intensiva: "Um estudo mais sistemático e orgânico da sociedade, especialmente para gente do povo já mais experimentada e num contexto mais livre de formação teórica. Aliás, cursos assim se revelam necessários a partir de um certo momento".
Devem-se evitar "as ideias alienadas do povo, seus sonhos utópicos e seus desejos falseados".
AGIR. – É preciso ser prudente ao procurar arrastar o povo à ação: "pretender, desde o primeiro encontro, que um grupo se comprometa na política direta é, o mais das vezes, por o grupo a perder".
É preciso ir modelando o povo para a ação, pois também é falso o "espontaneísmo, quando se confia que o processo vai por si só levar a luta de modo determinístico".
Assim, de etapa em etapa, pode-se levar um grupo a fazer o que o agente externo infiltrado desde o início havia programado: "Em termos das etapas da caminhada, a experiência mostra que um grupo vai normalmente das tarefas de nível comunitário (entreajuda), passando pelas lutas de bairro (melhorias), chegando às do sindicato até a questão do sistema político global".
Se o agente se colocar numa "visibilidade ostensiva pode prejudicar a ação coletiva. Primeiro porque revela o caráter dirigista de uma ação. esta se mostrará como controlada por cúpulas".
Para efeitos do público em geral, o agente infiltrado deve disfarçar seu papel para não ser inteiramente percebido, e para dar a impressão de que a ação do povo é espontânea: "Uma visibilidade ostensiva (do agente) pode prejudicar a ação coletiva. Primeiro porque revela o caráter dirigista de uma ação: esta se mostrará como controlada por cúpulas. Segundo, porque expõe a direção à mira dos ataques adversários, comprometendo assim toda a ação".
O infiltrador, funcionando como cabeça daqueles que ele conseguiu arrastar às ruas, precisa ser protegido na hora da ação: "O povo caminha como tartaruga: com a cabeça protegida".
Deve-se, ainda, criar a ilusão de espontaneidade: "A ação popular deve ser, e por isso mesmo aparecer, uma ação coletiva, assumida por todos".
Revelar o segredo aos poucos
Esse processo deve chegar até à Revolução. Mas, para isso, as mentalidades devem ser longamente preparadas. O processo tem "momentos de ruptura, de saltos em frente. Mas estes só acontecem após um largo período de 'acumulação política'. Esta é que cria as condições de uma revolução".
As reformas, como a agrária, urbana, empresarial, podem ser caminhos preciosos para a revolução final: "É falsa a disjuntiva sumária: reforma ou revolução, pois uma reforma pode ter conteúdo revolucionário".
A apresentação do socialismo, como sendo o objetivo que se quer alcançar, precisa ir sendo feita em meio a um utopismo brumoso, conforme a pessoa ou grupo estejam mais ou menos pervertidos pelo processo: "O objetivo final, que é (...) o surgimento de uma nova sociedade (...) pode ser mais ou menos definido. Pode ter traços ainda utópicos (ideal de uma sociedade reconciliada) ou já políticos (como o projeto 'socialista'). A definição do objetivo (...) depende do próprio processo de crescimento da consciência e das lutas de um povo".
É necessário "uma organização que leve à frente, de modo constante, a caminhada".
É, pois, aos poucos, em meio à busca utópica de uma sociedade justa, que o segredo vai sendo revelado e ganha traços socialistas bem determinados: "O projeto histórico adquire um perfil concreto no seio da utopia (...) a 'sociedade justa' ganha os traços de um 'socialismo' bem determinado". Trata-se, assim, de "um projeto histórico que vá se definindo de forma crescente".
E, como é óbvio, essa preparação das mentalidades para receberem progressivamente a revelação da finalidade socialista para a qual estão sendo sinuosamente conduzidas, não se faz espontaneamente. É necessário haver "uma organização que leve à frente, de modo constante, a caminhada".
Religião: poesia que ajuda à radicalização
É importante a "comunidade viver momentos de poesia e celebração do futuro absoluto. Para isso a religião oferece recursos sem igual".
A esta altura, algum leitor já estará se perguntando o que faz a religião dentro desse plano maquiavélico. Pois, afinal, Frei Clodovis é um religioso servita!
Acontece que o plano todo, como, aliás, também sua realização final, o socialismo, é de um ateísmo raso e vulgar que repugna a qualquer espírito com um mínimo de elevação. Daí o sistemático fracasso dos PCs, em termos eleitorais, sobretudo na América Latina.
Então, para fazer passar pela garganta de um católico esse arenque ressequido do socialismo, é preciso regá-lo com um pouco de molho religioso. Molho esse que, para Frei Clodovis, é uma utopia: "O sonho utópico dá saúde e vigor à prática. Daí a importância da comunidade viver momentos de poesia e celebração do futuro absoluto. Para isso a religião oferece recursos sem igual".
A religião, pois, não deve ser seguida porque ela é verdadeira, porque Deus a revelou, nada disso. Apenas o que há é que o processo rumo ao socialismo, para andar, precisa de um pouco de "poesia". E dentre as várias "poesias" à disposição no mercado mundial, a que mais serve às finalidades socialistas – porque a ela o povo está mais intimamente ligado – é a religião. Então, o ingrediente religião vem preencher a necessidade de utopia do espírito humano.
Seria difícil encontrar uma visão mais ateia da religião do que essa servida por Frei Clodovis!
Uma outra formulação apresentada por ele do papel da religião é igualmente esclarecedora. Diz o religioso, a respeito desse trabalho popular rumo ao socialismo, que há uma "mística desse trabalho (...) trata-se aqui de uma espiritualidade, embora sob traços seculares".
Mais uma vez, porém, essa espiritualidade secular – ou ateia, se se preferir – em torno do marxismo, não consegue galvanizar convenientemente o povo. É preciso que ela seja revestida da capa da religião para ter consistência e atrair os incautos. Assim "tal questionamento atinge sua radicalidade máxima quando reveste a forma religiosa (...). Por isso a mística acima só atinge sua expressão plena como mística religiosa".
Nessa perspectiva, a finalidade da religião seria levar o socialismo ao último grau de radicalidade, e, portanto, também chegar à plenitude do ateísmo. A religião seria um remédio – talvez indesejável, mas necessário -- para a inapetência de socialismo que se registra no povo. E, como todo remédio, perderia sua razão de ser tão logo o socialismo fosse efetivamente alcançado.
Aí ela se tornaria um bagaço, do qual convém desfazer-se o quanto antes. Dentro dessa concepção, não é de estranhar, por exemplo, que na Nicarágua, arrebatado o poder pelos marxistas através da revolução sandinista, com o claro apoio do Episcopado, já tenha começado a perseguição religiosa contra o povo que deseja permanecer católico.
Enquanto, porém, o socialismo não domine efetivamente os países da América Latina, a fórmula geral de atuação do marxismo – "teoria-praxis" – precisa ser adaptada: "Em nosso contexto latino-americano de hoje, essa fórmula geral se concretiza em fé-política".
O povo é conservador. É preciso quebrar-lhe as resistências.
Enganar-se-ia quem achasse que, com o plano até aqui apresentado, tudo estaria já resolvido para os que pretendem implantar o socialismo.
Não é assim. Apesar da capa religiosa e dos mil enganos que vimos, o povo ainda resiste à doutrinação marxista de numerosos sacerdotes. Nega-se a fazer a tal ligação "fé-política", preferindo uma outra, expressa, segundo Frei Clodovis, pelo binômio "fé-vida".
O povo em geral é conservador, não quer saber das transformações enganosas para as quais o convidam os agentes infiltrados, e frequentemente oferece resistência à ação psicológica revolucionária: "O mais das vezes, na religião popular, a ligação fé-vida é mais conservadora do que transformadora (...) trata-se de uma ligação de resistência mais do que de mobilização" (destaque do original).
Para quebrar essas resistências conservadoras do povo, Frei Clodovis recomenda os seguintes estratagemas:
"a) partir da Bíblia, sobretudo de alguns textos que têm um poder de indução política maior; (...)
d) rezar a propósito de problemas e lutas do povo;
e) fazer dramatizações desses problemas e lutas, relacionando-os com alguma passagem bíblica ou com a visão geral da fé;
f) celebrar (em missa, vigília etc.) os eventos comunitários que têm maior conteúdo social e político etc."
Com isso, espera ele que, "à medida em que uma comunidade vai-se engajando nas questões sociais, mais fácil se torna a síntese transformadora entre fé-política".
Porém, cuidado, adverte Frei Clodovis, "há sempre o risco de a prática social e política ser de tal modo envolvente que leve um grupo a enfraquecer e mesmo a perder sua relação com o polo 'fé' e com a comunidade de fé – a Igreja".
O que significa este receio? Afinal teremos aqui uma manifestação de zelo do sacerdote pela Igreja?
Seria ingênuo pensar assim. O religioso teme que se perca a ligação com a Igreja porque... isso levaria o povo a se afastar do agente infiltrado e tiraria toda animação à caminhada marxista: "O descuido nesse ponto leva a (...) diminuir a confiança do povo nos agentes da Igreja e a privar-se – o agente e o povo – de uma fonte de inspiração e animação privilegiada em que consiste a própria fé".
O zelo dele é, pois, pelo marxismo, para que este não perca o inestimável contributo que lhe traz a religião. E, aqui sim, se poderia dizer – oh! espanto, oh! dor – que a religião está sendo usada como ópio do povo.
Frei Clodovis vai ainda mais longe. Não basta utilizar o ingrediente religião, é preciso que ele seja convenientemente adaptado às exigências do socialismo. A própria doutrina da Igreja e sua estrutura devem adequar-se a essa finalidade social-igualitária.
Nisto consistiria a missão da Igreja, e não na salvação das almas: "É preciso adequar convenientemente o modo de estruturação da esfera eclesial (sua doutrina, suas práticas religiosas, e sua organização comunitária) à sua missão, ou seja, às exigências autênticas da esfera social" (destaque do original).
Coerente com essa visualização ateia da religião, o sacerdote servita evoca, no epílogo, a sagrada figura de Nosso Senhor, sem mesmo citar o santo Nome de Jesus, nem apresentá-lo como Deus e Senhor: "Queremos evocar a memória daquele que, dentre todos, melhor soube se relacionar com o povo oprimido e que mais quis e buscou neste mundo a vinda do Mundo Justo, que chamou de Reino".
Portanto, o Reino dos Céus, do qual Nosso Senhor explicitamente disse "o meu Reino não é deste mundo" (Jo. 18, 36), seria, para Frei Clodovis, a implantação do socialismo nesta terra! Em consequência, estariam já em pleno Reino dos Céus, ou pelo menos em fase avançada de implantação dele, a Rússia comunista e seus satélites, Nicarágua e Cuba na América Latina.
O plano, pois, foi revelado, caro leitor. Para os que timbravam em enganar-se a si mesmos e aos outros sobre os verdadeiros métodos e objetivos da "esquerda católica", fica a pergunta: haverá ainda alguma "releitura" de textos ou "reflexão teológica" capaz de "batizar" uma tão descarada profissão de "fé marxista", e um tão maquiavélico plano?