de morte em processos ilegais, mas acabou proibido de julgar ‘devido à sua má reputação’”.10
Olti fixou que o Cardeal seria julgado pela “questão do rumo que o progresso deve tomar. Através da chamada democracia burguesa ou através da democracia popular rumo ao socialismo”.11 Esse último era o rótulo para a implantação gradual do comunismo. Assim sendo, o Cardeal Mindszenty estava condenado a priori.
Propriedade privada e Mandamentos da Lei de Deus
O juiz Vilmos Olti (direita) prejulgava que o pior “crime” fora contra a Reforma Agrária confiscatória. Em carta pastoral de maio de 1945, o Cardeal Mindszenty sublinhara que a Reforma Agrária destruiria a ordem social hierárquica magiar e ameaçava a subsistência das instituições eclesiásticas ao privá-las de seu sustento. O regime marxista propôs uma mitigação da aplicação dessa reforma e um salário igual ao do Primeiro-Ministro, que ele recusou como uma paga do Sinédrio.
Sua resistência também foi hercúlea quando atacaram a família. Em seu livro A Mãe, ensinara que “Santo Agostinho diz que o casamento procede de Deus; por conseguinte, o divórcio deve proceder do demônio. E, na verdade, assim é! [...] os tribunais que deveriam ser os defensores do direito são, na verdade, os seus verdugos”.12
A educação marxista “secular” e “moderna” destruía as tradições húngaras e o Cardeal Mindszenty se lhe opôs com fortaleza granítica: “As escolas são como cidades fortificadas em que se trava por todos os lados um violento combate para conquistar as almas das crianças. [...] São Tomás diz com toda a razão que ‘se a escola não for uma casa de Deus, acaba virando um covil de ladrões’”.13
Aos jornalistas ocidentais que arguiam que em países “liberais” ou “burgueses” como a Inglaterra, Austrália e os EUA, a educação primária estava nas mãos do Estado, ele retorquia: “O berço da escola moderna
é a Igreja. A educação chegou ao nosso país de braço dado com o Cristianismo e é por isso que a Igreja é a mãe e a escola dos nossos filhos. [...] Na verdade, é o segundo berço da família, do povo e de toda a nação”.14
O governo pró-soviético de Budapeste era claro: devolveria as escolas secundárias, universidades e seminários se a Igreja concordasse com: 1) a República socialista; 2) a reforma agrária; 3) a nacionalização da
indústria. Em troca, a Igreja deveria silenciar os preceitos do Decálogo que fundamentam a propriedade privada (7.º e 10º Mandamentos) e apresentaria aos fiéis uma imagem desfigurada do próprio Deus, prejudicando gravemente sua santificação. A Igreja não podia aceitar esse acordo como um “mal menor” para subsistir sob o comunismo, sem trair sua vocação divina.
Cínica condenação do Cardeal
A sentença condenatória do Tribunal Popular de Budapeste incluiu penas cumulativas à pena de morte (depois trocada por prisão perpétua), perda do cargo, dez anos de suspensão dos direitos políticos e confisco de todos os seus bens. O juiz justificou as penas pelos esforços do Cardeal Mindszenty na restauração da monarquia: “Habsburgos significa feudalismo, a restituição das propriedades feudais e o imenso poder político e econômico da aristocracia e dos chefes da Igreja Católica. O memorando [...] se opondo à reforma agrária, encontrado entre os documentos secretos de Jozsef Mindszenty, não deixa dúvidas [...].
“Mindszenty e seus cúmplices [...] pediram intervenção estrangeira [...] perfeitamente de acordo com as intenções dos EUA [...]. Que pretendem a subjugação do mundo, extirpando todas as forças do progresso”,15 acrescentou. De fato, numa entrevista ao Daily Mail antes de sua prisão, auspiciou uma ‘invasão imediata’ da Hungria por tropas britânicas e americanas. O entrevistador treplicou que isso levaria a uma guerra nuclear, ao que ele respondeu: “Ainda é melhor que o bolchevismo”.16