O Sínodo dos Bispos
Que mudanças o Papa Francisco introduziu no Sínodo dos Bispos?
Exprimindo o desejo de que o Povo de Deus fosse consultado na preparação das assembleias sinodais, o Papa propôs um plano para criar uma “Igreja sinodal” baseada nesta premissa: o Povo de Deus, graças ao senso sobrenatural da fé (sensus fidei), não pode se enganar (é infalível in credendo) e tem um “faro” para descobrir os caminhos que o Senhor indica à sua Igreja. A Igreja sinodal comportaria uma escuta recíproca entre o povo fiel, o colegiado episcopal e a Sé de Roma para saber o que o Espírito Santo “diz às igrejas” (Ap 2,7). Para isso, todos os órgãos eclesiais nas paróquias, dioceses e Cúria Romana devem ficar conectados à base e partir sempre “do povo, dos problemas do dia a dia”.3
A Constituição Apostólica Episcopalis communio dividiu o Sínodo em três fases: a fase preparatória, de consulta ao povo de Deus; a fase celebrativa, ou seja, a reunião dos bispos em assembleia; e a fase operativa, na qual as conclusões da Assembleia, aprovadas pelo Papa, devem ser aceitas por toda a Igreja.
Como o Papa Francisco justifica essa mudança radical no Sínodo dos Bispos?
Segundo o Papa Francisco, os bispos são ao mesmo tempo mestres e discípulos. Mestres quando anunciam “a Palavra de verdade em nome de Cristo, cabeça e pastor”. Mas são também discípulos quando, “sabendo que o Espírito desce a cada pessoa batizada, ele ouve a voz de Cristo que fala por meio de todo o povo de Deus”.4
Assim, o Sínodo se torna um instrumento adequado para dar voz a todo o povo de Deus por meio dos bispos.
“Sinodalidade”
Que implicações a sinodalidade terá na vida da Igreja?
Essa escuta de toda a comunidade implica uma reformulação da autoridade na Igreja. De acordo com o Papa Francisco, é preciso inverter a estrutura piramidal da Igreja: “nesta Igreja, como numa pirâmide invertida, o vértice encontra-se abaixo da base”.5
Segundo o cardeal Mario Grech, secretário do Sínodo, Francisco “forneceu um modelo vivo e estimulante da imagem da ‘pirâmide invertida’ da autoridade hierárquica (...). Como Amanda C. Osheim observa corretamente: ‘conceber a autoridade hierárquica como uma pirâmide invertida abate uma antiga concepção piramidal da Igreja, uma economia eclesial de gotejamento na qual o Espírito Santo era dado primeiro ao Papa e aos sacerdotes, depois ao clero e aos religiosos e, finalmente, aos fiéis (...). Essa pirâmide, na verdade, dividia a Igreja em Igreja docente (ecclesia docens) e Igreja discente (ecclesia discens). Ao inverter a pirâmide, a analogia de Francisco redefine a autoridade como dependente da aceitação, escuta e aprendizado de outros dentro da Igreja’”.6
“Escuta”
Por que se atribui um papel primordial à “escuta dos fiéis”?
No Vademecum, a palavra escutar aparece 102 vezes. Refere-se à voz dos fiéis 83 vezes, mas somente 19 vezes à Palavra de Deus.
Em entrevista publicada no site do Vaticano, o Cardeal Mario Grech declarou:
“Ao ouvir o povo de Deus — é para isso que serve a consulta nas Igrejas particulares — sabemos que podemos ouvir o que o Espírito está dizendo à Igreja. Isso não significa que é o povo de Deus que determina o caminho da Igreja. À função profética de todo o povo de Deus (incluindo os pastores) corresponde a tarefa de discernimento dos pastores: a partir do que o povo de Deus diz, os pastores devem captar o que o Espírito quer dizer à Igreja. Mas é a partir da escuta do povo de Deus que o discernimento deve começar”.7
Existe um sentido tradicional de “escuta” por parte dos pastores?
Sim. Não há dúvida de que um bom pastor deve ouvir suas ovelhas para entender sua situação espiritual e suas aspirações. Entretanto, hoje a “escuta” significa a obrigação de estar em sintonia com as ovelhas. O critério de avaliação deixa de ser a Verdade revelada e a retidão de consciência, e passa a ser a aceitação das aspirações dos fiéis.
Existe algum inconveniente no conceito moderno de “escuta”?
Na perspectiva moderna de “escuta”, a Igreja deixa de ser a Mãe e Mestra que transmite os ensinamentos de Cristo pela voz de seus pastores (Quem vos ouve a vós, a mim me ouve – Lc 10,16), e se torna uma Igreja que escuta, dialoga e se questiona, sem hesitar em discutir verdades consideradas indiscutíveis.8
Diz o Vademecum:
“Escutar é o primeiro passo, mas precisa de uma mente e de um coração abertos, sem preconceitos”.9
E acrescenta: “O primeiro passo para escutar é libertar a nossa mente e o nosso coração dos preconceitos e estereótipos”.10
Mais adiante, comemora: “O Processo Sinodal dá-nos a oportunidade de nos abrirmos à escuta de forma autêntica, sem recorrer a respostas prontas ou a julgamentos pré-formulados”.11
Deve-se notar que, no texto citado, o Cardeal Grech afirma que o discernimento de um bispo não consiste em verificar se o que o povo de Deus diz coincide com o que ensina a Revelação, mas o contrário: trata-se de entender o que o povo diz, e depois considerá-lo como palavras do Espírito Santo.
A Igreja Católica sempre ensinou o contrário. Tomando como base as verdades da fé conhecidas por meio da Revelação e da Tradição, Ela as aplicou à vida concreta, de acordo com as circunstâncias de tempo e lugar, a fim de iluminar e guiar as almas à sua eterna salvação. O Sínodo sobre a sinodalidade tende a fazer o oposto: partir de situações concretas para elaborar uma política pastoral e uma disciplina adequada. Tal método
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