Nessa perspectiva, duas visões de mundo estão cada vez mais em conflito hoje, moldando uma verdadeira alternativa da civilização. De um lado estão aqueles que consideram o comunismo um fenômeno relegado à história; e identificam os Estados Unidos como o arqui-inimigo de nossa época, a personificação de um Ocidente considerado intrinsecamente depravado e a causa de todo o mal.
Para essas pessoas, os “amigos” não são mais definidos por princípios compartilhados de verdade ou ordem moral, mas exclusivamente por sua oposição à América e à Europa. Assim, toda simpatia e admiração se dirigem a uma frente heterogênea, porém convergente, que abrange a Rússia, a China, o mundo islâmico radical, os hipernacionalismos de direita e de esquerda e os movimentos antiocidentais de todas as latitudes. Qualquer força que contribua para o enfraquecimento do Ocidente é absolvida ou justificada, independentemente de sua natureza totalitária ou abertamente anticristã.
De outro lado estão aqueles que acreditam na possibilidade de um renascimento cristão da Europa e do Ocidente. Estes não negam a profunda crise moral das sociedades ocidentais, mas rejeitam a ideia de que a solução resida em sua destruição ou subjugação a potências hostis. Nessa perspectiva, os Estados Unidos são vistos como uma presença historicamente necessária para garantir o espaço político, cultural e militar dentro do qual o renascimento ainda seja possível.
Para os defensores do Ocidente, o principal inimigo da civilização cristã continua sendo o comunismo, em suas muitas metamorfoses contemporâneas. Um comunismo que já não se apresenta com os símbolos explícitos do século XX, mas que age como um método de dissolução cultural, uma técnica para a conquista do poder e uma negação sistemática de toda ordem natural e transcendente.
Contra essa força proteiforme está em curso uma guerra híbrida, colocando os Estados Unidos e a Europa, apesar de todas as suas limitações, contra um eixo que engloba aqueles que lutam contra a ordem ocidental. Por muitos anos a Venezuela, liderada por Nicolás Maduro, esteve alinhada a essa galáxia agressiva ao lado da Rússia e da China. Esse contexto explica a divergência radical de opiniões a respeito da intervenção dos Estados Unidos, cujo objetivo era atingir a liderança venezuelana.
Alguns a criticaram duramente, denunciando-a como uma violação do direito internacional e considerando toda iniciativa americana como mera expressão de imperialismo; outros, porém, regozijaram-se com a eliminação de uma figura que, além de arruinar
seu próprio país, reduzindo-o à fome e ao exílio em massa, utilizou todas as armas, inclusive o narcotráfico, para destruir a ordem natural e cristã das duas Américas. Essa polarização entre duas famílias de almas não é um fenômeno secundário, e está destinada a piorar à medida que se intensifique a guerra híbrida em curso, pois atinge o nível mais profundo do juízo histórico e moral. Em última análise, a linha divisória reside na aceitação ou rejeição de uma teologia da história. De um lado estão os que interpretam os eventos segundo categorias exclusivamente imanentistas, reduzindo tudo a relações de poder, interesses econômicos e dinâmicas geopolíticas. Do outro lado, os que interpretam a crise do nosso tempo à luz de uma visão sobrenatural da história, conscientes de que, por trás dos conflitos visíveis, trava-se uma verdadeira batalha religiosa. Aqui a profecia de Fátima (ainda não cumprida) continua a ressoar com toda a sua força: “A Rússia espalhará seus erros pelo mundo... Por fim meu Imaculado Coração triunfará”.