O Caminho Sinodal, uma caixa de Pandora
Para falar sobre esse oportuno lance entrevistamos Julio Loredo [foto], jornalista, escritor e conferencista residente em Milão, presidente da TFP italiana. Ele é autor de outra obra, também de grande repercussão, Teologia da Libertação – Um salva-vidas de chumbo para os pobres.
– Poderia explicar em duas palavras a importância deste livro recém-lançado?
Com muito gosto. O Papa Francisco convocou para outubro um Sínodo Geral, que se repetirá em outubro de 2024. Em princípio, trata-se da 16ª Assembleia Geral do Sínodo dos Bispos. Vários fatores, porém, apontam para o fato de que poderá ser um evento histórico na vida da Igreja. Os promotores mais autênticos do chamado “caminho sinodal” ou “processo sinodal”, a começar por muitos bispos alemães, querem nada menos que mudar radicalmente a estrutura da Igreja, transformando-a numa “pirâmide invertida”. Para tal, desejam mudar pontos centrais do Magistério, como por exemplo a autoridade eclesiástica e a disciplina dos Sacramentos. Não falta quem denomine esse Sínodo de “Concílio Vaticano III”.
Na intenção de seus promotores, o processo sinodal teria que envolver todo o “Povo de Deus”. Seria, pois, segundo eles, uma expressão de todos os fiéis inspirados pelo Espírito Santo. Na realidade, as propostas sinodais foram preparadas por organismos burocráticos largamente dominados pelas facções progressistas. Em outras palavras, são sempre os velhos progressistas que, manipulando o Sínodo, querem impor a sua agenda. E para isso invocam nesse momento o Espírito Santo...
Apesar da importância dos temas e do seu interesse para todos os católicos, o debate sobre esse Sínodo permaneceu em grande parte restrito aos “iniciados”. O público em geral pouco sabe a respeito. Este livro tem o objetivo de preencher essa lacuna, explicando em termos simples o que está em jogo.
O que é um Sínodo e o que o Papa Francisco teria inovado?
O Sínodo dos Bispos é um órgão permanente da Igreja Católica, externo à Cúria Romana, que representa o episcopado. Ele foi criado pelo Papa Paulo VI em 15 de setembro de 1965, com o Motu Proprio Apostolica sollicitudo. Até 2015 — quando o Papa Francisco introduziu nele mudanças radicais — o Sínodo tinha apenas um papel consultivo, limitando-se a discutir os temas indicados pelo Sumo Pontífice. Passou então a incluir todos os fiéis, ter poder decisório e caráter permanente. Ou seja, transformou-se numa espécie de Parlamento. O objetivo é modelar uma nova “Igreja sinodal”, ou seja, uma Igreja democratizada, governada por um processo sinodal permanente no qual todos os fiéis teriam voz e vez. Os promotores deste processo afirmam que não devemos ter medo de tocar nas próprias raízes da Igreja e de mudá-las segundo uma concepção democrática.
Um dos principais chavões do Sínodo é a palavra “escuta”. Os Pastores devem “escutar o povo para discernir o que o Espírito Santo diz às igrejas”. De mestres passam a ser também discípulos. Assim, os bispos, e até o Bispo de Roma, começariam a perder a tríplice autoridade — ensinar, governar e santificar — , a qual passaria a “vir de baixo para cima”. Essa escuta de toda a comunidade implica uma reformulação da autoridade na Igreja. De acordo com o Papa Francisco, é preciso inverter a estrutura hierárquica da Igreja: “Nesta Igreja, como numa pirâmide invertida, o vértice encontra-se abaixo da base”. É exatamente o que propunha o então Frei Leonardo Boff no livro Igreja. Carisma e Poder, condenado pelo Vaticano. Neste sentido, a nova “Igreja sinodal” se parece muito com a “Igreja do povo” propugnada pela velha Teologia da Libertação.
Deveria então ser escutado todo o “Povo de Deus”?
Em princípio, sim. Na realidade, faz-se uma opção preferencial (eu diria quase exclusiva) pelas chamadas “minorias marginalizadas”. Os documentos sinodais mencionam as mulheres, as minorias raciais, os divorciados recasados, as famílias monoparentais, as pessoas que vivem em casamento polígamo, as pessoas LGBTQ+, as pessoas sem fé etc. Na realidade, qualquer pessoa que se sinta “excluída”. Tratar-se-ia de “escutar”
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