Grandeza moral na suprema injustiça
O Cardeal apareceu no banco dos réus com os olhos arregalados e muito fixos (foto), desconfiando daqueles que o rodeavam, exprimindo a certeza de ingressar numa via sacra com a deliberação indomável de não fazer qualquer composição com o adversário. Olhando para essa fisionomia, somos levados a lembrar dos sofrimentos de Nosso Senhor nos dias que antecederam a sua crucifixão.
Três dias depois da condenação, o Papa Pio XII excomungou todas as pessoas nela envolvidas. E falando à multidão reunida na Praça de São Pedro para protestar contra o “julgamento-show”, perguntou aos fiéis: “Quereis uma Igreja que fica silenciosa quando deveria falar? Que abafa a Lei de Deus para acomodá-la à vontade do homem quando deveria proclamá-la aos brados? Uma Igreja que não condena a repressão das consciências e não permanece de viseira erguida pela justa liberdade do povo? Uma Igreja que se fecha em si própria dentro das quatro paredes de seu templo e fica numa auto-bajulação indecorosa, esquecendo a missão divina recebida de Cristo: ‘Ide às encruzilhadas e convidai todos quantos achardes’ (Mt 22, 9)? Reconheceis nisso a Igreja que encarna o rosto de vossa Mãe? Seríeis capazes de imaginar um Sucessor de São Pedro se submetendo a tais exigências?”17
No Rio de Janeiro, uma imensa manifestação de solidariedade percorreu a avenida Rio Branco, assistida pelo presidente Gaspar Dutra. O Cardeal Francis Spellman, de Nova York, exclamou: “Se é traição negar lealdade ao governo comunista ateu, então graças a Deus o Cardeal Mindszenty confessou a traição”. O presidente dos EUA, Harry Truman, qualificou a con-
denação de “infame”. As queixas se multiplicaram no mundo livre, mas não saíram das palavras. O Cardeal Mindszenty tinha ficado tão sozinho como Jesus diante de Pilatos e passou a ser transferido de presídio em presídio durante oito anos.
Após o julgamento-teatro, o Cardeal Mindszenty foi levado a um hospital porque seu corpo enfraquecido pelas torturas não teria suportado. Lá eram executadas frequentemente sentenças de morte e os coveiros transportavam os cadáveres no momento dos passeios para que os presos os vissem. Foi posto num ambiente incrivelmente úmido, onde os presos pereciam em seis meses. Um general lhe confidenciou entre deboches e escárnios: “O povo está no comando. O Papa logo acabará do mesmo jeito”.18 Em sentido contrário, o Papa Pio XII, na “Carta Apostólica aos povos perseguidos da Europa”, de junho de 1956, escreveu que o exemplo do Cardeal húngaro “causava admiração aos Anjos de Deus”.
O regime não queria que sua morte prejudicasse a aproximação com a Igreja e o Ocidente. Após anos, foi internado no castelo de Almassy, enquanto os ‘padres pacifistas’ devastavam a Igreja. Até um sacerdote foi pedir-lhe para aceitar o “acordo” como queria o Kremlin. Ele respondeu que a proposta era péssima e inaceitável.
Entre o levantamento e a traição
Em outubro de 1956, durante um heroico levante contra a dominação comunista, tentaram levar o Cardeal a Budapeste, mas ele se negou, temendo ser assassinado. Por fim, um anticomunista entrou, dizendo: “O senhor está livre. Tenho à sua disposição tudo o que