Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 874 | página 22-23
| VIDAS DE SANTOS | (continuação)

Alexandria. Falecido em 312, sua festa é comemorada no dia 7 de novembro.

Ávido de ouvir a palavra divina e movido pelo desejo ardente da perfeição cristã, Hilarião se desgostou da vida licenciosa de Alexandria e foi para a Tebaida, atraído pela fama de santidade de Santo Antão. Havia 20 anos que esse santo vivia na solidão do deserto, atraindo para si inúmeros discípulos.

Contudo, segundo São Jerônimo, aos 15 anos ele era um jovem magro e delicado, débil de saúde. Por isso Santo Antão só o admitiu por dois meses, porque o julgava muito jovem para ficar definitivamente no deserto. Esses dois meses, no entanto, foram suficientes para ele aprender o profundo amor à solidão, à oração e à penitência.

Santo Antão já era muito famoso na época. Dele fala o Martirológio Romano Monástico no dia 17 de janeiro: “Abade, seguindo o conselho do Evangelho, distribuiu aos pobres tudo quanto possuía para seguir a Cristo no deserto do Egito, onde as tentações do demônio não lhe foram poupadas. Por causa de sua irradiação exemplar, e pela sua biografia redigida por Santo Atanásio, atraiu uma multidão de discípulos, e mereceu tornar-se o ‘Pai dos monges cristãos’. Morreu em 356 no alto da montanha ao pé da qual se situa o mosteiro que traz o seu nome.”

Eremita no deserto de Majuma

Quando voltou à Palestina, em 307, Hilarião soube que seus pais haviam falecido. Vendeu então seu rico patrimônio, distribuindo o obtido aos pobres. Retirou-se depois para o abrupto e impenetrável deserto de Majuma, diante do mar, onde se estabeleceu atrás de rochas escarpadas.

Construiu ali, ao lado de uma lagoa, uma choça de juncos e ramos, que fortificou com pedras, palmeiras e figueiras bravas. Jejuava rigorosamente, só comia ervas e uma só vez por dia, depois do pôr do sol. Mais tarde consentiu em comer um pedaço de pão regado com azeite. Sustentava-se fazendo cestos, e dedicava a maior parte de seu tempo aos exercícios religiosos.

Mas não estava só na solidão. O pai da mentira o assediava constantemente, como testificou São Jerônimo: “Tantas eram suas tentações e tão variadas as ciladas dos demônios noite e dia, que se eu quisesse relatá-las, um volume não seria suficiente. Quantas vezes, quando ele se deitou, mulheres nuas lhe apareceram, quantas vezes banquetes suntuosos quando ele estava com fome!” Para vencer essas tentações, Hilarião subjugou admiravelmente suas paixões com orações e contínuas penitências, reduzindo o corpo rebelde à obediência da vontade.

O ardor com que o santo se entregou à vida monástica transformou aquele deserto, antes um covil de assassinos, em um oásis de santos. Dirigidos por ele, erigiram ali vários mosteiros.

Questionado certa vez por criminosos sobre como se comportaria se fosse atacado por ladrões, Hilarião lhes respondeu: — “Um homem pobre e nu não tem medo de ladrões”.

“Mas eles podem lhe tirar a vida”, argumentaram.

“É verdade, mas não temo a morte, porque estou sempre preparado para morrer bem”.

Curas milagrosas e exorcismos

Hilarião não tinha ainda 20 anos quando principiou essa vida de rigor. E foi só depois dos 22 que o mundo começou a dar-se conta de sua existência, quando sua vida penitente começou a atrair muitos peregrinos. As curas milagrosas que operava e os exorcismos com os quais expulsava os demônios fez com que sua fama se difundisse, de modo que em 329 numerosos discípulos se reuniram ao seu redor.

Apesar das macerações e mortificações que infligiu a seu corpo, Hilarião atingiu a idade de 80 anos.

Contudo, eram tantos os pagãos convertidos por ele, somados a um crescente número de pessoas que vinham buscar sua ajuda e conselho, que dificilmente encontrava tempo para cumprir seus deveres religiosos. Isso o levou a se despedir de seus discípulos e retornar ao Egito por volta do ano 360, indo viver perto de Alexandria. Retirou-se depois para um deserto na Líbia, num promontório na Sicília, e quando seu discípulo Hesíquio lá o encontrou, estava cercado de novos discípulos atraídos pelo seu exemplo.

Mas esse santo singular gostava de uma vida nômade e de mudança de ares. Por isso foi depois com Hesíquio para Epidauro, na Dalmácia, onde, por ocasião de um grande terremoto (366), prestou valiosa ajuda aos habitantes. Navegou depois sozinho para o Chipre, onde viveu em uma gruta no interior da ilha até seus últimos anos.

O bispo local era o já citado Santo Epifânio de Salamina. Este admirou a santidade do peregrino, enquanto Hilarião admirou a ciência do bispo.

Seus últimos dias

Montanha na ilha de Chipre na qual, segundo a tradição, Santo Hilarião se refugiou para viver seus últimos dias.

São Jerônimo assim narra os últimos dias do santo:

“Aos 80 anos, durante a ausência de Hesíquio, ele escreveu em testamento uma pequena carta de próprio punho, deixando ao discípulo todas as suas riquezas (ou seja, uma cópia dos Evangelhos, sua túnica de pano de saco, capuz e capa), pois seu servo havia morrido alguns dias antes. Muitos homens devotos, portanto, vieram até o inválido de Pafos, especialmente porque ouviram falar que ele deveria em breve migrar para o Senhor e ser libertado das amarras do corpo. [...] Seu corpo estava agora quase frio, e nada restava de vida, exceto a razão. No entanto, com os olhos bem abertos, ele repetia: ‘Vá em frente, o que teme? Vá em frente, minha alma, por que hesita? Você serviu a Cristo por quase 70 anos e tem medo da morte?’ Dizendo isso, deu seu último suspiro. Ele foi imediatamente enterrado antes que a cidade soubesse de sua morte”.

Ao ouvir falar da morte do amado mestre, Santo Hesíquio foi a Chipre e conseguiu, “com grande risco de vida”, roubar seu corpo, levando-o para Majuma. “Sua túnica, capuz e manto estavam ilesos; o corpo inteiro tão perfeito como se estivesse vivo, e tão perfumado com odores doces que se poderia supor que tivesse sido embalsamado”, diz São Jerônimo.

Quando Santo Hilarião morreu pelo ano de 372, Santo Epifânio foi o seu primeiro panegirista. É preciso dizer que Santo Hilarião foi um dos primeiros confessores a serem venerados como santos, pois essa honra se reservava antes somente aos mártires.

Sua festividade é celebrada no dia 21 de outubro. Dele afirma hoje o Martirológio Romano Monástico: “No século IV, Santo Hilarião, abade. Nascido perto de Gaza, na Palestina, criado e batizado em Alexandria, foi durante algum tempo discípulo de Santo Antão, voltando depois a seu país de origem para viver como anacoreta. Sua irradiação exemplar lhe atraiu uma multidão de discípulos, e o fez ser considerado como pai do monaquismo palestino.

Notas: 1. The Catholic Encyclopedia, 1910, CD Rom Edition, Fathers of the Church, St. Hilarion (St. Jerome) 2. J.P. Kirsch, Saint Hilarion, The Catholic Encyclopedia, 1910, CD Room edition. 3. https://pt.wikipedia.org/wiki/Sozomeno Outras fontes consultadas: – https://www.santiebeati.it/dettaglio/74650 – https://www.catholic.org/saints/saint.php?saint_id=659 – https://www.britannica.com/biography/Saint-Hilarion – https://en.wikipedia.org/wiki/Hilarion
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