Espanha: continuidade na demolição
Péricles Capanema
O ELEITORADO espanhol renovou em 22 de junho último, não sem certa reticência, o mandato conferido ao PSOE (Partido Socialista Operário Espanhol), há pouco menos de quatro anos. Apesar da decadência e de uma desconfortável abstenção de 29,2%, sinal expressivo de desinteresse popular, os socialistas continuam no poder em Madri, presumivelmente, até pelo menos 1990.
Comenta-se na Espanha a existência de um suposto plano socialista das "6 legislaturas", isto é, o intuito do PSOE de permanecer no governo, ininterruptamente, por 24 anos.
Tal plano supõe um paciente gradualismo na execução do programa socialista, de maneira a ir acostumando o povo com seus efeitos deletérios. A marcha acelerada rumo ao extremismo de suas propostas finais, ocasionaria hoje necessariamente um sobressalto enérgico de consequências imprevisíveis.
Acostumar, adormecer e avançar na surdina, eis a fórmula presente do PSOE. Falando no seu XXX Congresso, em dezembro de 1984, Felipe González, Secretário Geral da organização e atual Presidente de Governo, relembrou, mais uma vez, que o partido havia adotado uma linha de ação gradualista, inimiga de aventureirismos: "O projeto precisa ser executado como os guias do Himalaia aconselham: subir como se tivesse oitenta anos para chegar como se tivesse vinte" ("ABC", Madri, 14-12-84).
Dois meses depois, discursando num seminário sobre liberdades públicas, voltou a recordar que o programa socialista precisava de 25 anos – as tais 6 legislaturas – para a realização completa. Ao mesmo tempo, instou seus camaradas de partido a moderarem o ritmo reformista para que "ninguém se sinta tentado a voltar a montar uma cruzada" ("Ya", Madri, 24-2-85), alusão evidente ao perigo de nova guerra civil, como a de 1936-1939, caso os socialistas abandonem sua tática gradualista e acelerem impensadamente, além do que tolera a opinião pública, a marcha rumo a seus objetivos.
Da atenção posta excessivamente no método utilizado vem o erro crasso, hoje bastante comum em numerosos meios de difusão, de afirmar que o programa socialista na Espanha é moderado. Na verdade, continua ele de uma radicalidade atroz, exprimindo, hoje como ontem, os objetivos igualitários e coletivistas.
Faz parte da manobra pôr de lado duas posições historicamente muito protuberantes no socialismo: em primeiro lugar, a política econômica não tem o acento posto na estatização e coletivismo, como era habitual, mas se apresenta com características liberais; em segundo, a postura anti-norte-americana está na surdina e o PSOE tomou algumas atitudes favorecedoras – pelo menos em parte – dos interesses ocidentais, como se deu, por exemplo, no plebiscito sobre a NATO. Com isso ele se disfarçou nos véus da moderação.
Demolição da sociedade
Com essas duas posturas rombudamente realçadas em grandes meios de difusão, o socialismo vem podendo promover, relativamente despercebido, o outro aspecto de sua ação, que consiste em demolir minuciosamente os restos, ainda expressivos, da Espanha tradicional e católica.
Realizou uma reforma no Exército, que praticamente tirou do Rei o mando supremo das Forças Armadas e o colocou nas mãos do Presidente de Governo e de seu Ministro da Defesa; reformou o Judiciário, despojando-o de sua indispensável independência e pondo-o sob tutela efetiva do Legislativo, ou seja, do Partido no poder; legalizou o aborto; legalizou o consumo das chamadas "drogas brandas" que, como todo mundo sabe, são a porta de entrada para as "duras"; promoveu uma escandalosa educação sexual nas escolas, "libertadora" e "desincomplexante"; eliminou discriminações contra os homossexuais; autorizou a cirurgia transsexual, expressão eufêmica para indicar a legalização das castrações; disseminou pelo país inteiro os chamados Centros Assessores da Mulher, verdadeiros focos de uma moral permissivista e antifamiliar; permitiu que a questão regionalista, com seu macabro cortejo de atentados e vítimas, continuasse se agravando e ameaçasse a unidade da Espanha; aprovou uma lei de ensino (a LODE) que introduz a autogestão escolar e tira dos donos de colégio, diretores e professores, grande parte do poder que até agora tinham, transferido para um órgão eletivo e artificial, o Conselho Escolar; vem estimulando pela televisão estatal intensa campanha contra a Igreja, a moral católica, e instituições tradicionais, como a Monarquia e o Exército; incentiva na Espanha inteira a propaganda da blasfêmia e da crápula, como foram os casos, entre outros, das peças teatrais "Teledeum" e "Demonis".
Terrível e devastadora investida de demolição radical da Espanha cristã, que se dá paradoxalmente num emoliente clima onde o que se ouve, quase exclusivamente, vindas de todos os lados, são vozes adormecedoras clamando "moderação", "moderação".
Na verdade, o slogan da campanha de 1982, "Pela mudança", e o da de 1986, "Continuidade no bom caminho", exprimem, se bem entendidos, a obstinação de executar – com gradualidade e muito cuidado, é verdade – uma revolução de um radicalismo poucas vezes visto na História. Pretende-se, de fato, a desagregação inteira de uma sociedade. Sobre os restos da Espanha de Santa Teresa e de Felipe II, o PSOE almeja impor a anarquia ateia, autogestionária e coletivista.
Porém, felizmente cresce dentro da Espanha – paradoxalmente incendiada e adormecida – o número daqueles que percebem a matreira dicotomia criada pelo PSOE que, como o deus Jano, apresenta-se com duas faces: uma,
liberal-económica e ocidental, que tranquiliza; outra, que poderíamos genericamente chamar de revolução cultural, que ameaça e agride.
Terá o PSOE suas "6 legislaturas", ou o incêndio acabará por despertar a grande e nobre nação ibérica, católica e pugnaz entre todas? Do rumo que a Espanha tomar nessa encruzilhada depende seu futuro.
Eleições parlamentares
Ano: 1982
Cadeiras: 202
% votos: 48,24
Total cadeiras: 350
Ano: 1982
Cadeiras: 184
% votos: 44,06
Total cadeiras: 350
Uma revolução tremenda, assombrosa
ALFONSO GUERRA, Vice-Presidente do Governo e o segundo homem do PSOE, não receou declarar: "Fizemos uma revolução absolutamente tremenda. Quase não nos demos conta, o que é melhor ainda. Há nesse país uma revolução cultural verdadeiramente assombrosa. Ainda há muito por fazer, não há a menor dúvida. Mas há apetência. E há uma revolução magnífica que é a volta à natureza. E essas revoluções, que são muito mais discretas que as revoluções políticas, estão se sucedendo na Espanha" ("Diário 16", Madri, 5-7-85).
Também o conhecido jornalista José Maria Carrascal, em livro de ampla divulgação – "La Revolución del PSOE" – estendeu-se sobre o mesmo fato: "Se voltamos o olhar para as mudanças mais espetaculares introduzidas pelo Governo González ( ... ) nos damos conta de que correspondem a esta ultimíssima revolução (a revolução cultural). Uma revolução formada concomitantemente por uma multidão de revoluções: a revolução sexual, a revolução feminina, a revolução penal, a revolução homossexual, a revolução filial, a revolução estudantil. Tudo isso unido a uma nova relação com a natureza, ao desafio do princípio de autoridade em todas suas formas; ao ensaio de novas estruturas familiares" (Ed. Piaza ê .Janes, Barcelona, 1985, pp. 41-42).
FATOS RECENTES DA AGITAÇÃO AGRÁRIA NO BRASIL
PODE-SE AFIRMAR que em quase todos os movimentos importantes verificados no País nas últimas semanas, com vistas a subverter a ordem estabelecida no campo, notou-se a propulsão da "esquerda católica".
A resenha que apresentamos a seguir comprova a afirmação supra, merecendo ser ressaltado o papel preponderante que eclesiásticos vêm exercendo, de modo desconcertante, nesse processo de agitação.
A CPT ensina aos invasores a "resistência" armada
Segundo a CNBB e a CPT, invasão e ocupação têm sentidos diversos.
A primeira significaria apropriar-se estavelmente da propriedade alheia, devendo, por isso, ser rejeitada. Já as ocupações de terras são tidas pelos dois organismos eclesiásticos como "movimentos transitórios e pacíficos, através dos quais se procura pressionar democraticamente o Poder Público para solucionar a situação de extrema necessidade e desespero dos lavradores" ("O Globo", 15-6-86).
É assombroso considerar a ocupação da terra alheia – autêntico esbulho possessório! – mero "movimento transitório e pacífico", como se isto não constituísse, por si só, uma violência ao Direito.
Mas a CPT – Comissão Pastoral da Terra – explica melhor o que entende por "pacífico": "Quando a resistência (sic) dos posseiros não é suficiente, (eles) são capazes de se organizar e realizar ações de autodefesa, inclusive com armas. É uma medida extrema a que tem sido levados pela violência oficial e pela violência dos fazendeiros, grileiros, pistoleiros etc." (cfr. "CPT: Pastoral e Compromisso", Vozes em coedição com a Comissão Pastoral da Terra, 1983, p. 41).
Assim, embora fale em "movimentos transitórios e pacíficos" de ocupação, a CPT estimula, na verdade, a invasão armada das terras. O conselho acima – seguido à risca pelos invasores – vai espalhando pelo País incêndios, mortes e devastações.
Bispos do Paraná apoiam invasão
Durante a "Romaria da Terra", em Laranjeiras do Sul, no Paraná, oito Bispos e pastores de toda a região reafirmaram o apoio aos chamados "sem-terra" que invadiram propriedades no Estado e instalaram 26 acampamentos para exigir a Reforma Agrária já. Esteve presente à manifestação D. Pedro Fedalto, Arcebispo de Curitiba e presidente da Regional Sul II da CNBB, o qual declarou, nessa circunstância, que se a Reforma Agrária não for executada, a violência será inevitável, e a Igreja permanecerá "ao lado dos oprimidos" ("O Globo", 7-7-86).
Durante o trajeto de quatro quilômetros percorrido pela insólita Romaria, três encenações foram feitas, apresentando sempre a posição do governo como "morosa e intolerante", a dos grandes fazendeiros como "exploradora e criminosa" e a dos Bispos como de "coragem e luta pela conquista da terra".
No pátio da igreja matriz de Laranjeiras do Sul, depois de pedir que a multidão erguesse as faixas e os cartazes para a filmagem que a Comissão Pastoral da Terra enviará a todos os Estados, os organizadores receberam espigas de milho dos invasores, como símbolos do movimento. As espigas foram reunidas em cestos de vime que cada grupo levou aos 26 acampamentos do Paraná, os quais reúnem hoje mais de 20 mil pessoas. À tarde, no mesmo local, os 8 Bispos e pastores da igreja luterana realizaram uma celebração conjunta como marco da luta pela terra ("Jornal do Brasil", 7-7-86).
Solenemente, portanto, numa cerimônia litúrgica e após passeata de protesto, Prelados legitimaram e "abençoaram" as ações dos invasores. Eis como se viola, de maneira frontal, a ordem jurídica do País.
CUT propõe ocupação em massa, e D. Balduíno elogia
A executiva nacional da CUT (Central Única dos Trabalhadores) proporá a ocupação simultânea de todas as terras ociosas e mal aproveitadas do País, "sejam elas públicas ou particulares, de empresas nacionais ou multinacionais", em seu II Congresso Nacional, a ser realizado em fins de julho, no Rio. Por ocasião do encerramento do II Congresso Estadual da CUT paulista, em São Bernardo do Campo, o projeto foi aprovado.
Segundo a proposta, deve ser eliminada a propriedade privada no campo. As terras invadidas passariam a ser coletivas. O documento sugere, ainda, que os acampamentos sejam feitos por tempo determinado para evitar o "risco de desgastes diante da opinião pública".
A estratégia da CUT prevê luta pela conquista da terra, que envolve o enfrentamento dos "grileiros" ("Jornal do Brasil" e "Folha de S. Paulo", 7-7-86).
Para o Bispo de Goiás Velho, D. Tomás Balduino, essa proposta tem um "cunho de validade e de respeitabilidade".
No momento em que o Brasil se vê convulsionado de Norte a Sul pelo incitamento às invasões, o que pensar desse comentário?
Enxada no altar: é a missa dos "sem-terra"
Ao celebrar missa na catedral de Brasília, o Bispo-auxiliar de Curitiba, D. Alberto Cavallin, reafirmou o apoio da CNBB aos chamados "sem-terra", que jejuaram durante dois dias pelo apressamento da reforma. Entre as 85 pessoas que participaram do jejum – alguns na sede da CNBB, outros na porta da Nunciatura Apostólica e no saguão do Mirad -, havia três padres.
Durante a cerimônia, uma enxada foi colocada em cima do altar, enquanto os participantes do jejum cantavam hinos e levantavam cruzes.
Ao acolher os manifestantes, D. Cavallin, o qual também é membro da Comissão Episcopal de Pastoral da CNBB, afirmou que a CNBB se está transformando numa "tribuna livre" para os "sem-terra", já que em outros lugares "vocês não conseguem abrir as portas".
O Bispo dirigiu-se aos "sem-terra" com estas palavras: "Vocês não são bagunceiros, nem comunistas ou arruaceiros. Não vão atirar pedras em autoridades. Vocês vão conseguir derrubar os 'gorilas' do Poder e outras tantas paredes que vão dificultar a passagem de vocês. Vocês não são vagabundos, são homens honestos, os verdadeiros apóstolos" ("O Estado de S. Paulo", 10-7-86 – negrito nosso).
Tal ditirambo vale bem como um poderoso estímulo para que os chamados "sem-terra" continuem a "conquistar" a terra alheia...
Atraso na reforma pode levar à guerrilha, ameaça Bispo
O Bispo de Conceição do Araguaia, D. José Patrício Hanrahan, afirmou que, se não houver urgência na Reforma Agrária, pode haver uma guerrilha na região do "Bico do Papagaio" (norte de Goiás). E acusa pequenos grupos de latifundiários, que resistem à reforma ("Correio Braziliense", 3-6-86).
Bispo pede reforma "corajosa", ou haverá "explosão"
"O que se nota é que o Presidente Sarney quer fazer uma reforma agrária suave demais", afirmou o Bispo de Bragança, no Pará, D. Miguel Giambelli, ao advertir que a Gleba Cidapar, no município de Viseu, "vai pegar fogo" novamente, em futuro próximo. No seu entender, o governo deve fazer "uma reforma agrária corajosa" para solucionar os problemas do País ("O Liberal", Belém, 31-5-86).
São cada vez mais frequentes, no noticiário nacional, os apelos episcopais em prol de uma reforma mais radical do que a prevista no PNRA.
Em outras palavras, apesar do caráter manifestamente confiscatório do atual Plano, muitos Bispos consideram-no "tímido", pleiteando ora que se ampliem ainda mais os casos previstos de desapropriação, ora que se elaborem leis determinando módulos máximo e mínimo para a propriedade, na próxima Assembleia Constituinte.
Por sua vez, D. José Gomes, Bispo de Chapecó e presidente da Comissão Pastoral da Terra, chegou a afirmar: "A grande esperança da reforma é a Constituinte, porque divisão de terra não se faz negociando um pedaço deste ou daquele fazendeiro" ("Diário Catarinense", 20-5-86).
Tais medidas drásticas – se concretizadas – a que desastres nos conduzirão?