Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 409 | página 18-19

Por que não se denuncia o proselitismo comunista – além do permissivismo moral, da degradação dos costumes, dos efeitos corrosivos da televisão etc. – quando se enumeram os fatores determinantes da desunião da família em nossa época?

| "LAVAGEM CEREBRAL": EXPRESSÃO DE GRANDE EFEITO PUBLICITÁRIO... | (continuação)

seriam voluntariamente atraídas para tal religião; 3) meu (filho, filha, membro da família) obviamente não é uma pessoa intrinsecamente 'estranha'; 4) logo, ele ou ela deve ter sido enganado(a) ou sofreu lavagem cerebral que o(a) levou a participar de tal religião. Esta é a lógica que Toch (1965: 226) chamou de 'a premissa da sedução'. Os contos de atrocidades funcionam como uma etapa prévia, um pré-requisito nesse processo de rotulação, pois fornece uma 'prova' dramática de que os novos grupos religiosos são de fato 'maus'" (DAVID G. BROMLEY, ANSON D. SHUPE JR., J. C. VENTIMIGLIA, The Role of Anecdotal Atrocities in the Social Construction of Evil, in BROMLEY & RICHARDSON, op. cit., pp. 140-141).

Com relação ainda à facilidade com que os pais aceitam a explicação de "lavagem cerebral", o controvertido psiquiatra Thomas Szasz diz o seguinte: "Os pais de família querem tanto acreditar na lavagem cerebral porque, de outro modo, teriam que reconhecer diante de si mesmos que o filho, ao qual dedicaram 15 ou 20 anos, rejeitou a eles e a seus valores" (apud TRUDY SOLOMON, art. cit., in BROMLEY & RICHARDSON, op. cit., p. 171).

7. O papel dos "apóstatas" e o valor de seu testemunho

BROMLEY, Shupe e Ventimiglia estudam ainda longamente o papel do "apóstata" em propagar e dar consistência a essas "histórias de atrocidades":

"O papel do apóstata, que tem sido largamente negligenciado pelos sociólogos, tem um peso significativo para desacreditar um grupo dissidente e para justificar medidas de controle social. Como um indivíduo que abandonou a fé à qual aderia anteriormente, o apóstata é uma valiosa fonte de informação e pode representar o papel de testemunha 'astro' em processos públicos ou em campanhas de propaganda contra o grupo. Pode revelar atividades e segredos internos do movimento, de forma a confirmar as suspeitas e as alegações contra este, condená-lo com um conhecimento e uma certeza que os de fora não podem ter, e reafirmar os valores da sociedade convencional, ao confessar voluntária e publicamente o 'erro' e suas trilhas.

Os apóstatas contribuem substancialmente para o teor inverossímil dos contos de atrocidades. Tendo desprezado os valores do sistema dominante, o apóstata dificilmente pode esperar reconquistar sua aceitação na sociedade convencional mediante simples manifestação de que já perdeu o interesse pelo grupo dissidente. Cabe a ele mostrar, de modo convincente, que sua reafirmação dos valores dominantes é autêntica, que ele compartilha com os demais os sentimentos de desaprovação em relação àquele grupo, e que seu compromisso anterior não era sincero.

Juntamente com uma confissão pública aceitável, o apóstata sente provavelmente alguma necessidade de explicar sua própria conduta. Outros poderão perguntar: se o grupo é tão manifestamente mau como ele agora afirma, por que ele abraçou essa causa anteriormente? Na tentativa de explicar como fora seduzido, e confirmar os piores temores em relação ao grupo, o apóstata é levado a pintar uma caricatura do grupo, que é elaborada mais pela sua condição atual de apóstata, do que por suas reais experiências do grupo" (DAVID G. BROMLEY, ANSON D. SHUPE, JR., J. C. VENTIMIGLIA, art. cit., in BROMLEY & RICHARDSON, op. cit., pp. 156).

8. Como comparar mosteiros ou fazendas com as prisões chinesas?

PARA DAR alguma consistência à sua acusação de "lavagem cerebral" contra os movimentos religiosos, os adversários destes procuram estabelecer analogias entre o que se passa no interior de tais grupos e as descrições ou interpretações dos autores "clássicos" sobre a "lavagem cerebral" chinesa, procurando identificar ali os elementos desta: isolamento, controle da informação, humilhações, dieta alimentar pobre, privação do sono, doutrinação continua, autoacusação em público etc.

Acontece que, como ficou visto na primeira parte deste trabalho, todo esse processo se desenrolava dentro dos cárceres chineses e sob a continua ameaça, quando não a efetivação, de violência física brutal, e na perspectiva sempre presente do confinamento em um campo de trabalhos forçados para o resto da vida, e mesmo de fuzilamento.

Não se pode estabelecer um paralelo entre a pressão violenta dos companheiros de cela (igualmente em processo de "educação coercitiva") sobre o prisioneiro, e a mera pressão dos pares, verificada em qualquer ambiente onde se encontrem regularmente várias pessoas da mesma condição. Entre os irmãos, em uma família numerosa, entre colegas numa sala de aula, entre amigos num grupo de esquina ou entre funcionários num escritório ou repartição, como também em associações religiosas, essa pressão dos pares está se desenvolvendo continuamente. É um dos mecanismos normais da vida social.

É preciso ter sempre em vista todas as condições descritas na Parte I deste trabalho, para não confundir (ingênua ou malevolamente), situações que, se de um lado guardam alguma analogia, de outro lado apresentam diferenças muito salientes para poderem ser tidas por coisas idênticas ou muito próximas.

Segundo os promotores dos estrondos publicitários e das ações judiciais contra os grupos religiosos, um dos indícios (tomados como provas insofismáveis) de que estes fariam "lavagem cerebral" é o fato de convidarem seus prosélitos a passar fins-de-semana em fazendas e irem morar em mosteiros ou residências que se lhes assemelhem. Com isso, dizem eles, os prosélitos ou neófitos ficam sem contacto com o mundo exterior e privados de informações, a não ser aquelas fornecidas por seus guardiães (como os prisioneiros chineses...), o que lhes tiraria a capacidade de julgamento para as doutrinas que lhes são apresentadas.

As analogias vão sendo assim forçadas, e outros elementos novos, mais subtis, vão sendo acrescentados, para dar maior verossimilhança à afirmação de que se está em presença de um "sofisticado método" de "coerção psicológica". Um dos autores mais ativos e fecundos nesse tipo de elaboração é o psiquiatra John Clark Jr.

Os cientistas sociais Richardson e Kilbourne fazem o seguinte resumo dessa montagem artificial, que passam depois a criticar: "A conversão a tais grupos também é conceituada essencialmente em termos de um modelo de ressocialização em três etapas. A primeira etapa consiste no que temos chamado de controle do estímulo e no típico processo do despojamento. Supostamente, os indivíduos que são atraídos ao grupo recebem intensa atenção personalizada, são submetidos a pressões sociais extremas, bombardeados com rituais e atividades, privados do sono e da alimentação, e são sistematicamente induzidos a estados alterados de consciência. Esta primeira etapa é calculada para 'amaciá-los' e fazer com que o neófito seja mais receptivo às ideias e ideologias muitas vezes estranhas, próprias da 'seita'. Na segunda etapa, de controle da reação (isto é, treinamento e identificação), o neófito é submetido a uma 'maratona de conferências e a intensas atividades de piedade ou confessionais, calculadas para manter e fortalecer a receptividade do neófito' (Clark et al., 1981: 14). O neófito é induzido constantemente a adotar e a ensaiar as ideias, práticas e comportamentos aprovados pela seita. Na terceira etapa, de controle normativo e renascimento do novo eu, 'uma segunda personalidade artificial – a personalidade da seita – começa pouco a pouco a adquirir uma certa autonomia, à medida em que luta com a antiga personalidade para tomar posição preponderante na consciência' (Clark et al., 1981, 17)" (RICHARDSON & KILBOURNE, Classical and Contemporary Applications of Brainwashing Models: A Comparison and Critique, in BROMLEY & RICHARDSON, op. cit., pp. 37-39).

Trata-se, como se vê, de uma boa mostra de verdadeira "science-fiction", ou mais propriamente, de uma "psychoanalitical-fiction": a concepção de duas personalidades que lutam dentro do mesmo homem, como dois contendores em pugna numa arena, parece tirada diretamente das lucubrações de Freud, do conflito constante que existiria na personalidade humana pela luta implacável do Id e do Ego com o Superego (mitos criados pelo pai da Psicanálise).

O Prof. J.T. Richardson, da Universidade de Nevada (EUA), afirma acertadamente que os partidários da tese da "Iavagem cerebral" julgam que o homem pode mudar seu ser através de transformações físico-biológicas ou psicológicas, como o bicho da seda se transforma em mariposa. Trata-se, pois, de uma concepção evolucionista e materialista da natureza humana.

Com muita propriedade, comentam Richardson e Kilbourne: "Esta descrição do processo de conversão feita por Clark et al. serve como exemplo útil para muitos dos quase-modelos de lavagem cerebral, nas conversões às novas religiões. Estes apresentam o neófito como um recipiente passivo de mudanças de vida que recebe uma personalidade nova, como resultante de um desequilíbrio das relações sociais normais e dos processos biológicos" (RICHARDSON & KILBOURNE, art. cit., in BROMLEY & RICHARDSON, op. cit., pp. 37-38).

E, em outro lugar, fazem uma crítica mais geral:

"A personalidade do indivíduo é vista, por aqueles que adotam uma perspectiva de reforma de pensamento ou lavagem cerebral, como se fosse determinada por poderosas forças instintivas, biológicas, culturais ou sociais. Os indivíduos são simplesmente receptores passivos de suas personalidades (ou seja, esta é algo que lhes ocorre ou que lhes é dado) desde a mais tenra infância até à idade madura.

A suposição meta-teórica da autotransformação é também evidente em cada um dos quatro modelos de lavagem cerebral [Sargant, Merloo, Lifton e Schein]. Isto é, o eu da pessoa pode ser transformado em novas formas do eu, como os bichos-da-seda se transformam em borboletas. Esta suposição está na essência de todos os modelos de lavagem cerebral" (RICHARDSON & KILBOURNE, art. cit., in BROMLEY & RICHARDSON, op. cit., pp. 34-35).

Os dois cientistas sociais mostram quanto é forçada a comparação entre o processo de conversão nas seitas ou movimentos religiosos e o processo de "lavagem cerebral". Por outro lado, criticam a generalização e estereotipagem das seitas e movimentos religiosos mais diversos, como se se tratasse de uma e mesma entidade global:

"Os problemas básicos associados ao uso de modelos de lavagem cerebral para explicar o ingresso de pessoas em novos grupos religiosos são:

1.º USO DE NOÇÕES ESTEREOTIPADAS E SUPER-GENERALIZADAS DE SEITA: todas as seitas são genericamente apresentadas em termos de regime totalístico, dependência forçada, fraude e psicopatologia;

2.º EQUIPARAÇÃO IMPLÍCITA DOS MOVIMENTOS RELIGIOSOS COM INSTITUIÇÕES GOVERNAMENTAIS QUE USAM COERÇÃO FORÇADA [prisões e campos de concentração]: tendência a não levar em conta o fato de que o processo de reforma do pensamento descrito por Lifton usava pressões de companheiros dentro de um contexto mais amplo de coerção física explícita e de confinamento forçado, oposto ao compromisso voluntário predominante nos novos grupos religiosos;

3.º A SUPOSIÇÃO DE QUE AS PESSOAS SUBMETIDAS A CERTAS TÉCNICAS DE PERSUASÃO CARECEM DE 'LIVRE ARBÍTRIO': esta suposição ignora o fato de que o livre arbítrio é mais uma premissa filosófica do que um conceito mensurável; ignora também a realidade óbvia de que existem muitos indivíduos na sociedade atual que não são inteiramente autônomos;

4.º QUESTÕES METODOLÓGICAS: vários estudos que aplicam os escritos sobre reforma de pensamento aos novos grupos religiosos, se baseiam exageradamente nos relatos dos ex-membros. A parcialidade inerente a tais amostras, e a confiança exagerada nos relatos biográficos, limitam enormemente a possível generalização de tais conclusões" (RICHARDSON & KILBOURNE, art. cit., in BROMLEY & RICHARDSON, op. cit., p. 30).

Por seu lado, os cientistas sociais Bromley e Shupe ressaltam que a doutrinação e a disciplina severa impostas a um conjunto de pessoas em regime de internamento (frequentemente apresentadas como características principais de "lavagem cerebral") não têm, na realidade, o efeito de transformar as pessoas em meros "robôs", sendo adotadas em instituições nas quais se exige do indivíduo grande capacidade de decisão pessoal, como academias de oficiais das Forças Armadas e também em conventos católicos: "Em outro estudo clássico, o sociólogo Sanford N. Dornbusch examinou as técnicas de doutrinação utilizadas na Academia Naval Guarda-Costeira dos Estados Unidos. Os cadetes são primeiramente despojados de suas identidades civis anteriores: suas cabeças são raspadas e lhes entregam uniformes; seus antigos empregos, realizações e laços familiares, não só são desvalorizados, mas muitas vezes nem lhes é permitido referir-se a eles. Um novo sistema de prêmios e castigos substitui gradualmente seus valores, e eleva os novos objetivos – os

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Os mais diversos aspectos da vida religiosa, desde a doutrinação até a frugalidade da alimentação no refeitório, são questionados pela atual propaganda "terapêutica" antirreligiosa. Assim, a dieta alimentar a que se submetem estes monges cistercienses da Abadia de Poblet (Espanha) certamente é criticada pelos defensores de tal "terapêutica".