Comícios de padres e paróquias exigiam sua saída porque, cheio de “atitudes aristocráticas”, excomungava os deputados católicos que votaram o confisco das escolas. O comunismo nacionalizou 3.148 escolas da Igreja, mas suscitou a indignação anticomunista geral. O Cardeal Mindszenty ficou como uma coluna solitária no deserto, até que, em dezembro de 1948, o previsível aconteceu: foi encarcerado por traição e conspiração.
Como Cristo nas mãos de seus algozes
Ele foi levado portando uma imagem de Jesus coroado de espinhos com a inscrição devictus vincit — “derrotado, Ele venceu”. Mas deixou escrito que, se alegassem uma ‘confissão’, seria uma ‘falsificação’ ou fruto de torturas. Na sede da polícia secreta, entre risadas de homens e mulheres, tiraram-lhe a batina, a roupa íntima e vestiram-no de palhaço. O major trovejava: “Raça de cachorro, estávamos esperando por esse momento há algum tempo, mas ele finalmente chegou”.
Nos interrogatórios ele recusava os dizeres inventados e, entre risadas sádicas, era despido e deitado por terra para ser surrado em todo o corpo até desmaiar. A tortura se repetia dias a fio. Ele não comia nem dormia, pois sabia que os torturadores misturavam drogas no alimento e os guardas não o deixavam dormir. Quando tentava recitar o terço com os dedos, cobriam-no com
os termos mais obscenos. Após 39 dias, os algozes não arrancaram dele o que queriam. Mas suas energias se esgotavam e os fármacos lhe causavam uma angústia e uma depressão desproporcionada. Apresentavam-lhe papéis que seriam mostrados como “confissões” ante o Tribunal. O coronel Decsi, chefe das torturas, estava obsedado pelo “acordo entre a Igreja e o Estado”, dizendo que “vários bispos” se haviam posicionado contra ele. Nos dias prévios ao julgamento foi-lhe imposto o uso do hábito de Cardeal, para exibi-lo ante os jornalistas estrangeiros, mas pouco antes do julgamento lhe deram uma roupa civil para não comparecer com vestes eclesiásticas.
“Começou o circo”
Com o corpo e a mente atingidos, o Cardeal padeceu um “julgamento de fachada”, acusado de mais de 40 “crimes” inventados. Ele sussurrou em latim Circus incipit (“Começou o circo”). A polícia, o promotor, o juiz e o advogado de defesa colaboravam naquela encenação de inescrupulosa hipocrisia. O processo sumário de seis dias, em fevereiro de 1949, foi presidido por Vilmos Olti, que tinha fama de “juiz da morte em processos ilegais”. Havia militado no Partido Nazista húngaro, mas trocou de bando e aderiu ao Partido Comunista. Ficou célebre por condenações com “acusações forjadas e sentenças