemente muitas almas. Com o iminente Sínodo sobre a Sinodalidade, é de se temer, com razão, que a mesma confusão, erro e divisão se abatam sobre a Igreja universal. Na verdade, isso já começou a acontecer, por meio da preparação do Sínodo em nível local.

Somente a verdade de Cristo, conforme nos é transmitida pela doutrina e disciplina imutáveis e inalteráveis da Igreja, pode lidar eficazmente com essa conjuntura, desmascarando sua ideologia oculta, corrigindo a confusão, o erro e a divisão mortais que ela está propagando. E os membros da Igreja devem ser por Ela incentivados a empreender a verdadeira reforma, ou seja, a conversão diária a Cristo, que está vivo para nós nos ensinamentos da Igreja, em sua oração e adoração e em sua prática das virtudes e da disciplina.

Por meio de uma série de 100 perguntas e respostas, a obra Il processo sinodale, un vaso di Pandora lança a luz de Cristo, a verdade de Cristo, sobre a situação atual mais preocupante da Igreja. O estudo das perguntas e respostas ajudará os católicos sinceros a serem “cooperadores em favor da Verdade” de Cristo (3 Jo 8), como todos os membros da Igreja são chamados a ser; e, portanto, agentes da renovação da Igreja em nosso tempo, fiéis à Tradição Apostólica.

Agradeço a todos que trabalharam de forma tão diligente e excelente para formular as perguntas apropriadas e fornecer respostas idôneas. Espero que o fruto deste trabalho seja acessível aos católicos de todo o mundo, para a edificação da Igreja, como nos ensina São Paulo: “Antes, seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo naquele que é a cabeça, Cristo” (Ef 4, 15).

Suplicamos, por intercessão e sob os cuidados da Bem-aventurada Virgem Maria — a Virgem Mãe de Nosso Senhor, que Ele nos deu na Igreja como nossa Mãe (cf. Jo 19, 26-27) — que sejam evitados os graves danos que atualmente ameaçam a Igreja, para que, fiel a Nosso Senhor, nossa única salvação, ela possa cumprir sua missão no mundo.

Com o mais profundo afeto e estima paternal, sou devotamente seu, no Sagrado Coração de Jesus e o Imaculado Coração de Maria,

Raymond Leo Cardeal Burke


Introdução

O Papa Francisco “está preparando para 2024 sua maior reforma: a da ‘sinodalidade’. Ele espera transformar a Igreja de uma estrutura piramidal, centralizada e clericalizada em uma comunidade mais democrática e descentralizada” (Palavras do vaticanista Jean-Marie Guénois).

O Papa Francisco “está preparando para 2024 sua maior reforma: a da ‘sinodalidade’. Ele espera transformar a Igreja de uma estrutura piramidal, centralizada e clericalizada em uma comunidade mais democrática e descentralizada” (Palavras do vaticanista Jean-Marie Guénois).

Sob o título “Por uma Igreja Sinodal: comunhão, participação e missão”, o Papa Francisco convocou um “Sínodo sobre a Sinodalidade” em Roma. Será a 16ª Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos.

O debate sobre o próximo Sínodo permaneceu em grande parte restrito aos “iniciados”. O público em geral sabe pouco a respeito. Este livro tem o objetivo de preencher essa lacuna, explicando em termos simples o que está em jogo.

O Sínodo é apresentado como um divisor de águas na história da Igreja; e, em particular, do atual pontificado. O Papa Francisco “está preparando para 2024 sua maior reforma: a da ‘sinodalidade’. Ele espera transformar a Igreja de uma estrutura piramidal, centralizada e clericalizada em uma comunidade mais democrática e descentralizada” — escreveu o vaticanista Jean-Marie Guénois1.

Entre os defensores mais radicais da “conversão sinodal” da Igreja se encontra a maioria dos bispos alemães. Seu próprio “caminho”, o Synodaler Weg, concentra e relança as exigências mais extremas do progressismo alemão.

Para os seus promotores, o Weg deve servir de modelo e força motriz para o sínodo universal. O Cardeal Gerhard Müller, ex-prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, afirma: “Eles sonham com outra Igreja que nada tem a ver com a fé católica. (...) e procuram abusar desse processo para levar a Igreja Católica, não apenas em outra direção, mas à destruição da Igreja Católica”.2

Diante de quadro tão sombrio, muitos católicos se sentem perdidos, desanimados, confusos, perplexos e decepcionados, mas nem todos reagem de modo adequado.

Alguns cedem à tentação do sedevacantismo: abandonam a Igreja para se tornarem autorreferenciais.

Outros sucumbem à tentação da apostasia: abandonam a Igreja para abraçar falsas confissões. A maioria se afunda na indiferença, abandonando a Igreja a seu triste destino. Ora, todos estão errados, pois amicus certus in re incerta cernitur. Exatamente agora a Santa Igreja precisa de filhos amorosos e destemidos, para defendê-la de seus inimigos externos e internos.

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