Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 428 | página 10-11
| GLÓRIAS DA CRISTANDADE |(continuação)

de São João, com outros cavaleiros ilustres de Aragão.

Logo após a partida do rei, as tropas cristãs de Daroca, Calatayud e Teruel decidiram apoderar-se do forte castelo de Chio, situado num monte de difícil acesso, onde muitos mouros se haviam refugiado após deixarem Valência. As tropas cristãs tomaram os desfiladeiros que conduziam ao castelo, para cortar ao inimigo qualquer possibilidade de comunicação, e escolheram como ponto estratégico de suas operações o local denominado "Puch del Codol".

Os mouros, que do castelo observavam todos os movimentos dos cristãos, sobre os muros atearam grandes fogueiras, e tocando trombetas e outros instrumentos, procuravam obter socorro de outros mouros que estavam pela vizinhança.

Zaén, que não se encontrava distante, inteirou-se da situação e, em breve tempo, chegou com numerosíssimo exército, a fim de dar combate aos cristãos que atacavam o castelo de Chio e caminhar depois rumo à capital do reino, recém-perdida.

O mouro acampou com suas hostes bem à vista do castelo, mandou armar as tendas de campanha, e seu exército cercou todo o monte, esperando amanhecer para lançar-se ao ataque.

As crônicas relatam que havia cerca de cem sarracenos para um cristão.

O portentoso milagre

D. Berenguer de Entenza reuniu em conselho de guerra os cinco capitães que dirigiam as tropas cristãs. Decidiram que ao raiar do dia se celebraria Missa e que todos os capitães comungariam antes de iniciar-se a batalha. Terminado o ato religioso, todos, num só ímpeto, deveriam lançar-se contra o inimigo, dispostos a vencer ou morrer.

Pintura representando a Missa celebrada no 'Puch del Codol", onde se operou o portentoso milagre.

De fato, sobre uma pedra que tinha a forma de mesa-altar, levantou-se um magnífico pavilhão adornado com bandeiras e troféus militares. O capelão-militar, D. Mateo Martinez, de Daroca, pároco de São Cristóvão, começou a paramentar-se para a celebração da Santa Missa.

Enquanto isso, D. Berenguer de Entenza dispôs que fossem vigiadas as quatro extremidades dos montes, ficando em cada uma delas 50 soldados dos mais bravos, para evitar uma surpresa ou resistir à primeira investida do inimigo.

Dirigindo-se a todos naquele solene momento, pronunciou ele breve discurso cheio de entusiasmo guerreiro e de confiança no Deus das batalhas. Em seguida, mandou que as tropas se colocassem ao redor do altar e estando todos com as espadas desembainhadas e as bandeiras despregadas, deu-se início à celebração da Santa Missa.

Todos assistiam o Santo Sacrifício com fervorosa devoção quando, no intervalo entre a Consagração e a elevação, os mouros, com grande estrondo e gritaria, começaram o assalto ao monte.

Os cristãos, deixando o sacerdote no altar, correram ao combate. O sacerdote recolheu as Hóstias consagradas, envolveu-as nos corporais e as escondeu entre as pedras, perto de uma árvore.

Travou-se o combate com incrível ardor e após três horas de luta sangrenta, os mouros fugiram para reorganizar-se.

Voltaram os cristãos, e o sacerdote recolocou as sagradas Hóstias sobre o altar, pois os capitães suplicaram lhes fosse ministrada a comunhão, em ação de graças por aquela vitória.

O sacerdote, ao abrir os corporais, encontrou as sagradas Hóstias convertidas em sangue e coladas aos corporais. Tão maravilhado ficou D. Mateo Martinez, que caiu de joelhos, absorto.

D. Berenguer então acercou-se do altar e perguntou-lhe: "Bom padre, qual é a causa de vossa detenção?"

O sacerdote, suspirando e derramando lágrimas, tomou os corporais em suas mãos e não deu outra resposta senão a de voltar-se para os capitães e mostrar-lhes as sagradas Hóstias tintas de sangue.

"Milagre! Milagre!", exclamaram todos, arrebatados de entusiasmo.

Relicário contendo as quatro Hóstias consagradas e milagrosamente tintas de sangue.

Não tardou, porém, os mouros voltarem ao assalto. Os cristãos, confiando em Deus que tão visivelmente os protegia, lançaram-se ao combate com renovado ardor.

A luta foi horrenda; o campo ficou coberto de cadáveres e troféus de guerra. Do lado dos cristãos, apenas algumas baixas. A vitória foi completa. Os mouros abandonaram o castelo de Chio e, no dia seguinte, dele se apossaram os cristãos.

O destino dos Sagrados Corporais

Ao tratar-se da posse das Preciosas Relíquias, promoveu-se acalorada disputa entre os de Daroca, Teruel e Calatayud, pois todos as queriam para si.

Os de Teruel alegaram ter direito porque sua capital, estando mais próxima do inimigo, tinha sofrido mais danos. Os de Calatayud, por sua vez, as pretendiam em virtude de ser essa cidade a maior e mais rica das três, e a que dava mais soldados e dispendido mais caudais. Os de Daroca, por fim, alegavam que deveriam possuí-Ias porque foram eles os primeiros a fazer tremular as bandeiras sobre a Porta dos Sarracenos de Valência e por ser um filho de Daroca, D. Mateo Martinez, quem celebrara a Missa.

Quanto a D. Berenguer de Entenza, desejava ele que as relíquias ficassem em Valência, por ser esta cidade a capital do reino onde o milagre ocorreu.

Vendo, porém, D. Berenguer de Entenza que a discussão se tornava cada vez mais acalorada, propôs que se tirasse a sorte. Todos aceitaram a sugestão e, por três vezes, Daroca foi a privilegiada.

Apesar disso, alguns capitães ficaram descontentes, suspeitando que houvesse ou pudesse haver arte ou engano por parte dos de Daroca.

Alguém então sugeriu que se trouxesse do campo do inimigo uma pequena mula branca, que nunca tivesse pisado em terras de cristãos e que conduziria em seu lombo, sem ser guiada por ninguém, os Corporais com as sagradas Hóstias. Onde a mula espontaneamente se detivesse, ali deveria fixar-se a morada, escolhida pelo Céu, do Santíssimo Mistério. Os capitães não se opuseram a esta determinação.

Assim se procedeu. Os Corporais, contendo as sagradas Hóstias, foram colocados numa pequena arca de prata, ligada com cordões de seda, que ainda se conservam. O sacerdote, levando-a consigo com grande reverência, montou sobre a mula, deixando-a caminhar ao seu bel prazer.

Atrás iam os soldados com a Cruz erguida e as bandeiras desfraldadas, e a gente com tochas acesas nas mãos, formando uma procissão, tocando música e cantando hinos. E a crônica diz que as vozes humanas uniam-se às dos anjos que cantavam nos ares à passagem dos sagrados Corporais.

Os milagres

Durante o trajeto, ao passar por vilas e pequenos povoados, verificaram-se alguns milagres que aumentaram o fervor e entusiasmo religioso dos acompanhantes. A procissão via-se acrescida, de cada vez, dos párocos, levando a Cruz no alto e acompanhados de seus paroquianos.

Em Puebla de Artiaza, trouxeram um homem possesso do demônio, que proferia palavras horríveis com voz estrondosa.

No momento em que as Sagradas Relíquias passaram, o homem ficou repentinamente livre do espírito que o atormentava, com grande assombro de todos.

Na vila de Jérica, dois ladrões roubavam um mercador e tentavam assassiná-lo. Quando viram passar a procissão com as Sagradas Relíquias, fugiram amedrontados, largando o mercador que, cheio de alegria, saiu ao encontro da numerosa comitiva. Prostrou-se ele por terra, com lágrimas nos olhos, e adorou o Santíssimo nos Sagrados Corporais.

Enquanto o mercador relatava seu terrível transe aos circunstantes, os dois ladrões voltaram com alarido e apressadamente, dizendo que tinham visto nos ares uma multidão de luzes brilhantes e de formosíssimos anjos que voavam, cantando hinos ao Senhor dos Exércitos. E então sentiram vivos remorsos por seus crimes, e atraídos por tão estupendas maravilhas, vinham, arrependidos, confessar suas culpas e lavar com lágrimas os seus delitos.

O lugar escolhido pela Providência Divina

Por onde passava a procissão, o povo, querendo que ali parasse a mula, a fim de ficar com os Sagrados Corporais, colocava diante do animal todo tipo de alimento. Mas a mula nenhuma vez se deteve diante das iguarias.

Por fim, chegando a Daroca, a mula entrou pelas portas de um hospital que estava fora da cidade.

Ali ocorreu outra maravilha: o animal dobrou os joelhos e expirou. Desta maneira, os Sagrados Corporais permaneceram em Daroca.

O fato se espalhou por toda parte.

Para Daroca acorreram os maiores da terra: reis, príncipes e grandes senhores para adorarem o Santíssimo no Mistério dos Corporais.

Instituição da festa de Corpus Christi

No ano de 1261, por ocasião da ascensão do Papa Urbano IV à Cátedra de São Pedro, a cidade de Daroca e o seu cabido resolvem enviar uma delegação a Roma a fim de informar detalhadarnente Sua Santidade sobre as maravilhas operadas por Deus no portentoso milagre.

Além do mais, aumentava consideravelmente a piedade dos fiéis, que afluíam de todas as partes, e já não cabiam nem na igreja, nem nas praças. Tinha sido necessário construir fora dos muros da cidade uma pequena torre de pedra – "torreta" – para abrigar a Relíquia.

"Estes motivos, e os informes que sobre o fato deram os gloriosos doutores, o Seráfico São Boaventura, e o angélico São Tomás de Aquino, inclinaram o ânimo, e facilitaram os decretos de nosso Santíssimo Padre Urbano IV, que instituiu na católica Igreja a soleníssima festa de 'Corpus Christi', ordenando se fizessem procissões públicas e solenes e que nelas se levasse e fosse adorado o Augusto Sacramento" ( * ).

São Vicente Ferrer, em 1414, pregou na "torreta" no dia de "Corpus Christi" e converteu 110 judeus. De tal maneira estendeu-se a fama desse milagre, que das mais remotas terras vinham peregrinos adorar o Santíssimo presente nas Hóstias dos Corporais de Daroca.

O portentoso milagre ocorreu no ano de 1239. Hoje, após mais de sete séculos, podem ainda ser vistas e adoradas pelos fiéis as Hóstias, abrigadas num magnífico relicário lavrado em prata, o qual se encontra em Daroca como testemunho da veracidade da Santa Igreja Católica, Apostólica, Romana.

(*) Citado pelo Revdo. Pe. José Beltrán em "Historia de Daroca", Taileres editoriales 'Heraldo de Aragón", Zaragoza, p. 71. Outras obras consultadas: "Compendio Sagrado de ta peregrina historia de Los Santisimos Corporales y Misterio de Daroca", Edición de Ia Caia de Ahorros y Monte de Piedad de Zaragoza, Aragón y Rioja-Zaragoza; Rafael Esteban Abad, "Estudio Historico-Politico sobre La Ciudad y Comunidad de Daroca", Instituto de Estudios Turolenses de Ia Excma. Diputación Provincial de Teruel.


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| CHERNOBYL |

Ainda a tragédia de Chernobyl
Soviéticos permitirão socorro às vítimas?

O CARDEAL IVAN Lubachivsky, primaz da igreja católica ucraniana, pediu, em Roma, aos responsáveis políticos da Rússia, para autorizarem as organizações caritativas católicas a prestar ajuda às pessoas atingidas pela catástrofe da central nuclear de Chernobyl.

Eis o apelo endossando o pedido do Cardeal – lançado em Konigstein (Alemanha), em abril último, pela obra católica internacional "Ajuda à Igreja Necessitada", e publicado no "comunicado de imprensa" da associação, "Informationsdienst", n° 2/86 de 30-4-86:

"O Cardeal Myroslav Ivan Lubachivskv, Pai e guia da igreja católica ucraniana, profundamente tocado pela grande tragédia que afetou em primeiro lugar e acima de tudo o povo ucraniano por ocasião da catástrofe da central nuclear de Chernobyl, reza pelas inumeráveis vítimas e centenas de milhares de atingidos.

"Ao mesmo tempo, com sentimento de profunda humanidade e solidariedade cristã, o Cardeal apela a todos os homens de boa vontade a contribuir – por todos os meios de caridade possíveis – para salvar e assistir o povo ucraniano martirizado, ao qual essa tragédia de consequências incalculáveis só faz acentuar os sofrimentos e privações já tão numerosos.

"Como pastor do povo ucraniano, sinto-me obrigado a chamar a atenção dos chefes políticos da União Soviética sobre sua pesada responsabilidade naquilo que concerne esse acontecimento. Eu lhes peço ao mesmo tempo de aliviar a aflição e o sofrimento do povo ucraniano autorizando as obras caritativas a encaminhar e distribuir sem demora a ajuda necessária no local da catástrofe".

Desse modo, pelo seu encarregado de imprensa, Christoph Mullerleile, a obra católica internacional "Ajuda à Igreja Necessitada", endossando o apelo lançado pelo Cardeal Lubachivsky, pede ao governo da Rússia de não recusar os oferecimentos de auxílio provenientes de organizações caritativas religiosas ou governamentais que estão fora da esfera de influência soviética, mas de os aceitar como sinal de solidariedade humana em favor dessas pessoas tão duramente provadas.


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