| CAPA | (continuação)
remotas da atitude da população em face da epidemia, como também os condicionamentos psicológicos que levaram as autoridades a tomar atitudes imediatistas, ainda que desastrosas em longo prazo. Por dar prevalência aos fatores religiosos e morais, a visão contra-revolucionária põe em relevo o abandono da pregação dos quatro novíssimos do homem — morte, juízo, céu e inferno — e sua concomitância com a queda gradual da prática religiosa. Valoriza acima de tudo a difusão na sociedade de uma concepção pagã e hedonista da vida, que erigiu a saúde em valor supremo e passou a considerar a morte como uma charada incompreensível e maléfica, facilitando as atitudes de pânico.
A visão contra-revolucionária põe em relevo o abandono da pregação dos quatro novíssimos do homem — morte, juízo, céu e inferno — e sua concomitância com a queda gradual da prática religiosa.
(Foto: Luis Guillermo Arroyave).
Tendências que propiciam ideias – ideias que geram fatos
Em recente artigo no jornal Le Figaro, o filósofo agnóstico Luc Ferry, ex-ministro da Educação da França (2002-2004), compara a reação da população diante da pandemia atual com a da gripe de Hong-Kong (1968-1969). Esta não alarmou quase ninguém, apesar de ter ceifado vidas em proporção similar à da Covid-19. Daí ele deduz que nesses 50 anos houve uma mudança em relação à morte, que deixa os agnósticos ou os menos religiosos em uma situação trágica: “Eles são ao mesmo tempo menos protegidos pelas promessas das grandes religiões em face da morte, mas também mais expostos do que nunca por causa da afetividade que se desenvolveu exponencialmente na família moderna. Para a maioria deles, o Céu ficou vazio, não há cosmos ou divindades que possam dar o menor significado à morte de um ente querido”. Para esses agnósticos, diante da realidade “funesta” da morte não resta “alternativa senão ‘meter fundo o pé no freio’, o que a meu ver explica a amplitude nova, propriamente falando inédita, das reações de ansiedade e confinamento que se observam em face da pandemia”.7
A visão autenticamente contra-revolucionária destaca o impacto que essa mudança profunda nas tendências teve no campo das ideias, cujas conclusões serviram, por sua vez, de guia para as decisões adotadas para frear a epidemia. Ou seja, o medo neopagão da morte favoreceu aquilo que o filósofo americano Matthew Crawford chamou de securitarismo: “Uma tendência que cresceu em poder durante dezenas de anos, e conhece hoje um momento de triunfo por causa do vírus. É uma determinação de eliminar qualquer risco à vida, uma sensibilidade claramente burguesa”. O securitarismo leva a um paradoxo: “Quanto mais se está seguro, tanto mais o risco que permanece nos parece intolerável”. Para Crawford, “a facilidade com a qual ultimamente nós aceitamos o poder dos especialistas da saúde para remodelar os contornos da nossa vida comunitária — talvez de maneira permanente — se deve ao fato de o protecionismo ter suplantado largamente outras sensibilidades morais que poderiam lhe oferecer certa resistência. […] O protecionismo se tornou um meio de intimidação moral”.8
Tendo evanescido o antigo temor de uma conflagração atômica, depois do colapso da URSS, o medo se transferiu para riscos emergentes em matéria de segurança sanitária, tais como um ataque bioterrorista ou novas doenças infecciosas particularmente letais ou resistentes.
Essa intimidação dos espíritos sofreu uma mudança de paradigma. Tendo evanescido o antigo temor de uma conflagração atômica, depois do colapso da URSS, o medo se transferiu para riscos emergentes em matéria de segurança sanitária, tais como um ataque bioterrorista ou novas doenças infecciosas particularmente letais ou resistentes. Se até o fim do século XX as políticas de prevenção tentavam calcular as probabilidades reais de uma ameaça sanitária com base em dados seguros das epidemias precedentes, na passagem do milênio um novo critério entrou em vigor: o princípio da preparedness (condição de preparado) — ou seja, a convicção de que um país deve estar em condições de enfrentar qualquer eventualidade, até a pior delas. Isso levou os responsáveis pela segurança sanitária a concentrar seus exercícios de antecipação em acontecimentos de escassa probabilidade, mas de consequências catastróficas.
Esse deslizamento intelectual foi muito bem analisado no livro Tempêtes microbiennes. Essai sur la politique de sécurité sanitaire dans le monde transatlantique (Tempestades microbianas. Ensaio sobre a política de segurança sanitária no mundo transatlântico), publicado em 2013. Patrick Zylberman professor de História da Saúde na Escola Superior de Estudos de Saúde Pública de Paris, identificou três eixos principais na mudança de paradigma do conceito de segurança sanitária:
1. A importância crescente atribuída a cenários fictícios, para imaginar respostas e treinar os reflexos;
2. A preferência sistemática pela lógica do pior, como critério de racionalidade, mesmo sabendo que os eventos raramente ocorrem como se imagina; e que, portanto, a fixação no pior obstaculiza o pensamento para chegar a uma avaliação realista;
3. A tentação de impor um civismo superlativo à população, na esperança de fortalecer a adesão às instituições políticas e a aceitação de quarentenas, vacinações ou a constituição de grandes reservas sanitárias.9
O Prof. Zylberman conclui: “A segurança sanitária é hoje o objeto ou o pretexto de uma degringolada vertiginosa na ficção. [...] Cifras exageradas, analogias sem