Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 866 | página 08-09
| PALAVRA DO SACERDOTE | (continuação)

lugar depois de Cristo. Os seus privilégios deviam ser compreendidos no seio da comunidade cristã, da qual Ela seria o “tipo” e modelo. Por isso, dita apresentação foi chamada de “eclesiotípica”.

O confronto entre as duas correntes deu-se principalmente por ocasião do Concílio Vaticano II. Como é sabido, em conformidade com os desejos de grande número de bispos do mundo inteiro, a comissão preparatória do Concílio redigiu o esquema prévio de um documento conciliar dedicado integralmente à Bem-Aventurada Virgem Maria. Mas os bispos da Alemanha, Áustria e Suíça, após uma reunião em Fulda em torno do jesuíta Karl Rahner, fizeram um pedido ao Secretariado Geral do Concílio, para reduzir substancialmente o documento, de modo a transformá-lo num capítulo do esquema sobre a Igreja, e também para evitar toda referência à mediação universal de Nossa Senhora.

Em apoio ao pedido, citavam um “bispo” protestante que havia declarado que a doutrina católica sobre Maria era um dos maiores obstáculos à união ecumênica. Somaram-se sucessivamente ao mesmo pedido o cardeal chileno Raul Silva Henríquez, em nome de 44 bispos latino-americanos, o arcebispo de Toulouse, Dom Garrone, em nome de “numerosos” bispos franceses, assim como a hierarquia da Inglaterra e do País de Gales. No campo contrário, o Cardeal Arriba y Castro, arcebispo de Tarragona, em nome de 60 bispos espanhóis, pediu a manutenção de um esquema separado sobre Nossa Senhora.

Visto que muitos bispos queriam falar sobre o assunto, Paulo VI ordenou à comissão de coordenação que escolhesse dois membros para dar na aula os argumentos de uma e outra posição. A Comissão designou o cardeal filipino Rufino Santos, arcebispo de Manila, como advogado do esquema separado, e o cardeal austríaco Franz König, de Viena, como promotor da incorporação no esquema da Igreja.

O arcebispo de Manila deu uma dúzia de argumentos em favor de um esquema separado, sublinhando que Nossa Senhora é, obviamente, o primeiro e principal membro da Igreja, mas que, ao mesmo tempo, está acima da Igreja, pois, como diz São Bernardo, Ela está “entre Cristo e a Igreja”. O cardeal König argumentou, ao contrário, que os fiéis deveriam “purificar” sua devoção mariana para evitar o apego ao que é secundário e acidental e, acima de tudo, para não prejudicar a causa do ecumenismo.

Favoreceu o ecumenismo e prejudicou a devoção mariana

29 de outubro de 1963 foi um dia nefasto. Foi colocada em votação a seguinte pergunta: “Os Padres conciliares gostariam que o esquema da Bem-Aventurada Virgem Maria, Mãe da Igreja, fosse revisto para se tornar o Capítulo VI do esquema da Igreja?”. O resultado da votação foi de 1.114 pela integração e 1.074 contra.

O confronto entre as duas correntes prosseguiu na sessão do ano seguinte, em torno de duas questões: onde situar o capítulo sobre Nossa Senhora no esquema sobre a Igreja (os devotos queriam que fosse no começo e os “minimalistas” que fosse no fim) e sobre incluir ou omitir uma referência à mediação da Santíssima Virgem. Após várias votações e sucessivas redações, resultou que “A bem-aventurada Virgem Maria Mãe de Deus no mistério de Cristo e da Igreja” ficou como último capítulo da constituição conciliar sobre a Igreja e que a expressão “medianeira”, despojada do qualificativo habitual “de todas as graças”, passou a figurar no fim de uma lista de invocações com as quais os fiéis honram a Santíssima Virgem (“advogada, auxiliadora, socorro, medianeira”), sem nenhum aprofundamento teológico sobre o seu significado.

Pior, essa referência de passagem foi ainda amortizada pela seguinte cláusula obvia, mas típica daqueles que São Luís Grignion de Montfort chama de devotos escrupulosos: “Mas isto entende-se de maneira que nada tire nem acrescente à dignidade e eficácia do único mediador, que é Cristo”.

Esse foi o tortuoso caminho pelo qual o principal atributo de Nossa Senhora — ser Mãe de Deus, a ponto de São Tomás de Aquino chegar a dizer que “a Santíssima Virgem possui certa dignidade infinita, devido à sua maternidade divina, resultante do bem infinito que é Deus” — foi minimizado ao extremo, para fazer de Maria apenas “nossa companheira na ‘peregrinação da fé’”. Em nome de um “cristocentrismo” de baixo quilate, foram reduzidas, quando não eliminadas, as peregrinações a santuários marianos, as procissões em honra de Nossa Senhora, os altares laterais das igrejas dedicados a Ela, a recitação do rosário etc.

O resultado foi que, em vez de atrair os protestantes para a Igreja, os católicos foram passando em número cada vez maior para o protestantismo, porque já não se via muito a diferença entre uns e outros no culto e na vida de piedade.

Peçamos à Virgem Santíssima que intervenha, abrindo os olhos dos pastores e incendiando os corações dos fiéis, para que num futuro próximo a Igreja possa declarar, como etapa inicial do triunfo de seu Imaculado Coração, que Ela é Rainha dos corações, Medianeira de todas as graças e Co-redentora do gênero humano.

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