Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 409 | página 10-11

| "LAVAGEM CEREBRAL": EXPRESSÃO DE GRANDE EFEITO PUBLICITÁRIO... | (continuação)

das Nações Unidas, 88.000 – ou seja, 51% deles – recusaram a repatriação para não serem entregues nas mãos dos comunistas!). ....

Assim, a mistificação da 'lavagem cerebral' está refutada de modo concludente" (Louis JOLYON WEST, Psychiatry, "Brainwashing", and the American Character, reprinted from "The American Journal ofPsychiatry", vol. 120, n.º 9, março de 1964, p. 844).

Outro cientista, o já citado psiquiatra britânico James A. C. Brown, escreve:

"Mas a noção de que a percepção subliminar, a lavagem cerebral ou qualquer outro artificio, possa produzir na mente humana e de modo permanente, uma ideia completamente estranha a esta, e assim influenciar o comportamento, deve ser repelida como absurda" (op. cit., p. 221).

"Toda a falácia sobre a lavagem cerebral (se por isto se entender que uma ideologia possa ser implantada de modo permanente na mente de uma pessoa, independentemente de suas crenças primitivas e das circunstâncias exteriores) é uma noção estranha, implícita no livro de Sargant, 'Battle for the Mind', de que uma ideia é uma 'coisa' localizada no cérebro, que pode ser implantada ou retirada à vontade" (op. cit., p. 291).

Há casos, entretanto, em que a "lavagem cerebral" aparentemente produz algum resultado. O oportunismo pode induzir pessoas a externar pensamentos e a tomar atitudes que não são os seus, e sim os do ambiente dominante. Quando a pessoa em causa tem ideias firmes e uma personalidade coerente, que pedem a conformidade de suas atitudes com suas ideias, esse esforço de conformismo pode ser muito penoso. Ele o é bem menos quando as convicções e as atitudes da pessoa divergem pouco das que o ambiente dominante tende a impor. Pode dar-se até que, além das razões de interesse, o oportunista tenha tendências, afinidades, simpatias para com o diktat do ambiente dominante. Neste caso, o oportunismo cria condições psicológicas favoráveis à inteira e livre absorção do diktat dominante.

Exprime-o com clareza o mesmo Dr. Brown, já citado: "O que vimos é que o indivíduo aceitará uma crença substitutiva, seja porque esta é capaz de desempenhar a mesma função da crença antiga — por exemplo, satisfazer a necessidade de um credo totalista que lhe proporcione certeza, e que controle seus impulsos 'maus' — , seja porque a crença se converteu em ortodoxia, e é natural conformar-se a ela, a não ser que o indivíduo esteja disposto a tornar-se um pária social. Assim, em uma sociedade comunista a lavagem cerebral provavelmente funcionará, mas não é necessária, uma vez que, a longo prazo, as pessoas tendem a conformar-se simplesmente por serem sociáveis; mas quando é aplicada em indivíduos de mentalidade não totalista, se estes regressarem a uma sociedade não comunista, ela absolutamente não funcionará. Assim como a tortura física comum, ela pode levar uma pessoa a fazer confissões — verdadeiras ou não — ; também, como a tortura comum, não mudará seus pensamentos. A única exceção a esta regra é, como foi mencionado acima, quando a nova crença mostra-se um substitutivo perfeito das antigas. Fora dessas situações, temos que concluir que a lavagem cerebral é, sobretudo, conversa fiada" (op. cit., p. 292-293).

11. Um conceito que nenhum cientista pode aceitar

ALIÁS, o próprio termo "lavagem cerebral" não é aceito pelos especialistas, por não corresponder a nenhuma realidade científica.

Escreve o já citado Dr. Brown: "Não é preciso dizer que nenhum pensador científico poderia aceitar ou utilizar o conceito de lavagem cerebral; a lavagem literal do cérebro físico não poderia remover traços de memória, de algum modo comparável à desmagnetização de uma fita de gravador; além do mais, a própria ideia de eliminar as lembranças, 'deixando a lousa limpa' e substituindo-as por outras novas, é ridícula" (op. cit., p. 253).

12. Uma verdade esquecida: "O homem é um animal racional"

A PROPÓSITO das tentativas ao longo da História de modificar as opiniões alheias, escreve ainda o Dr. James A. C. Brown: "A violência direta ou a ameaça de violência podem produzir a submissão à vontade de outro indivíduo ou grupo; mas os pensamentos são criados e modificados sobretudo pela palavra, falada ou escrita. Assim, embora na chamada 'lavagem cerebral' as palavras possam ser complementadas por um tratamento físico constrangedor, e na publicidade comercial por música ou imagens agradáveis, é evidente que mesmo nesses casos as armas essenciais são verbais, ou, de qualquer modo, simbólicas, e os resultados procurados são de ordem psicológica. De maneira geral, e com poucas exceções, transformações psicológicas exigem técnicas psicológicas, e é principalmente com essas influências, antes que com a obediência externa acarretada pelo emprego exclusivo da força, que nos preocuparemos neste livro" (op. cit., p. 9).

Isto porque, sendo o homem uma criatura racional, é impossível mudar-lhe as convicções sem se dirigir à sua razão, conforme comenta muito bem C. A. Mace, no prefácio ao citado livro do Dr. Brown: "O homem tem uma capacidade para raciocinar e ser influenciado pela razão, que um tigre faminto, por exemplo, não possui. É interessante e significativo o fato de que os propagandistas religiosos e políticos, bem como os agentes de publicidade, se esforcem tanto para conceber argumentos (capciosos) dirigidos à razão do homem. Estes argumentos constituem um testemunho involuntário da racionalidade do homem" (op. cit, p. 7).

Ora, essa racionalidade do homem é, implícita ou explicitamente, negada por aqueles que afirmam ser possível, prescindindo de qualquer argumentação lógica e racional, "remodelar coercitivamente a visão política de um indivíduo a fim de que abandone suas crenças anteriores", e levá-lo a "aceitar como verdadeiro o que ele previamente aceitava como falso e a considerar falso o que antes via como verdadeiro", o que constitui, segundo Somit, o objetivo visado pela "lavagem cerebral" (ALBERT SOMIT, verbete Brainwashing, in International Encyclopedia of the Social Sciences, The McMillan Co. & The Free Press, 1968, vol. 2, p. 138).

Por outro lado, os especialistas em psicologia social lembram um outro princípio, também muito esquecido por aqueles que lançam sobre as pessoas e instituições das quais não gostam a acusação de "persuasão coercitiva": "É axiomático que não podem ser ensinadas pessoas que, ao mesmo tempo, sentem estar sendo atacadas" (GORDON W. ALLPORT, apud BROWN, op. cit., p. 67).

Os métodos brutais de coerção e constrangimento físico ou moral e de pressão psicológica contidos no processo conhecido por "lavagem cerebral", podem, segundo os cientistas, produzir modificações (aliás superficiais e temporárias) no comportamento externo dos indivíduos. Mas para modificar-lhes as convicções, é preciso dirigir-se à sua racionalidade.

13. Uma técnica anti-econômica até para o Estado

O CIENTISTA SOCIAL Albert Somit, depois de questionar seriamente a eficácia da "lavagem cerebral", dá base para concluir que tais técnicas, pelo seu custo elevado, estão fora do alcance de indivíduos ou grupos privados: "As condições requeridas para que a lavagem cerebral tenha êxito fazem dela uma das técnicas mais caras e antieconômicas ao alcance do Estado moderno. Para ser bem-sucedida, ela pede um conjunto ambiental extraordinariamente estruturado e controlado, e um enorme investimento de dinheiro e de pessoas" (ALBERT SOMIT, op. cit., p. 142).

14. "Lavagem cerebral", um conceito que destrói as bases do Direito e desprestigia a psiquiatria moderna

O MITO criado em torno da "lavagem cerebral" – um misterioso método de "sequestrar" ou "aprisionar" a vontade alheia – alcançou seu ponto culminante no folclore popular (e não somente popular, como se verá) com o famoso caso de Patrícia Hearst.

Em 1974, essa jovem herdeira milionária da cadeia de jornais Hearst, foi sequestrada por um minúsculo movimento terrorista dos Estados Unidos, o Exército Simbionês de Libertação. Algum tempo depois, a despreocupada e blasée milionária tornou-se uma perigosa guerrilheira urbana, tendo-se convertido à ideologia de seus captores.

Com o pseudônimo de Tânia, passou a enviar mensagens revolucionárias em fitas magnéticas, a deixar-se fotografar com metralhadora na mão diante do símbolo exótico do Exército Simbionês e, o que é mais grave, a participar de ações armadas, como o assalto a um banco e a uma loja.

Mudança tão rápida no tipo de comportamento de uma moça mimada (poucos sabem que ela vivia maritalmente com um estudante de pós-graduação na Universidade de Berkeley), encontrou fácil campo para a explicação do que "é" lavagem cerebral. Tendo ficado presa alguns dias em um armário, só mantendo contacto com seus captores e recebendo informações só através deles, isso teria bastado para que seu cérebro fosse "lavado".

Presa em fins de 1975 e julgada em 1976, seu caso apaixonou a opinião pública não somente norte-americana, mas mundial. Sobretudo porque seu pai era dono de uma cadeia de jornais, o que tornava a publicidade garantida...

A defesa da herdeira Hearst, dirigida pelo advogado F. Lee Bailey, procurou explorar ao máximo a tese da "lavagem cerebral". Na lógica do mito criado, Patrícia não seria culpada, porque não teria sido ela quem agira, ou melhor, teria sido ela, mas dominada pela "vontade" de Tânia, a guerrilheira criada pela "lavagem cerebral"... Assim, Patrícia não poderia ser condenada pelos crimes de Tânia...

Em nenhum outro caso, talvez, a noção folhetinesca de uma pessoa que é transformada em "zumbi" ou "robô" teledirigido por outrem foi tornada tão clara como neste. E talvez nunca se tenha pretendido tirar todas as consequências lógicas de tal conceituação. Na extrema ponta dessas consequências se põe razoavelmente a seguinte pergunta: se alguém pratica um assalto à mão armada sob o efeito de um misterioso processo que o priva de sua vontade, pode ser culpado por esse crime?

Se tal hipótese é cientificamente possível, como se manterá o edifício do Direito, todo ele construído com base na responsabilidade pessoal e, portanto, na vontade livre? Foi a advertência que fez na época o diretor da Faculdade de Direito da Universidade de Berkeley, Sanford Kadish, falando à revista "Newsweek" (What is brainwashing?, 1.0-3-76, p. 31): "[Essa hipótese] abre as portas para abusos e ameaça os fundamentos do direito, na medida em que este se baseia no livre arbítrio e na responsabilidade".

O mesmo artigo da revista "Newsweek" traz a seguinte declaração digna de nota do psiquiatra Marvin Ziporyn, de Chicago: "A lavagem cerebral é um mito imposto ao público norte-americano. As pessoas podem ser objeto de propaganda e ideias novas podem ser-lhes ensinadas, mas isso não é lavagem cerebral" (id., ib.).

Por outro lado, um especialista em "lavagem cerebral", o psiquiatra John E. Nardini, consultor da Aeronáutica dos Estados Unidos para reabilitação dos prisioneiros de guerra (ele mesmo um ex-prisioneiro da II Guerra Mundial), em declarações a "The New York Times" (28-5-74, p. 30), "afirmou que um indivíduo que tenha sido objeto de lavagem cerebral, do mesmo modo que alguém sob os efeitos da hipnose, não pode ser forçado a cometer um ato que vá contra seus princípios morais".

Sendo assim, mesmo que se admita que a "lavagem cerebral" produz algum efeito narcotizante ou transformador da personalidade, não se pode atribuir-lhe o efeito de dominar a vontade de outrem naquilo que lhe é mais fundamental, como são os princípios morais pelos quais a pessoa se guia. Portanto, a "lavagem cerebral" não tem o efeito de realizar uma "conversão forçada", que é precisamente o poder que lhe é atribuído, aliás sem nenhuma base científica, como foi visto.

A família Hearst conseguira, não obstante, que conhecidos psiquiatras, os quais haviam escrito sobre o assunto, testemunhassem em defesa de Patrícia, atestando que as ações dela eram fruto de um processo de "lavagem cerebral'. Tal fato podia deixar o público ainda mais confuso sobre a fundamentação científica do supostamente irresistível e misterioso processo de "lavagem cerebral". E assim punha em questão grande número de decisões da Justiça norte-americana.

O Dr. Walter Reich, professor de psiquiatria, Diretor do Programa de Educação e Treinamento Psiquiátrico no prestigioso National Institute of Mental Health, bem como Diretor do Programa de Ciências Médicas e Biológicas no Washington School of Psychiatrics, publicou então uma nota na importante e conceituada revista especializada "Psychiatric", onde apontava o perigo de psiquiatras se apresentarem como "peritos" em "lavagem cerebral", no decorrer de processos judiciários, uma vez que não há estudos científicos e formas de comprovação suficientes para habilitar tais peritagens. Uma incursão desse tipo em campo tão contestado – alertava o Dr. Reich – só pode trazer o desprestígio para a seriedade da psiquiatria forense. Por outro lado, do ponto de vista do Direito, faz voar pelos ares a própria base do Direito criminal, ao destruir o conceito de responsabilidade decorrente da vontade livre.

Essa nota do conceituado psiquiatra teve enorme repercussão, sendo frequentemente citada pelos autores que tratam do tema da "lavagem cerebral", quer do ponto de vista jurídico, quer sociológico ou psicológico.

Pela sua importância, e também pela clareza com que o Dr. Reich focaliza o problema, convém citar aqui alguns trechos de sua nota:

"Enterrada como uma ameaça externa há mais de vinte anos, exumada, examinada, e de novo enterrada uma ou duas vezes desde então, a lavagem cerebral ressuscitou de novo, e desta vez para tomar lugar no palco dos horrores domésticos.

"O problema é que nem tudo é teatro. Duas importantes instituições estão ameaçadas: o direito, que terá que rever seus fundamentos filosóficos, e a psiquiatria forense, que poderá perder a credibilidade tão penosamente conquistada. Bem pode ser que nem uma nem outra resistam à ameaça.

"Evidentemente foi o julgamento Hearst que trouxe o tema à baila. Em um tipo de defesa até aqui desconhecido, F. Lee Bailey sustentou que Patrícia Hearst não devia ser considerada responsável pelo assalto ao Hibernia Bank, sob a alegação de que ela havia sido uma participante involuntária. Declarou, antes de mais nada, que ela havia sido coagida. ....

"Bailey convocou uma verdadeira bateria de psiquiatras para testemunhar em apoio desta linha de defesa. Um psiquiatra preferiu chamar o processo

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