Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 866 | página 40-41
| VIDAS DE SANTOS |

São Brás, Bispo e Martir

Plinio Maria Solimeo

Celebrado no dia 3 de fevereiro, São Brás, cuja devoção se estende ao mundo inteiro, é um dos 14 “santos auxiliares” invocados pelos católicos em casos de necessidade especial e cura de doenças particulares.

Têm-se em geral muito poucos dados sobre os santos mártires da Igreja primitiva, seja porque deram suas vidas por Nosso Senhor Jesus Cristo durante os tumultuados tempos das perseguições, quando não havia atas nem documentos para os testificarem, seja porque a memória deles se perdeu com o tempo. Com São Brás, que antiga tradição apresenta como Bispo e Mártir, apesar de sua grande popularidade, ocorre o mesmo. De maneira que, para nos orientar, temos de nos guiar por documentos antigos, quase todos apócrifos e muito posteriores ao seu mártirio.

De acordo com a Wikipedia em inglês,1 uma primeira referência a São Brás está nos escritos de Aécio Aminodenus (cerca do ano 500), médico e escritor bizantino muito distinguido por sua erudição. Ele relata que a ajuda desse santo era invocada, já em sua época, para o caso de alimentos, e mesmo para objetos presos na garganta.

Séculos depois, Marco Polo (1254-1324) relata que esteve em Sebaste, no santuário perto do monte da cidadela, onde “o Senhor São Brás obteve a gloriosa coroa do martírio”, local mencionado por Guilherme de Rubruck em 1253, mas que parece já não existir.

Temos posteriormente o hagiógrafo italiano Camillo Tutini (1594-1666), que escreveu sua Narrazione della vita e martírio di San Biagio Vescovo di Sebaste. Comprabata col’autorità di gravissimi autori, para a qual disse ter recolhido numerosos testemunhos transmitidos oralmente.

Cumpre dizer que esse bispo e mártir oriental do início do século IV entrou no calendário romano acompanhado apenas por notícias históricas dos martirológios europeus do século IX, quando sua veneração foi trazida para a Europa. Isso é demonstrado nos recitais dos martirológios históricos desse século e na recensão latina da lenda de São Brás. A partir de então, ele se tornou um dos santos mais populares da Idade Média. Somente em Roma levantaram-se em sua honra 35 igrejas.

Contudo, embora as Atas de sua vida sejam do século IX, elas têm um fundo de verdade e historicidade que não se pode desprezar. A tradição oral e a liturgia conservaram sempre os traços fundamentais do seu caráter e santidade, apesar do exagero do autor anônimo de sua lenda escrita.2

Popularidade do santo e sua biografia

O Martirológio Romano também se baseia nas Atas medievais, trazendo a 3 de fevereiro: “Em Sebaste, na Armênia, a paixão de São Brás, bispo e mártir. Sob o prefeito Agrícola, este grande taumaturgo sofreu uma longa flagelação, e foi suspenso a um tronco, sobre o qual lhe desfibraram as carnes com pentes de ferro. Depois, lançaram-no numa asquerosa enxovia, e o submergiram num lago, donde saiu incólume. Por ordem do mesmo juiz, foi por fim degolado, junto com dois meninos”.

Assim, segundo suas biografias baseadas nos documentos acima e sobretudo nas Atas, São Brás teria nascido no fim do século III em Sebaste, hoje a cidade de Sivas, na Turquia, na época na chamada Armênia Menor. Seus pais deviam ser abastados, pois lhe deram muito boa educação. Brás seguiu depois a carreira médica, mas logo teria se desiludido com o que o mundo pudesse lhe oferecer, e se retirou para a região do Monte Argeu para viver como eremita.

Aos poucos, porém, sua vida de oração e penitência repercutiram na cidade. Quando faleceu o bispo local, os habitantes de Sebaste o aclamaram, como era costume na época, seu novo pontífice. A contragosto, Brás teve de ceder.

Dizem as Atas de seu martírio, que o novo bispo transformou a cova em que habitava em seu palácio episcopal. E de lá descia à cidade quando as obrigações do seu zelo pastoral o reclamavam, operando múltiplas curas, sobretudo em favor dos pobres.

Ora, sucedeu então que, quando Licínio, marido de Constança, irmã do imperador Constantino, ficou com o Império do Oriente e o segundo com o do Ocidente, logo surgiu uma desavença entre os dois Imperadores, que redundou em uma guerra. Constantino derrotou Licínio, deixando-lhe, contudo, a Trácia e a Ásia. Este então, por ódio a Constantino, começou a perseguir os cristãos, negando-lhes até o direito de frequentarem a igreja.

As províncias da Capadócia e da Armênia eram governadas na época, em nome de Licínio, por um prefeito pagão e ferrenho anticristão chamado Agrícola.

Como o bispo de Sebaste era o personagem mais brilhante entre os cristãos, esse prefeito decidiu persegui-lo, e mandou aprisioná-lo.

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