– "Posso acompanhar minha filha ao baile?
– Não, meu amigo.
– Mas eu não a deixarei dançar.
– Oh! se ela não dançar, dançará seu coração" – concluiu o Santo...
O Cura d'Ars enfrenta o demônio
É dogma da nossa Fé católica a existência do inferno e dos anjos decaídos. Mas a ação dos espíritos infernais permanece oculta aos olhos do homem, e somente com permissão de Deus ela se manifesta exteriormente.
Durante 31 anos – de 1824 a 1855 – o Cura d'Ars foi alvo de perseguições ostensivas de Satanás, cujo objetivo era, certamente, quebrar a resistência moral e psicológica do Santo e obrigá-lo a deixar o ministério das almas. Felizmente, discernida pelo varão de Deus essa trama diabólica, venceu ele todas as maquinações do poder das trevas.
Durante a noite, ruídos misteriosos impediam-no de dormir. As vezes ressoavam gritos no pátio da casa paroquial: qualquer coisa de horrível e de infernal. Essa batalha, para sustentá-la, o Pe. Vianney só tinha como recurso a paciência e a oração.
Notou, porém, que o barulho era muito maior e os assaltos do demônio se multiplicavam quando, no dia seguinte, vinha algum grande pecador. Essa averiguação muito o consolou nas suas insônias. Dizia que o demônio era bastante tolo, pois anunciava a conversão de grandes pecadores.
O espírito do mal permanecia invisível, porém sua presença fazia-se sentir de vários modos. Derrubava cadeiras, sacudia pesados móveis do quarto, gritava com voz aterradora: "Vianney, Vianney... Comilão de batatas...". Muitas vezes, imitava animais, como o urso, o cachorro, sacudia as cortinas do quarto com furor.
Conta-nos o Côn. Trochu que a irmã do santo Cura, Margarida Vianney, ia de vez em quando visitá-lo em Ars. Numa dessas visitas, deu-se o seguinte fato: "Durante uma das noites que passou na casa paroquial, ela ouviu o Cura d'Ars sair do quarto, antes da hora, para ir à igreja. 'Poucos momentos depois, – conta ela – ouvi perto de minha cama um estrondo muito violento, como se quatro ou cinco homens despedaçassem com golpes fortíssimos a mesa e o armário... Tive medo, levantei-me, acendi a luz e vi que tudo estava em ordem. Pensei que talvez estivesse sonhando. Deitei-me novamente e apenas estava na cama, quando o estrépito se renovou. Desta vez o susto foi muito maior. Vesti-me a toda pressa e corri à igreja. Quando o meu irmão voltou para a canônica, contei-lhe o que se tinha passado. – Oh! minha filha, replicou, não há por que temer, é o demônio. Nada pode contra ti; a mim também me atormenta. Algumas vezes me agarra pelos pés e me arrasta pelo quarto. Faz isso porque converto almas para Deus".
O Cura d'Ars foi severíssimo para com os que praticavam o espiritismo e o ocultismo. Em diversas ocasiões, só a presença do venerável sacerdote bastava para expulsar demônios de pessoas possessas, tranquilizando-as e devolvendo a paz interior a suas almas.
Desde 1855 até a morte, em 1859, o demônio não mais importunou o Santo Cura. Na hora de dar o último suspiro, teve uma agonia serena, imperturbável. Antes de deixar essa terra rumo ao Paraíso, tinha São João Batista Vianney infligido ao demônio sua última derrota.
| DISCERNINDO, DISTINGUINDO, CLASSIFICANDO |
Oh! Civilização Cristã
C.A.
A CIVILIZAÇÃO CRISTÃ é uma maravilha!
Nós, amargurados neste túnel obscuro e lastimável que é o fim do século XX, vivemos uma época que bem se poderia chamar pós-cristã. E por isso não temos ideia de quanto nas épocas iluminadas pela Fé, o espírito e os princípios da Santa Igreja frutificaram nas instituições da ordem temporal, nas artes, sobretudo nas famílias e nos indivíduos que as compunham.
E não só nos indivíduos exponenciais, investidos de uma grande missão ou possuidores de particular irradiação pessoal.
Diz um ditado popular: pelo dedo se conhece o gigante. Assim também, naquelas pessoas dedicadas exclusivamente à vida privada, cuja existência transcorreu apenas no círculo de seus íntimos, mas que souberam deixar-se embeber pelo espírito da Civilização Cristã, se reconhece um jorro de luz que mostra como foi grande a sociedade temporal católica.
Queremos hoje ilustrar esta coluna com alguns pensamentos de uma jovem, desconhecida do grande público: Marie-Edmée Pau, irmã do General Pau que comandou as tropas francesas na Alsácia durante a 1ª Guerra Mundial.
Nascida na França em 1845, quando já declinava fortemente nos povos o espírito católico, hauriu ela com sofreguidão o perfume de Cristandade que, embora muito debilitado, ainda perpassava a atmosfera temporal, tendo morrido aos 26 anos de idade.
Deixou cartas e um diário (recolhidos no livro "Marie-Edmée intime", de MlIe. Marie Pesnel).
Seus pensamentos, que não são os de uma religiosa, e muito menos os de uma mística, trazem, contudo, a marca profunda da Civilização Cristã que ela amou. E nos deixam a saudade do que se foi e o desejo esperançoso da época futura, em que reinará o Imaculado Coração de Maria, predita pela Mãe de Deus numa de suas aparições em Fátima.
– Em visita ao Museu de Versailles: "Nossa História está admiravelmente escrita nas paredes desse belo palácio. As salas consagradas às cruzadas causaram-me uma emoção indescritível: tudo aí é grande, forte, resplandecente de entusiasmo".
– "O entusiasmo é amor ao sublime, levado até o sacrifício da vida e de tudo o que ela oferece de melhor (..). Eu não quero mais tentar argumentar contra o sublime; quero amá-lo simplesmente, correr após ele, contemplá-lo sempre".
– "É preciso cultivar as boas recordações; elas são por vezes a semente das virtudes".
– Ouvindo ao longe o rufar dos tambores e o troar dos canhões, ela comenta: "Há um eco no fundo de minha alma que responde a essas harmonias longínquas. Por que bate assim meu coração ao rufar dos tambores? Por que o troar do canhão, o cheiro da pólvora me emocionam tão fortemente?"
– Aos 5 anos "eu não sabia ainda rezar corretamente meu rosário, mas eu exultava de alegria ao apelo dos sinos para a prece do anoitecer".
– "Minha alma desfibra-se no repouso; prefiro sofrer e lutar".
– "Eu creio que a dor, para a sociedade como para o indivíduo, é destinada a reerguer a natureza humana, purificando-a, mas sob a condição de ser compreendida".
– "Eu me espanto de viver tanto para as multidões, e de que elas sejam sempre o centro principal de meus interesses e de meus pensamentos; desde que eu me analiso, foi sempre assim. (..) Este amor abstrato da humanidade e das nações suas filhas, tem a utilidade de forçar-me, pela lógica, a interessar-me até pelo mais humilde e mais fastidioso de meus vizinhos".
– "A admiração, o reconhecimento, a exaltação dizem sua última palavra nas ladainhas da Santíssima Virgem; (...) dir-se-ia que a alma humana reconhece, de um só golpe, na Mãe de seu Redentor, o tipo de sua beleza primeira e que, enternecida pela lembrança dos dias do Éden, ela se inebria à vista desta Virgem incomparável. E então que todas as graças de Maria, analisadas com uma escrupulosa ternura, revelam-se a nós através de comparações orientais; de outro lado, o laconismo da invocação exclui toda ênfase, e deixa a cada imaginação o cuidado de colher a flor que foi apenas indicada... ".
– "Eu quereria morrer por uma grande causa, e o meu único pensamento é o de servir a uma durante toda minha vida".
O SANTÍSSIMO MISTÉRIO DE DAROCA
Paulo da Gama
Vista da cidade de Daroca que, por vontade da Providência, abriga os Santos Corporais.
Igreja Colegial de Santa Maria dos Santos Corporais de Daroca.
DAROCA. O nome pode parecer estranho a ouvidos brasileiros, mas quanta sonoridade contém ele quando conhecemos sua história.
Este nome evoca um dos maiores acontecimentos da História épica dos valentes espanhóis, na luta multissecular pela reconquista de seu território ao invasor maometano.
Se é verdade que o homem faz a História, é verdade também que ela é vazia e sem graça quando a consideração dos acontecimentos não tem em vista as relações do homem com Deus.
É neste sentido cheio de elevação que Daroca passou para a História da Cristandade, na qual os milagres atestam a proteção de Cristo à Sua Esposa e a veracidade de sua doutrina.
Sob este prisma devemos ver o milagre dos Corporais de Daroca, na Espanha, ocorrido num sábado, em fevereiro de 1239.
As batalhas
Tomada a célebre cidade de Valência, até então corte do famoso mouro Zaén, assuntos particulares obrigaram o rei D. Jaime, o Conquistador, a viajar para Montpellier, deixando ele sem concluir a conquista daquele reino.
Em seu lugar ficou, como governador da cidade, o insigne cavaleiro D. Jimeno Pérez, e para a defesa da terra conquistada seis mil homens distribuídos em três guarnições, uma delas constituída pelos soldados das cidades de Daroca, Calatayud e Teruel. O rei designou ainda generalíssimo de suas armas a seu tio, D. Berenguer de Entenza, ao qual se juntaram os dois grandes mestres do Templo e