Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 409 | página 16-17

Eminentes especialistas norte-americanos admitem a possibilidade de qualquer Ordem de clausura da Igreja Católica poder agora ser atingida por nova perseguição religiosa, sob o pretexto de que promove "lavagem cerebral". Por exemplo, a prática heroica da virtude cristã por Santa Teresinha – a qual aparece na foto com suas irmãs e uma prima, no Carmelo de Lisieux – poderia ser acusada de genuíno fruto de lavagem cerebral.

| "LAVAGEM CEREBRAL": EXPRESSÃO DE GRANDE EFEITO PUBLICITÁRIO... | (continuação)

4. Importante derrota sofrida pelos partidários da "desprogramação"

NOS ESTADOS UNIDOS há numerosos movimentos organizados para o combate às novas religiões, os quais contam inclusive com o apoio financeiro de fundações. Esses movimentos procuram orientar e dar apoio aos pais que se mostram descontentes com a participação de seus filhos nas assim chamadas "seitas" ("cults"), e que desejam afastá-los delas.

Dois são os procedimentos adotados: o sequestro puro e simples do filho, mantendo-o aprisionado em algum hotel isolado (nos EUA, motel), para efeito de "desprogramação"; ou o recurso aos Tribunais para obter a tutela desses filhos maiores de idade, com o mesmo objetivo. Vários tribunais distritais ou estaduais vinham concedendo com alguma frequência essa tutela.

O processo de "desprogramação", ao qual já foram feitas aqui algumas referências, vai desde a forma branda de simples conversas com o "desprogramador", em ambiente de relativa liberdade, até a forma mais drástica, e também mais frequente, que consiste na virtual manutenção do sequestrado ou tutelado em cárcere privado durante dias ou semanas. O "desprogramador" (que pode ser um ex-membro da seita visada, ou alguém que vive desse métier, sem nenhuma qualificação especial em teologia, filosofia ou psicologia (3), procura destruir por todos os meios as novas crenças do indivíduo.

(3) Um dos mais conhecidos "desprogramadores" dos Estados Unidos, Ted Patrick, por exemplo, nem sequer concluiu o curso secundário. Seu discípulo, Joe Alexander Senior, é um antigo vendedor de carros usados; outro desses "profissionais" era detetive particular e um outro, ainda, advogado. Alguns apresentam como única credencial o fato de terem sido eles próprios "desprogramados" para abandonar alguma "seita".
Com muito propósito comentam Bromley e Shupe: "Se isso constitui um preparo legítimo para lidar com a personalidade de alguém, o que dizer da psiquiatria e da psicologia? O fato de ter sofrido uma cirurgia qualifica uma pessoa para ser cirurgião? É tolice pensar assim; entretanto os 'desprogramadores' frequentemente baseiam suas qualificações em semelhante lógica" (op. cit., p. 203).

Segundo relatos, são utilizadas técnicas como privação do sono, diminuição ou até supressão da alimentação; ingestão forçada de alimentos proibidos ao crente; desmoralização dos líderes do movimento; interpretação da Bíblia ou dos livros "sagrados" das seitas; humilhações morais e físicas, como obrigar a se despir e insultos de baixo calão; provocações, segundo se comenta, para a prática de atos sexuais e mesmo agressões sexuais; etc. É por isso que a "desprogramação" tem sido acusada de ser, ela mesma, uma forma de "lavagem cerebral" (cfr. ANSON D. SHUPE, JR. & DAVID G. BROMLEY, The new vigilants – Deprogrammers, anti-cultists and the new religions, Sage Publications, Beverly Hills – London, 1980, 267 pp.; DAVID G. BROMLEY & ANSON D. SHUPE, JR., Strange Gods – The Great American Cult Scare, Beacon Press, Boston, 1981, pp. 186-190; EILEEN BARKER, With enemies like that: some functions of deprogramming as an aid to sectarian membership, in BROMLEY & RICHARDSON, op. cit., pp. 329-344).

A concessão da tutela de pessoas maiores de idade interditas por razões religiosas (transparentemente disfarçadas sob o véu da alegada "lavagem cerebral") fere os princípios de liberdade de religião e de associação, consignados em praticamente todas as constituições do mundo moderno (inclusive as dos países comunistas, embora apenas pro forma). No caso dos Estados Unidos, ela viola diretamente a famosa "Primeira Emenda Constitucional", que versa especificamente sobre essa matéria:

"Emenda I – O Congresso não poderá fazer nenhuma lei adotando uma religião como oficial do Estado, ou proibindo o livre exercício dos cultos, cerceando a liberdade de palavra ou de imprensa, ou o direito do povo de se reunir pacificamente ou de dirigir ao governo petições para a reparação de agravos" (The Constitution of the United States of America – Annotated, United States Printing Office, Washington, 1938, p. 37).

Por outro lado, como se pode tomar uma decisão judicial séria com base em uma acusação tão destituída de fundamentação científica como a de "lavagem cerebral"?

O famoso "caso Katz" veio mostrar a inconsistência jurídica das concessões de tutela para efeitos de "desprogramação". Em 1977, o Tribunal Superior do Estado da Califórnia para a Cidade e Comarca de San Francisco concedeu aos pais de cinco jovens "moonies" (adeptos da Igreja da Unificação Universal, do coreano Sun Myung Moon) a tutela dos filhos maiores de idade, para "permitir a desprogramação dos tutelados de ideias alegadamente instiladas por uma seita religiosa", conforme rezava a sentença. Houve recurso e a Corte de Apelações do Primeiro Distrito do Estado da Califórnia deu ganho de causa aos apelantes:

"A Corte de Apelações – diz a nova sentença – presidida por Sims, considerou entre outras coisas: 1.º .... 2.° a lei segundo a qual o processo foi instruído era inconstitucionalmente vaga; e 3.º as provas apresentadas nessa causa não justificavam a designação de tutores para a pessoa. A apelação foi outorgada. ....

As provas apresentadas nos autos para a designação de pais como tutores de jovens adultos, para efeitos de 'desprogramação' de ideias alegadamente instiladas nos tutelados por uma seita religiosa, eram insuficientes para mostrar qualquer indício que justificasse a designação de tutores temporários. ....

O fato de um tribunal designar seus pais como tutores temporários, para efeitos de 'desprogramá-los' de ideias alegadamente instiladas por uma seita religiosa, foi uma violação do direito à liberdade religiosa dos jovens adultos" ("California Reporter", n.° 141, p. 234).

Nos considerandos da sentença, os dois juízes que a exararam citam uma outra decisão anteriormente adotada pela mesma Corte de Apelações a respeito dos direitos do adulto:"O interesse da liberdade de um adulto pode ter um peso suficientemente maior que o interesse do Estado em promover uma saúde mental ótima; e que o Estado não pode confinar um adulto não perigoso meramente para efeitos de tratamento de uma enfermidade mental dessa pessoa" ("California Reporter", n.° 141, pp. 252-253).

Lembram ainda os juízes que, além da liberdade religiosa, a Constituição americana garante também a liberdade de associação e de expressão às organizações qualificadas como políticas e não como religiosas.

Foram ouvidos pela Corte de Apelações um psiquiatra e um psicólogo da parte dos pais, e outros especialistas da parte dos apelantes. Segundo consta das considerações dos juízes, o psiquiatra que testemunhou a favor dos tutelados"assinalou que a 'persuasão coercitiva', não fazendo uso de drogas, hipnose, cativeiro físico ou medo intenso, não passava de uma teoria especulativa, e que as experiências em que se basearam os peritos dos pais não eram outra coisa senão as que normalmente acompanham a prática de uma crença religiosa" ("California Reporter" n.° 141, p. 250).

A partir dessa sentença, notável por seu bom senso e equidade, o número de concessões de tutela de pessoas maiores sob a alegação de "lavagem cerebral" caiu de modo muito significativo.

5. "Desprogramação": um precedente perigoso, de aplicações ilimitadas e incontroláveis

DE INÍCIO a "desprogramação" vinha sendo aplicada apenas a jovens que, contra a vontade dos pais, haviam aderido a alguma das chamadas "seitas" ou "novas religiões", para "libertá-los" das crenças "exóticas" que lhes teriam sido ali inculcadas por meio de artifícios psicológicos, como a "lavagem cerebral".

Entretanto, aberto o precedente, era inevitável que pais descontentes com a mudança de comportamento dos filhos se sentissem tentados a empregar o mesmo recurso, seja para impedir as conversões às religiões de livre prática no país, como até mesmo para resolver problemas familiares sem nenhuma implicação religiosa.

Assim, registraram-se casos como o daquela mãe de Oregon que, em 1979, contratou o mais conhecido "desprogramador" dos Estados Unidos, Ted Patrick, para "desprogramar" sua filha de 31 anos, alegadamente sob influência psicológica do noivo (nenhum grupo religioso ou crença estranha estava em jogo: apenas a mãe não gostava do rapaz). O mesmo Ted Patrick fora contratado pelos pais de duas moças maiores de idade (21 e 23 anos), porque elas resistiam a aceitar o costume tradicional grego (a família pertencia à Igreja Ortodoxa Grega), segundo o qual as filhas devem morar com os pais até que estes lhes arranjem um marido conveniente (cfr. BROMLEY & SHUPE, op. cit., p. 184).

Característico e de grande repercussão foi o caso de Debby Dugeon, uma jovem canadense de 22 anos que se convertera do protestantismo para o catolicismo. Seus pais contrataram Ted Patrick para fazê-la voltar atrás e repudiar a sua conversão. A jovem foi conduzida aos Estados Unidos e submetida a "tratamento" por duas semanas. Mas a jovem encontrou meio de se comunicar com a polícia, e seus sequestradores foram obrigados a soltá-la. Dessa forma ela escapou à "desprogramação" e permaneceu fiel à Fé católica (EILEEN BARKER, art. cit., in BROMLEY & RICHARDSON, op. cit., p. 340).

6. Divisão da família e "lavagem cerebral" – As "histórias de atrocidades"

EM GERAL se costuma apresentar os movimentos religiosos como grandes fatores de divisão nas famílias (curiosamente não se fala no proselitismo comunista, na decadência dos costumes, nos efeitos corrosivos da TV e em tantos outros fatores...). E os movimentos anti-seitas se apresentam como os grandes defensores das famílias divididas. Robbins e Anthony, entretanto, apresentam uma visão mais realista do problema:

"Os membros do movimento anti-seita afirmam que a realidade social que eles protegem é a integridade da família americana.

Parte da motivação para conversões aos movimentos religiosos populares da atualidade é a decadência da vida familiar norte-americana. Contudo, o movimento anti-seita não só fracassa ao querer proteger a família, mas pode de algum modo apressar sua decadência" (THOMAS ROBBINS & DICK ANTHONY, New Religions, Families and "Brainwashing", in ROBBINS & ANTHONY, op. cit.; p. 268).

Este papel negativo dos movimentos anti-seita deve-se ao fato de que eles acirram as relações entre pais e filhos, ao procurar a aliança com os primeiros em sua luta contra a atitude dos filhos.

Por outro lado, problemas de divergência religiosa não se resolvem com campanhas terroristas de imprensa, com raptos ou "desprogramações", mas com o esclarecimento sereno e objetivo da verdade. Entretanto, para pessoas eivadas de relativismo, o que significa a verdade? Não é justamente a crença em qualquer verdade religiosa tida por absoluta que esse movimento combate?

Conforme Bromley, Shupe e Ventimiglia, professores da Universidade do Texas, os movimentos anti-seita lançam mão de "histórias de atrocidades" para desacreditar as organizações às quais se opõem. Os referidos professores assim se exprimem:

"Pode-se definir atrocidade como um fato que é considerado violação flagrante de um valor cultural fundamental. Analogamente, uma história de atrocidade é a apresentação de tal fato (real ou imaginário) de modo a:

1) provocar repugnância moral, ao descrever circunstanciada e pormenorizadamente as violações de valor;

2) justificar, implícita ou explicitamente, sanções punitivas;

3) desencadear ações de controle contra os supostos infratores" (The Role of Anecdotal Atrocities in the Social Construction of Evil, in BROMLEY & RICHARDSON, op. cit., p. 140).

O movimento anti-seita se depara, pois, com o seguinte dilema: ele precisa contar com o apoio dos pais, muitos dos quais fazem parte dele; e, por outro lado, tem necessidade de difundir "histórias de atrocidades" ("anecdotal atrocities" ou "atrocity tales") a respeito das seitas ou movimentos anticomunistas, para justificar sua atuação contra estes. Como, entretanto, fazer isso sem ferir a susceptibilidade dos pais atribuindo aos filhos a participação em atos reprováveis?

Esses especialistas descrevem o dilema com que se depara o movimento anti-seita, e a saída encontrada para ele: a técnica de rotulagem pejorativa dos grupos ou seitas. Lança-se sobre tais movimentos a culpa dos alegados atos reprováveis, poupando ao mesmo tempo os seus membros jovens (mas não, evidentemente, os dirigentes):

"No caso dos novos movimentos religiosos, o problema com que se deparam seus críticos ao aplicar os rótulos pejorativos é que as novas religiões são largamente compostas de jovens adultos, filhos de pais que estão liderando e apoiando o 'movimento desprogramador'. Sustentar que as novas religiões são más é, portanto, difamar aquelas 'crianças' que se espera salvar e, indiretamente, os pais que as educaram. Um modo de resolver esse dilema é rotular como maus os movimentos, e não a seus membros, tratando-os individualmente como vítimas. Um recente estudo (Shupe, Spielmann & Stigall, 1977a: 951) delineou quatro etapas progressivas nesse processo de rotulação. O raciocínio implícito contido na negação da legitimidade da crença por parte dos membros das novas religiões parece reduzir-se ao seguinte: 1) meu (filho, filha, membro da família) abraçou uma religião 'estranha'; 2) somente pessoas intrinsecamente 'estranhas'

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"Rotular como lavagem cerebral qualquer doutrinação, ensino, ou filosofia à qual se adere voluntariamente é certamente errôneo e inclusive perigoso", adverte a psicóloga norte-americana Trudy Solomon.