Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 428 | página 02-03
| MATÉRIA DE CAPA |

O PLANO FOI REVELADO
Tentar-se-á ainda "batizá-lo"?

Gregório Lopes


Sinos repicam para prestigiar os invasores da Annoni

NÃO HÁ QUEM, algum dia, não tenha sentido a musicalidade de um sino calar fundo em sua alma, seja a nos chamar para a Missa, seja a nos convidar para a oração do Angelus, ou então, ao exprimir os sentimentos de dor de toda uma paróquia ao dobre de finados pelo passamento de um fiel.

Essa prática – infelizmente cada vez mais minguada a ponto de em muitos lugares estar completamente abolida – foi, por incrível que pareça, um dos meios encontrados pelos organizadores da "Romaria Conquistadora da Terra Prometida" para prestigiar os invasores da Fazenda Anonni, que encerraram sua caminhada de 28 dias na praça em frente à catedral metropolitana (centro de Porto Alegre), em 23 de junho último.

O movimento, desde o seu nascedouro, teve um caráter político-reivindicatório evidente, bem na linha do plano de ação psicológica rumo ao socialismo, revelado por Frei Clodovis Boff. O intuito da "romaria" foi confessadamente o de pressionar o governo a queimar etapas na aplicação da Reforma Agrária.

Não faltou apoio oficial. O prefeito Alceu Collares decretou ponto facultativo para que os 12 mil funcionários municipais participassem do "grande acontecimento político", segundo suas próprias palavras. Ao receber os invasores na entrada de Porto Alegre, o prefeito entregou as chaves da cidade a um deles, salientando que essa caminhada era "um marco inicial do trabalhador do campo para buscar a sua libertação rumo a uma radical, urgente reforma agrária".

Durante a manifestação, o diretório do PC do B gaúcho, por exemplo, distribuiu folheto, no qual afirma que "os acampados da Fazenda Anonni simbolizam a resistência" e que o Partido "luta por uma reforma radical".

Os "sem-terra", como se denominam esses invasores, são liderados por elementos ligados à ala "progressista" da Igreja e recebem apoio de inúmeros organismos esquerdistas do País.

No acampamento da Fazenda Anonni – com cerca de 10 mil invasores – encontram-se, permanentemente, dezenas de padres, religiosos e freiras originários de vários pontos do País. Um de seus líderes visíveis é o Pe. Arlindo Fritzen, já com ampla tradição em açular movimentos de "sem-terra", pois teve parte ativa no acampamento de Encruzilhada Natalino, há cinco anos.

Também Frei Leonardo Boff fez notar – ruidosa e propagandisticamente – sua presença nesses meios que lhe são tão afins. Com efeito, além de visitar os invasores na própria Anonni (transformada, há tempo, numa espécie de "soviet" dirigido pelos acampados, ao qual "estranhos" não podem ter acesso), o inefável frade houve por bem celebrar missa para os invasores na catedral de Novo Hamburgo, que estava no percurso da "romaria".

Nessa ocasião, formulou a seguinte ameaça: "Que o governo diga claramente se quer o projeto (de Reforma Agrária), ou teremos o crescimento da violência. A paciência do povo é grande, mas, no dia em que o povo perder a paciência, tudo pode acontecer" ("Folha de S. Paulo", 19-6-86).

Para ele, não estão ocorrendo "invasões"; na verdade, o povo está descobrindo formas de "realização do direito de ter uma sobrevida", isto é, "ocupando terras" ("Jornal do Brasil" e "Folha de S. Paulo", 19-6-86).

Desde o Município de Sarandi, onde se encontra a fazenda invadida, até Porto Alegre (distante 450 km), deram-se inúmeras outras manifestações incentivando a luta de classes. Durante o trajeto (percorrido a pé), os 250 "romeiros" levavam uma enorme cruz e cantavam músicas como "o povo dos pobres unidos é o machado que corta a raiz do. mal, que é o capitalismo, que o Evangelho contradiz". A noite, os participantes da "romaria" ficavam hospedados em casas paroquiais.

Ao deixarem o monumento do Laçador, na entrada da capital gaúcha, os invasores foram abençoados pelo Bispo-Auxiliar de Porto Alegre, D. Antonio do Carmo Cheuiche, que não achou nada melhor do que lembrar a fuga do povo judeu do Egito, na qual "levavam a mesma esperança que vocês têm hoje".

Depois de passar pelas principais ruas do centro, os manifestantes chegaram à catedral, onde foi realizado ato público. Mais uma vez o elemento "progressista" os festejou, desta vez na pessoa do Bispo-Auxiliar D. Edmundo Kunz – diretor do Seminário Maior de Viamão – que os recebeu na praça da matriz, ao som festivo dos toques de sinos da Catedral.


* * *

IMAGINE O LEITOR UMA NAÇÃO na qual numerosos agentes de um país inimigo penetraram clandestinamente. E ali, por um processo maquiavélico e oculto, procuram perverter os habitantes, transformando-os em soldados do adversário. Um dos nacionais percebe o plano, e com ajuda de amigos o denuncia.

Muitos, porém, não creem na denúncia. Habituados a deixar-se guiar só pelas aparências, acham desagradável o esforço de uma observação mais cuidadosa. De outro lado, não querem ver de frente uma situação incômoda que os obrigaria a sair do letargo, e a pôr-se em condições de enfrentar o mal que avança. "O plano é maquiavélico demais para ser verdadeiro", respondem aos que lhes querem abrir os olhos.

Certo dia, entretanto, os próprios agentes, talvez por se sentirem muito seguros de sua posição, talvez ainda por inadvertência, inépcia ou qualquer outra razão, publicam eles próprios seu maquiavélico plano.

Crerão desta vez os habitantes do país infiltrado, naqueles que os avisavam? Passarão a defender-se da infiltração? Se não o fizerem, o que merecem da Providência Divina?

Estas considerações, caro leitor, não são puramente imaginativas. Elas têm uma base real, e muito real. O plano foi revelado.

Qual plano? O da guerra psicológica revolucionária que vem sendo levado a cabo pela "esquerda católica"(*), com o fim de arrastar o Brasil para o socialismo. Em um livreto de 120 páginas ("Como trabalhar com o Povo", Vozes, Petrópolis, 1985), Frei Clodovis Boff – irmão daquele outro Frei Boff, que recentemente se envolveu num caso com a Santa Sé – ensina aos chamados agentes de pastoral como manipular o povo católico para, a partir da fé, transformá-lo em militante do movimento socialista.

(*) Dentre as muitas denúncias feitas pelo Prof. Plinio Corrêa de Oliveira dos planos da "esquerda católica", ver particularmente seu substancioso artigo "'Esquerda católica' – conscientização – revolução: alerta da TFP", em "Catolicismo", n°s 406/407, de out./nov. de 1984.

E o modo de operar essa ação psicológica profunda, detalhadamente estudada, que Frei Clodovis revela em seu escrito. Ele a rotula: "Trabalho popular".

O agente externo infiltrado

"O trabalho popular tem um caráter decididamente político".

O trabalho popular, diz ele, parte da sociedade atual como ela está organizada e quer chegar à "sociedade igualitária". E acrescenta: "O trabalho popular tem um caráter decididamente político (...) visa a transformação da sociedade".

Para atingir esse objetivo é necessário infiltrar no povo agentes que o arrastem até onde ele nunca iria por si mesmo: "Para que tudo isso possa se realizar ("uma sociedade libertada e igualitária") é absolutamente necessário que o agente se insira no meio popular".

Quem é o infiltrado? "O agente externo não é só diferente do povo por sua extração e/ou situação de classe, mas também por sua posição no processo ou caminhada de libertação (...) Importa que o agente (...) reconheça e assuma sua posição específica junto ao povo (...) De fato, é uma ilusão se dizer ou se pretender 'igual ao povo". E mais adiante: "Trata-se sempre de uma presença qualificada".

"É uma ilusão (do agente pastoral) se dizer ou se pretender 'igual ao povo'".

O infiltrado começa por reduzir o povo a um estado de dependência: "O trabalho de um agente no processo popular leva inicialmente o povo a uma certa dependência do agente". Assim, numa primeira fase, o agente externo deve agir em relação ao povo, afirma Frei Clodovis, "como se o carregasse". Seu papel é fundamental: "A história (...) com o agente pode dar um passo em frente, por vezes decisivo".

Para que sua ação seja eficaz, o infiltrado deve tomar cuidado para não se deixar influenciar pelo que o povo diz, pois "o que o povo diz interessa menos do que aquilo que ele quer dizer o povo diz uma coisa para significar outra". Em primeira instância, afirma o religioso servi-la, o povo não é "juiz de seus interesses".

O povo nos é apresentado, pois, à maneira de um débil mental. O que ele diz não representa seus interesses. Ele precisa de uma espécie de tutor, ou curador de loucos – no caso o agente externo infiltrado – que interprete suas necessidades e o carregue nas costas, mesmo contra seus desejos expressos, a caminho da tal "sociedade igualitária".

Essas são, adverte Frei Clodovis, algumas das "atitudes fundamentais que estão por trás do trabalho popular".

O agente "educa" o povo

Numa primeira fase, para não se indispor com o povo, o agente infiltrado precisa "tomar pé na realidade", lançar sondas em busca do campo propício onde iniciar a ação psicológica revolucionária. Deve fazer "uma sondagem em torno de algum problema (saúde, religião etc.)" porque "é da terra da realidade, especialmente da realidade contraditória, que pode nascer um trabalho popular promissor. Pois é em torno de necessidades ou interesses vitais que o povo pode se mexer".

A proposta revolucionária do infiltrador precisa ser enxertada nas mentes das vítimas de um modo que pareça natural: "É preciso começar, mas sempre a partir de um ponto de inserção, sobre o qual se enxerta a própria proposta". Dado esse primeiro passo, "reunido enfim o grupo em torno de um problema definido, está deslanchado o trabalho popular".

Esse "primeiro momento (reflexão) tem um cunho essencialmente educativo (...) visando (...) a conscientização". Trata-se, pois, de "educar" o povo, ou seja, convencê-lo de que ele deve fazer a revolução. Tal educação deve ser feita por meio do diálogo, mas não de um diálogo qualquer: "O diálogo exige uma certa disciplina (...) a de centrar o debate em torno de um problema definido (...). Note-se que o diálogo se faz em torno da prática; 'vida social é essencialmente prática' (Tese VIII de Marx sobre Feuerbach)".

Fica claro, portanto, que o tal diálogo é dirigido segundo o método marxista. Mas não se trata, para o infiltrador, no primeiro momento, de explicar as ideias marxistas, sem preparação prévia. Pois, "uma ideia só se fixa na alma do povo quando se enraíza no chão de sua própria vida. Se este chão não está preparado, pouco adianta semear".

Ainda quanto à "educação" ou "reflexão" é preciso distinguir três momentos: ver, julgar e agir.

"Evitar a ilusão do objetivismo, que entende a realidade como algo de meramente objetivo (...). Não se trata também da realidade tal como se exprime nos desejos expressos, nas expectativas manifestas e nos interesses imediatos do povo".

VER. – A educação deve "partir da realidade". O que é ela? A primeira coisa a considerar é que essa "realidade" não é a realidade objetiva: "Não se trata de uma realidade bruta e externa, tal como um analista de fora pudesse apreendê-la (...) aqui convém evitar a ilusão do objetivismo, que entende a realidade como algo de meramente objetivo, de exterior ao povo".

A tal "realidade" também não corresponde ao que o povo vê: "Não se trata também da realidade tal como se exprime nos desejos expressos, nas expectativas manifestas e nos interesses imediatos do povo". O que o povo quer não interessa, pois ele é um alienado: "A questão donde arranca o processo de reflexão conscientizadora não é: 'O que é que vocês querem?' Se se entra por aí, cai-se no subjetivismo, onde se movem as ideias alienadas do povo, seus sonhos utópicos e seus desejos falseados".

Mas, afinal, o que é essa "realidade", ponto de partida da revolução? Simplesmente o dogma marxista da luta de classes: "Partir da realidade: trata-se particularmente de 'conflitos' que atingem a vida do povo (...) são suas lutas".

"O agente externo custa a se habituar com este fato: que o povo vive na opressão".

Estamos, portanto, diante de uma ideia de realidade pré-concebida, que se quer inculcar no povo. Frei Clodovis insiste nisso. A metodologia "só é bem aplicada quando inspirada (...) por uma concepção geral prévia da realidade" (negrito nosso).

É tão artificial essa ideia de que a luta de classes é a realidade que, ao tomar contato com a vida do povo, o próprio agente infiltrador pode ficar inseguro quanto a tal dogma. Para exorcizá-lo dessa tentação perigosa, o religioso adverte: "O agente externo custa a se habituar com este fato: que o povo vive na opressão".

Dentro dessa concepção, qualquer pretexto serve de ponto de partida para deslanchar o processo revolucionário, se bem orientado pelo agente infiltrador: "Quando se toma a questão da família, da escola ou da saúde, acaba-se levantando o problema do sistema social vigente. Seja lá qual for a porta de entrada, chega-se sempre ao núcleo da questão, que é o modo de organização social".

Para que o conflito-pretexto de fato vá no caminho da revolução, "o agente há de estar extremamente atento a cada passo" e seguir sempre "dois critérios básicos: 1) que aquela ação vá na boa direção, isto é, que signifique um passo em frente na linha da mudança do sistema; 2) que a ação seja assumida pelo povo como sujeito possivelmente protagônico da mesma".

JULGAR. – Quando se obtém que a vítima do processo veja os fatos de sua vida como sendo parte de um conflito de classes, deve-se levá-la a analisar assim toda a sociedade: "Novo passo não significa apenas saber mais alguma coisa acerca da própria realidade. Isso vale numa primeira fase, até que se dê o salto qualitativo da 'consciência crítica'. Esta (...) passa a questionar o sistema todo".

Dado esse salto qualitativo, é necessário submeter a vítima a uma doutrinação

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