Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 409 | página 14-15

O Prof. Willian Shepherd, da Universidade de Montana (EUA), observa muito a propósito: "As reportagens dos meios de comunicação social são feitas com base numa gíria cheia de preconceitos. .... A religião se transforma em seita; o proselitismo em lavagem cerebral".

| "LAVAGEM CEREBRAL": EXPRESSÃO DE GRANDE EFEITO PUBLICITÁRIO... | (continuação)

mas filosóficos eivados de relativismo ficam pois sem ponto de apoio lógico para conceituar o que é seita. E assim, sua concepção de seita deixa de ter qualquer objetividade ou fundamentação filosófica e teológica séria, para não ser senão a expressão de uma antipatia. Antipatia motivada por pressupostos ideológicos, evidentemente, mas que procura apresentar-se aos olhos do público com uma motivação aparentemente "cientifica".

Tal motivação é buscada, de uma forma ou de outra, na psiquiatria e na psicologia, reduzindo a um mero caso patológico todo o complexo problema teológico, filosófico, sociológico, representado pelas seitas (e por movimentos católicos ou outros, aos quais abusivamente se atribui tal rótulo). Institui-se assim, como já têm notado vários autores, um novo tipo de Inquisição religiosa, em que a verdade é julgada em termos de saúde mental: o "certo" deve corresponder àquilo que as ciências médicas consideram "são", e o "errado", ao que for tido como um comportamento "patológico", "doentio".

Em suma, desaparece o papel da razão no ato de Fé. O Magistério Eclesiástico já não se deve apoiar na Teologia e na Filosofia, porém na Medicina. Esta última é a grande mestra da Religião a partir de nossos dias.

Começa assim a aparecer na fimbria do horizonte o espectro de uma ditadura de tipo psiquiátrico.

Na fimbria do horizonte? Os fatos que se têm desenrolado especialmente nos Estados Unidos nos últimos anos mostram que tal uso da psiquiatria e da psicologia, para julgamento do comportamento religioso, não está mais no domínio da ficção, nem é triste privilégio da Rússia soviética. Sob a alegação de que seus filhos maiores de idade, que haviam aderido a certos movimentos religiosos classificados de "novas religiões", "cultos" ou "seitas", sofreram "lavagem cerebral", e portanto não estavam na posse de suas faculdades, vários pais conseguiram de tribunais de diversos Estados norte-americanos a tutela desses filhos, com a finalidade de os retirar de tais movimentos e submetê-los a "tratamento". É o que está sendo chamado de "desprogramação", partindo da presunção de que essas pessoas foram "programadas" (2) por aqueles movimentos religiosos, por meio da "lavagem cerebral".

(2) O termo tem origem na linguagem técnica empregada nos serviços de computadores (processadores de dados ou de textos), os quais trabalham de acordo com o programa que lhes é preparado. O programa é a sequência de etapas que o computador deve efetuar para realizar determinado serviço. Programação é a elaboração de um programa para computador. E programador é aquele que estabelece o programa.

O emprego analógico dessa linguagem pelos propulsionadores do movimento anti-seita, leva-os a dizer que o efeito específico de uma "lavagem cerebral" é fazer com que as vítimas ajam de acordo com o "programa" que lhes foi fraudulentamente introduzido na mente. A "desprogramação" consistiria então em libertar os indivíduos, retirando-lhes da mente esse "programa", de maneira que voltem a proceder de maneira normal.

Quanto esta linguagem tem de abusivo se vê pelos trabalhos de especialistas mencionados neste estudo.

Criou-se uma infinidade de neologismos para designar o "misterioso" e "mágico" processo irresistível de apoderar-se da vontade alheia, que seria a lavagem cerebral: "reforma do pensamento", "controle do pensamento", "controle mental", "coerção mental", "rapto mental", "menticídio", "persuasão coercitiva", "programação", "aprisionamento psicológico", "robotização" etc., etc. Assim, o velho e desmitificado conceito de "lavagem cerebral" ganhou novas conotações, foi espanado e posto em uso como a novidade do momento, sobretudo em sua caracterização cibernética de "programação".

Com base em documentação recente, será estudada a seguir a polêmica que se trava atualmente nos Estados Unidos a respeito da "programação" e da "desprogramação". Como se verá, cientistas sérios e cercados de todo o respeito nos meios acadêmicos daquele país desmontam inteiramente a falaciosa inconsistência da "lavagem cerebral", e apontam para os perigos que a atual perseguição religiosa faz correr às liberdades mais fundamentais e legítimas do homem.

2. Clima de alta emotividade: terrorismo publicitário

É EVIDENTE que toda campanha movida contra as chamadas "seitas" (em inglês correntemente designadas como "cults") com base na acusação de "lavagem cerebral", se desenvolve num clima altamente emocional, em meio a um ambiente de terrorismo publicitário. Esse clima é muito bem descrito por William C. Shepherd, da Universidade de Montaria:

"As reportagens dos meios de comunicação social sobre os grupos religiosos minoritários estão redigidas numa gíria carregada de preconceitos: 'aquilo que se quer destruir, é primeiro rotulado de modo pejorativo: a religião é qualificada de seita; o proselitismo, de lavagem cerebral; a persuasão, de propaganda; os missionários, de agentes subversivos; os retiros, mosteiros e conventos são transformados em prisões; os ritos sagrados, em conduta bizarra; a observância religiosa, em comportamento aberrante; a devoção e a meditação, em transes psicopáticos'" (GUTTMAN, 1977, p. 210)" (WILLIAM C. SHEPHERD, Constitutional Law and Marginal Religions, in DAVID G. BROMLEY & JAMES T. RICHARDSON (ed.), The Brainwashing De-programming Controversy: Sociological, Psychological, Legal and Historical Perspectives, The Edwin Melien Press, New York – Toronto, 1983, p. 261).

Por seu lado, a psicóloga social Trudy Solomon, da National Science Foundation, falando sobre a discussão que se trava em torno dos processos de "programação" e "desprogramação", comenta:

"É certo que tanto os 'programados' como os 'desprogramados' são igualmente isolados de seus ambientes normais, submetidos a uma série de técnicas de influência de grupo (incluindo repetição, monopolização da informação que recebem, e reforço seletivo), e sofrem alguma forma de coação física e/ou mental dentro de um meio ambiente estreitamente controlado. Contudo, é o grau em que esses elementos são aplicados, e não apenas a sua presença ou ausência, que deve ser tido como critério para verificar se a lavagem cerebral pode ser equiparada a algum, a nenhum ou a ambos os processos em discussão. ....

Quando este processo de doutrinação é aceitável pela sociedade, recebe o nome de 'formação religiosa' ou 'instrução religiosa'; contudo, quando uma seita ou movimento é novo, impopular ou inaceitável, esse mesmo processo tem sido chamado de lavagem cerebral ou subversão (Eiga, 1977). Algumas pessoas em nossa sociedade estão querendo distinguir entre tipos de controle que são 'bons' e os que são 'maus'. Se tal distinção continuar a ser feita, nossa sociedade pode começar a julgar as técnicas de persuasão investigando os motivos dos que as realizam, em vez de estudar sua forma ou substância" (TRUDY SOLOMON, Programming and Deprogramming the 'Moonies': Social Psychology Applied, in BROMLEY & RICHARDSON, op. cit., pp. 167-168).

Ou seja, será o triunfo da repressão religiosa, filosófica e cultural de modo geral.

Repressão que, exercida segundo as opções das grandes massas cada vez mais laicizadas de nossa sociedade moderna, das quais emana a opinião pública, desfecharia por sua vez no triunfo do capitalismo publicitário ou do Estado totalitário. Pois, em mãos de um ou de outro está, em grau supremo, o poder de falar às multidões. Ou de falar em nome delas, com a autenticidade tão discutível que se conhece.

3. Uma perseguição religiosa – "lavagem cerebral" como arma social

Até cerimônias sacras e esplendorosas promovidas pela Igreja Católica – como o cortejo em que aparece Pio Xl na sedia gestatoria – têm sido apontadas como atos de "lavagem cerebral'

COM EFEITO, a psicóloga norte-americana insinua, no texto acima, que numa polêmica que se quer apresentar como puramente "científica", voltada apenas para a análise dos métodos de doutrinação e não do conteúdo das doutrinas, de fato se acaba julgando da validade dos métodos pela aceitação ou rejeição das doutrinas. Passa-se então de um julgamento "técnico" para outro de índole filosófica e religiosa. A investigação dos motivos e não das técnicas é um processo de intenção, um novo tipo de Inquisição...

É por isso que Robbins e Anthony não hesitam em afirmar: "A desprogramação pode, portanto, ser vista como uma inquisição contra a heresia, formulada em termos de saúde mental e libertação da lavagem cerebral" (DICK ANTHONY & THOMAS ROBBINs, New Religions, Families and "Brainwashing", in ROBBINS & ANTHONY, op. cit., p. 267).

Esses cientistas sociais denunciam então a acusação de "lavagem cerebral" como uma "arma de repressão", tanto mais eficiente quanto deixa os acusados praticamente indefesos:

"A essencial subjetividade das noções de lavagem cerebral e controle mental permite sua utilização como arma de repressão. Pois é sempre possível sustentar que este ou aquele mosteiro ou comunidade entrelaça de tal modo os ritos e as doutrinas, que aprisiona o neófito em rígidos padrões de pensamento. ....

O 'livre arbítrio' dificilmente é um conceito muito tangível ou empírico. Na ausência de coação física tangível, quais seriam os critérios para concluir que existe um cérebro lavado ou uma vontade aprisionada? É impossível refutar as acusações de controle mental" (THOMAS ROBBINS, DICK ANTHONY & JAMES MCCARTHY, Legitimating Repression, in BROMLEY & RICHARDSON, op. cit., p. 323).

Desenvolvendo mais seu raciocínio, afirmam esses especialistas:

"A metáfora da lavagem cerebral é melhor entendida como uma arma social que oferece um fundamento racional 'libertário' para a supressão de movimentos sociais e sistemas de crenças impopulares. A noção de lavagem cerebral é uma arma social ideal porque: 1) supõe que as autoridades não estão querendo realmente suprimir a liberdade de opinião, pois não estariam interessadas no conteúdo de nenhuma crença, mas sim no modo como esta foi imposta; 2) sua possível aplicação nunca pode ser realmente refutada (como se pode provar a existência de uma vontade livre?); e 3) supõe que os devotos da religião são receptores passivos do condicionamento social, e não pessoas que buscam um sentido e compromisso para suas vidas, no exercício de suas liberdades constitucionais.

A utilidade do conceito de lavagem cerebral como arma social provém em parte da suposição de que a preocupação de quem a usa não está centrada no conteúdo de uma crença ou opinião, mas sim no modo pelo qual essa crença fora desenvolvida (ou seja, mediante lavagem cerebral)" (THOMAS ROBBINS, DICK ANTHONY & JAMES MCCARTHY, Legitimating Repression, in BROMLEY & RICHARDSON, op. cit., p. 322).

Richardson e Kilbourne, professores de sociologia na Universidade de Nevada, mostram que o emprego da acusação de "lavagem cerebral" é fruto de uma oposição ideológica e não de uma constatação científica. O que reforça a acusação dos autores acima, de que se trata de um ambiente de perseguição em que "lavagem cerebral" é empregada como arma de repressão. Dizem eles: "Alguns dos que se opunham ideologicamente ao aparecimento dos novos grupos religiosos, aplicavam sem uma crítica prévia os conceitos de lavagem cerebral e reforma de pensamento às novas religiões" (JAMES T. RICHARDSON & BROCK KILBOURNE, Classical and Contemporary Applications of Brainwashing Models: A Comparison and Critique, in BROMLEY & RICHARDSON, op. cit., p. 29).

A já citada psicóloga Trudy Solomon enfatiza: "Rotular de lavagem cerebral qualquer doutrinação, ensinamento ou filosofia à qual alguém adere voluntariamente, é certamente uma prática errônea, se não perigosa" (TRUDY SOLOMON, art. cit., in BROMLEY & RICHARDSON, op. cit., p. 179).

A ameaça apontada pelos cientistas sociais é também receada por dirigentes religiosos e por políticos.

Dean M. Kelley, Diretor de Liberdade Civil e Religiosa do Conselho Nacional das Igrejas, em entrevista ao "U.S. News & World Report" (Federal Intervention in Cults, 11-12-78, p. 30), considera o assunto de seu ponto de vista muito peculiar:

"P. – O sr. está preocupado com as afirmações de que alguns membros de seitas sofreram lavagem cerebral?

R. – Lavagem cerebral é um rótulo usado para privar as pessoas de seus direitos. O argumento é que as pessoas sofreram lavagem cerebral e não são capazes de decidir por si mesmas. Então nós temos que decidir por elas".

O deputado católico por Connecticut, Robert N. Giaimo, também manifesta sua preocupação. O problema, segundo ele, é o seguinte: "Como alguém pode provar a ocorrência de 'lavagem cerebral' ou de coerção? O que para alguém parece ser coerção, pode ser de fato uma sincera convicção religiosa. A despeito de todos seus avanços, a ciência médica não pode distinguir claramente entre as duas coisas" (apud DARREL TRUNER, Government Role in Cults Poses Several Problems, in "The Catholic News", jornal da arquidiocese de Nova York, 7-12-78, p. 1-7).

Segundo os adeptos do mito da "lavagem cerebral", a vida isolada e recolhida de religiosos e religiosas – como transparece na foto que focaliza uma procissão conventual no mosteiro de Las Huelgas (Espanha) – regida por padrões rigidamente austeros de comportamento, em que os atos comunitários se repetem regularmente ao longo dos anos, constituiria "lavagem cerebral". Se isso fosse assim, a Santa Igreja estaria praticando "lavagem cerebral" a bem dizer desde os primórdios do cenobismo, pelo menos. Não é isto, aliás, o que alguns autores afirmam ou insinuam? Se prevalecer o mito de "lavagem cerebral", será implantada a pior perseguição religiosa que já houve na História: a perseguição baseada numa ditadura de tipo psiquiátrico.

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