Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 895 | página 29
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e intimavam Dom Mindszenty a dar as boas-vindas aos “libertadores” soviéticos — o que ele recusou.

Afinal foi solto e voltou à sua diocese, onde viu as atrocidades cometidas pela soldadesca da foice e do martelo: sacerdotes massacrados, sevícias e crimes contra os fiéis, a catedral profanada, os paramentos litúrgicos despedaçados por mulheres marxistas, o Núncio Apostólico expulso.

Dom Mindszenty empreendeu a reconstrução de igrejas, escolas, mosteiros, centros culturais e reitorias, e alertou contra a diabólica infiltração marxista na Igreja porque “brigadas comunistas participavam da reconstrução de igrejas para depois publicar o fato na imprensa como sinal de boa disposição para com a religião”.

Recebe a túnica de cor sangue, símbolo do martírio

Enquanto liderava o renascer do catolicismo, o Papa Pio XII nomeou-o Arcebispo de Esztergom e Primaz da Hungria. A posse se efetivou numa catedral devastada, mas Mindszenty defendia que “Esztergom é a expressão da concepção cristã medieval do Estado, na qual o sacerdotium e o imperium, o papa e o imperador, se davam as mãos. Na Hungria, esse princípio encontrou sua personificação no rei e no arcebispo de Esztergom”.4 Como Primaz, recaía sobre ele a regência do reino da Hungria vacante. Ele sempre permaneceu “no mais fundo de sua alma um monarquista até o fim de sua vida”.5

Conseguiu ser levado por veículos militares americanos a Roma para receber a púrpura cardinalícia. Ao concedê-la, o Papa lhe disse: “Entre estes 32 [cardeais nomeados na cerimônia], tu serás o primeiro a sofrer o martírio simbolizado pela cor vermelha da púrpura”.6

Luta encarniçada até nova prisão

Dom Mindszenty abriu o Ano Mariano 1947-1948 exortando os 60.000 peregrinos a jurarem lealdade à Grande Senhora da Hungria, a Virgem Maria. Em

setembro, já tinham sido distribuídas 1.112.000 comunhões e o Ano Mariano se encerrou com a participação de 4.600.000 fiéis. O indômito Purpurado increpou os padres progressistas por colaborarem com o regime comunista em troca de ‘trinta moedas’. “Alto-falantes proclamavam nas ruas, praças e empresas coisas como: ‘A atitude hostil e antidemocrática do Primaz é a causa da divisão e da infelicidade do nosso povo; ele exige a devolução de bens confiscados, recusa-se a reconhecer a república, organiza a contra-revolução e impede um acordo entre a Igreja e o Estado’”.7 A imprensa desatou então um ataque geral, alegando que os bispos exerciam uma pressão terrorista. A submissão dos bispos cismáticos ao Soviete Supremo na URSS era o modelo desse “acordo” que devia começar com os bispos reconhecendo a República comunista. O Primaz respondeu que tinha “pouca fé na democratização do bolchevismo”8 e o “diálogo” ficou impossível. Para o PC húngaro, o Cardeal Mindszenty encarnava a “reação clerical” assinando como Príncipe-Primado quando os títulos de realeza ou nobreza estavam proibidos, e o acusava de ser “o maior latifundiário” que “sustentou a monarquia e, depois, a ditadura fascistoide do almirante Horthy”.9 Nas ruas, operários comunistas bradavam: “Esmaguemos o Mindszentismo!” e irrompiam nas fábricas com abaixo-assinados para levar o Primaz a um tribunal popular.

Dom Mindszenty como Arcebispo de Esztergom e Primaz da Hungria