fenômeno nunca antes visto naquelas terras, e nunca depois. Mas ficou claro que os homens que acreditavam na Imaculada Conceição foram levados por Ela ao triunfo, de modo prodigioso.
Como agradecimento pelo milagre de Empel, a Imaculada Conceição foi proclamada padroeira da infantaria espanhola, e sua festa foi fixada no dia 8 de dezembro em todo o império espanhol, que nessa época incluía o reino de Portugal e o próprio Brasil. A festa da Imaculada havia sido inscrita no calendário litúrgico pelo Papa Sisto IV, em 28 de fevereiro de 1477.
Após restaurar a independência portuguesa, em 25 de março de 1646 o Rei D. João IV proclamou solenemente Nossa Senhora da Conceição como Rainha e Padroeira de Portugal e de todos os seus territórios ultramarinos, que incluíam o Brasil. O Rei determinou:
"Com parecer de todos, assentamos de tomar por padroeira de Nossos Reinos e Senhorios a Santíssima Virgem Nossa Senhora da Conceição, [...] e lhe ofereço de novo em meu nome e do Príncipe D. Teodósio, meu prezado filho sobre todos muito amado, e de todos os meus descendentes, sucessores, Reinos, Senhorios e Vassalos, à sua Santa Casa da Conceição sita em Vila Viçosa, por ser a primeira que houve em Espanha desta invocação, cinquenta escudos de ouro em cada ano, em sinal de Tributo e Vassalagem. E da mesma maneira prometemos e juramos, com o Príncipe e Estados, de confessar e defender sempre (até dar a vida, sendo necessário) que a Virgem Maria Mãe de Deus foi concebida sem pecado original. [...] E se alguma pessoa intentar alguma coisa contra esta nossa promessa, juramento e vassalagem, por este mesmo efeito, sendo vassalo, o havemos por não natural, e queremos que seja logo lançado para fora do Reino; e se for Rei (o que Deus não permita), haja a sua e nossa maldição, e não se conte entre nossos descendentes; esperando que pelo mesmo Deus que nos deu o Reino e subiu à dignidade real, seja dela abatido e despojado".2
Escolha do dia 8 de dezembro
A consagração foi confirmada pelo Papa Clemente X em 1671, na bula Eximia dilectissimi. Posteriormente, em 1708, o Papa Clemente XI estendeu a festa da Imaculada Conceição a toda a Igreja Católica, tornando 8 de dezembro dia-santo-de-guarda. Por fim, em 1854, o bem-aventurado Papa Pio IX escolheu a data de 8 de dezembro para proclamar o dogma da Imaculada Conceição de Nossa Senhora, por meio da bula Ineffabilis Deus.3 [vide quadro à p. 42]
Na ocasião, quis o santo pontífice honrar especialmente a Espanha. Em 8 de dezembro de 1857, inaugurou um grande monumento à Imaculada na Praça Mignanelli, em Roma, capital dos Estados Pontifícios, onde ainda reinava. Ao abençoar a imagem, colocada no topo de uma imponente coluna em frente à legação espanhola, disse ao embaixador: "A Espanha foi a Nação cujos reis e teólogos trabalharam mais do que ninguém para tornar possível o dia da proclamação do dogma da Imaculada Conceição de Maria".
Dez anos depois do dogma, o mesmo Papa confirmou o especial privilégio da Espanha e de todas as nações que lhe foram unidas, de usar paramentos azuis na festa da Imaculada Conceição - que, repetimos, é Padroeira do Brasil sob o título de Nossa Senhora Aparecida. O gesto do bem-aventurado Pio IX é renovado todos os anos pelos Papas: chegam junto à famosa coluna da Imaculada e mandam colocar no braço da Virgem uma coroa de flores, que é levada até o alto por um regimento de bombeiros romanos.
Reflexão para o Reino de Maria
Quando o bem-aventurado Pio IX proclamou o dogma na Basílica de São Pedro, os presentes tiveram em geral a impressão de que uma luz sobrenatural o envolvia. O próprio Pio IX contou à superiora de uma ordem religiosa o fenômeno místico que sentiu:
"Quando comecei a publicar o decreto dogmático, senti a minha voz impotente para se fazer ouvir pela imensa multidão (50 mil pessoas) que se apinhava na Basílica Vaticana. Mas, quando cheguei à fórmula da definição, Deus deu à voz do seu Vigário tal força e tal vigor sobrenatural, que a fez ressoar em toda a Basílica. E eu fiquei tão impressionado por tal socorro divino, que fui obrigado a suspender a palavra, por um instante, para dar livre desafogo às minhas lágrimas [...]. Nenhuma prosperidade, nenhuma alegria deste mundo poderia dar a menor ideia daquelas delícias. E não temo em afirmar que o Vigário de Cristo precisou de uma graça especial para não morrer de doçura, sob a impressão de tal conhecimento e de tal sentimento de beleza incomparável de Maria Imaculada".4
Nenhum dos soldados famintos e feridos, saltando para dentro dos navios dos hereges em Empel, podia imaginar tal cena gloriosa que aconteceria três séculos depois no Vaticano. Mas a graça que os levou a atingir o píncaro do heroísmo foi uma participação da mesma graça divina que depois empolgaria o Santo Pontífice, ao definir o dogma contra a impiedade revolucionária e o liberalismo reinante.
A promessa de Nossa Senhora em Fátima - por fim, meu Imaculado Coração triunfará - tornar-se-á futuramente um fato consumado. Então, todas as amarguras e aparentes frustrações, enfrentadas hoje com bravura contra os inimigos da Cristandade, com a confiança posta em Nossa Senhora, poderão nos fazer lembrar a gesta dos andrajosos e corajosos soldados católicos em Empel. Num dia 8 de dezembro, eles corriam para dar assalto à frota encalhada no gelo, com a certeza de que "de mil soldados não teme a espada quem pugna à sombra da Imaculada!". []