Histórica revogação da lei do aborto nos Estados Unidos
James Bascom, nosso entrevistado
A nefasta decisão conhecida como “Roe vs. Wade” completa 50 anos exatos. Essa sentença, que desde 1973 permitia o aborto nos EUA, foi anulada pela Suprema Corte em junho do ano passado, ficando os estados com a responsabilidade de aprovar ou não a prática abortiva. Muitos a proibiram parcial ou inteiramente.
Para ampliar o conhecimento de nossos leitores sobre os efeitos dessa decisão judicial, Catolicismo entrevistou James Bascom, diretor-assistente desde 2017 do Bureau de Washington da Sociedade Americana de Defesa da Tradição, Família e Propriedade (TFP). Graduado pela Academia Saint Louis de Montfort e pelo Instituto Sedes Sapientiae, localizados na Pensilvânia, ele escreve assiduamente sobre política e ecologia. Também intervém em eventos internacionais, como aconteceu na conferência Amazonia: the Stakes, realizada em Roma no dia 5 de outubro de 2019 como uma voz contrária ao Sínodo Pan-Amazônico promovido pelo Vaticano.
Poderia explicar para os nossos leitores a importância da decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos, que no dia 24 de junho do ano passado, na festa do Sagrado Coração de Jesus, derrubou a decisão ‘Roe vs. Wade’, que havia legalizado o aborto nos Estados Unidos?
Roe vs. Wade é o nome de uma decisão da Suprema Corte, que declarou o aborto como um “direito” implícito na Constituição, a qual deu aos cidadãos um “direito à privacidade” que não está no texto dela, mas inferido da 14ª emenda, anulando assim todas as leis antiaborto do País. Antes de 1973, o aborto era ilegal na maioria dos estados, como também, desde séculos, na lei americana e na lei comum inglesa. A partir do final dos anos 1960 e início dos anos 1970, no entanto, 11 estados, incluindo Nova York e Califórnia, começaram a liberalizar suas restrições ao aborto. Roe v. Wade acelerou esse processo impondo um regime legal radical de aborto em todo o País.
A esquerda pró-aborto esperava que essa decisão alinhasse os Estados Unidos com a Europa e o mundo desenvolvido, a maioria dos quais estava se movendo na mesma direção. Em retrospectiva, a decisão de 1973 foi uma vitória de Pirro da esquerda. Cristalizou a opinião pública, especialmente os católicos, levando à criação de um movimento pró-vida maciço que foi o responsável por sua recente derrubada. Esta se deu no dia 24 de junho, quando a Suprema Corte votou o caso Dobbs vs. Jackson Women’s Health Organization, declarando que o aborto não é um direito constitucional e que os estados podem restringi-lo ou proibi-lo se assim o desejarem.
Como o pujante movimento antiaborto se formou nos Estados Unidos?
Embora os católicos sejam apenas 25% da população americana, o movimento pró-vida foi desde o início quase inteiramente católico. A partir de 1974, os leigos católicos começaram a se organizar e protestar em Washington D.C. no dia 22 de janeiro de cada ano, aniversário da decisão fatídica da Suprema Corte. A fundadora da Marcha pela Vida, Nellie Gray, era uma católica tradicional, mas talvez o maior líder pró-vida do País tenha sido Joseph M. Scheidler, católico fervoroso, admirador da obra do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira e grande amigo da TFP americana. Por ocasião de sua morte, The New York Times denominou-o “padrinho” do movimento pró-vida. Até hoje, a grande maioria do movimento pró-vida é católica.
No final dos anos 1970 e 1980, os católicos antiabortistas começaram a se organizar em âmbito local