Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 866 | página 38-39
| MATÉRIA DE CAPA | (continuação)

GUERRA IDEOLÓGICA

Plinio Corrêa de Oliveira

(Catolicismo, abril/1951) Há duas civilizações, duas culturas, dois mundos ideológicos inteiramente distintos e antagônicos, em presença um do outro. E a sobrevivência da hegemonia mundial da cultura ocidental será impossível se a vitória couber ao bloco liderado pelos bolchevistas.

Inútil seria enumerar os muitos motivos que tornam iminente uma nova guerra mundial. São eles tantos, tão graves, tão evidentes, que já passaram do conhecimento das chancelarias para os parlamentos, dos parlamentos para a imprensa, e daí para a rua, de tal forma que todos hoje, homens, instituições, governos, vivem em função da guerra.

Não há pessoa de critério e responsabilidade que, fazendo planos para o futuro, não tome em consideração as modificações que uma possível guerra imporia à marcha regular de suas previsões [...].

Esta provável guerra terá algumas notas preponderantes, que influirão em todos os seus outros aspectos.

Primeiramente, será “mundial” num sentido muito mais real e profundo do que o conflito de 14-18 [Primeira Guerra Mundial], ou mesmo o de 39-45 [Segunda Guerra]. De um lado, os campos de operações militares serão muito mais numerosos.

Todas estas circunstâncias exigirão uma participação militar e econômica muito mais efetiva, das próprias nações que não forem diretamente atacadas em seus cidadãos e seus territórios. O esforço de guerra mobilizará pois, de um modo ou de outro, os recursos do mundo inteiro.

Em segundo lugar, esta guerra em que todas as nações talvez tomem parte, será principalmente uma guerra entre duas nações. Os russos e americanos de tal maneira se avantajam em força e poder sobre os respectivos aliados que a vitória de qualquer dos dois blocos não será senão o triunfo da nação-líder do bloco vencedor.

Em terceiro lugar, a guerra será ideológica. Se a nação vencedora for a Rússia, imporá ela ao mundo seu modo de pensar, de sentir e de viver. Contra esta perspectiva se armam as nações que não estão dispostas a renunciar às suas tradições, seus costumes e sua própria alma nacional. Em outros termos, há duas civilizações, duas culturas, dois mundos ideológicos inteiramente distintos e antagônicos, em presença um do outro. E a sobrevivência da hegemonia mundial da cultura ocidental será impossível se a vitória couber ao bloco liderado pelos bolchevistas.

Em quarto lugar, vem uma decorrência do que acabamos de dizer. Se a guerra for ideológica e se a questão ideológica que estiver na raiz da luta for a questão social, é bem de ver com que facilidade em vários países se manifestará a tendência de complicar com uma guerra de classes intestina, a guerra mundial. É, pois, possível que a guerra mundial seja agravada por uma revolução social que, se não for mundial, por certo poderá ser internacional.

Em quinto lugar, tudo leva a crer que a guerra será científica e trará consigo possibilidades de destruição ainda não bem conhecidas pelo público, mas por certo muito amplas. A técnica será mobilizada contra o homem, e poderá determinar convulsões, destruições e hecatombes inimagináveis. Há quem pense que a própria civilização humana poderá desaparecer da Terra. Sem responder pela afirmativa nem pela negativa, aceitamos a hipótese muito menos improvável de que, simplesmente, as destruições acarretem para civilização um retrocesso que ainda é prematuro tentar medir.

Este o quadro das perspectivas sombrias que a guerra abre diante de nós.

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