Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 866 | página 06-07
| PALAVRA DO SACERDOTE | (continuação)

como explicar essa pouco velada animosidade pela maternidade divina de Nossa Senhora num jornal do próprio Vaticano.

Resposta — A resposta à primeira pergunta é fácil. Theotokos é uma palavra grega composta de duas partes: o prefixo Theo significa Deus e a palavra tokos significa “carregadora ou portadora no útero”. É necessário imediatamente precisar, porém, que tokos só pode se referir a uma mãe biológica, pois no século V não existia a monstruosidade atual dos “ventres de aluguel”. Então, a palavra Theotokos significa “portadora ou carregadora de Deus em seu ventre”; em outras palavras, “aquela que gerou Deus”.

Mas, em todas as culturas ao longo da História, a palavra “mãe” designou e ainda designa, em cada língua, uma mulher que gera um filho. Logo, as expressões “genitora de Deus” e “mãe de Deus” querem dizer exatamente a mesma coisa! Não há, portanto, nenhuma ampliação “para além da letra” do que foi solenemente declarado no Concílio de Éfeso, ao invocar Nossa Senhora como a Mãe de Deus.

Aliás, ao fazer essa distinção entre ser genitora e ser mãe, a autora do artigo em questão acaba insinuando que Nossa Senhora foi propriamente genitora de Deus (e menos propriamente Mãe de Deus), como se seu seio puríssimo tivesse servido apenas como “ventre de aluguel” do Espírito Santo. Muito pelo contrário, com o seu fiat, Ela não deu somente uma cooperação física para a geração de seu Filho, mas também e acima de tudo uma cooperação moral, por sua plena adesão ao plano divino da Redenção, aceitando de antemão as dores insondáveis da Paixão. Como diz o conhecido mariólogo Pe. Émile Neubert, “Maria foi escolhida não apenas como instrumento físico para uma obra material, e sim como o instrumento moral de um mistério divino, agindo de modo consciente e livre. Ela foi preparada, no que se refere ao seu corpo, para formar o corpo de Jesus. E quanto à sua alma, para tornar-se digna Mãe de Deus”.

A Santíssima Virgem “entre Cristo e a Igreja”

A resposta à segunda pergunta do nosso missivista — isto é, qual a origem dessa animosidade para com a maternidade divina em certos ambientes católicos e até no Vaticano — é mais delicada de responder e nos obriga a remontar no tempo.

A Mariologia foi se desenvolvendo organicamente há muitos séculos em dois planos: na piedade dos fiéis que acorriam aos pés de Nossa Senhora e eram atendidos por Ela, por vezes até com milagres, como em Lourdes; e nos estudos dos teólogos, que foram tirando conclusões novas e mais ricas dos dados da Revelação, culminando na proclamação dos dogmas da Imaculada Conceição e da Assunção de Maria Santíssima. Da conjunção dos dois planos resultou, a partir das primeiras décadas do século XX, um crescente movimento dos mariólogos e dos fiéis em favor da proclamação, como dogmas de fé, da realeza e da mediação universal de Nossa Senhora, assim como de sua participação como co-redentora na salvação do gênero humano.

Porém, em sentido contrário, desenvolveu-se paralelamente o chamado “movimento ecumênico”, que almejava a reunião de todos os cristãos e via nesse movimento mariano um obstáculo intransponível prenhe de exageros que afastavam da Igreja os seguidores das seitas protestantes. Nesses círculos ecumenistas apareceu uma corrente de teólogos que propunha uma mariologia “minimalista” que não afugentasse os protestantes.

Em 1958, por ocasião do centenário da proclamação do dogma da Imaculada Conceição, realizou-se em Lourdes um Congresso Mariano, no qual ficou manifesta a divergência entre a mariologia tradicional, impropriamente apelidada de “maximalista”, que deduzia todos os privilégios de Nossa Senhora a partir da maternidade divina, e uma nova corrente “minimalista” para a qual a mariologia deveria ter seu fundamento no paralelismo entre Maria e a Igreja.

A corrente tradicional sublinhava a união íntima entre Jesus e sua Mãe (da qual resultam a co-redenção e a mediação universal) no único ato de salvação e, por isso, foi definida como “cristotípica”. A corrente inovadora dentro da Igreja sublinhava que o papel de Maria na salvação estava subordinado ao papel da Igreja, da qual Maria seria apenas um membro, cabendo à Igreja o primeiro

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