Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 835 | página 10-11

| PALAVRA DO SACERDOTE |

Padre David Francisquini

[Consagrações dos Papas atenderam ao pedido de Nossa Senhora em Fátima?]

Pergunta — Durante a pandemia do coronavírus, fiéis de vários países pediram a seus episcopados que renovassem a consagração de suas nações a Nossa Senhora, a fim de obter a sua benevolência e o fim da pandemia. Chamou-me a atenção que os bispos da Itália e de Portugal, nos respectivos atos litúrgicos que realizaram para atender a esse pedido, reservaram a palavra “consagração” exclusivamente a Jesus. No que se refere a Maria, empregaram em Fátima o termo “entrega”; e no santuário italiano de Caravaggio, “affidamento”, que quer dizer a mesma coisa. Achei isso estranho, já que Nossa Senhora em Fátima pediu a “consagração” da Rússia (não apenas a “entrega”) ao Imaculado Coração de Maria. Se a Rússia pode ser consagrada à nossa Mãe do Céu, por que não Portugal ou Itália, quanto mais em uma emergência tão grave como esta?

Resposta — Essa reticência dos prelados e dos teólogos em empregar o termo “consagração” em relação a Nossa Senhora vem desde o tempo anterior ao Concílio Vaticano II, sob pretexto de que “uma consagração propriamente dita não se faz senão a uma Pessoa divina, pois a consagração é um ato de latria, cujo termo final apenas pode ser Deus”, como escreveu o jesuíta Pe. Juan Alfaro.* De fato, em sentido estrito, a consagração é o ato pelo qual uma coisa é transferida de um uso comum e profano para um uso sagrado; ou o ato pelo qual uma pessoa ou coisa é dedicada ao serviço e ao culto de Deus por meio de orações, ritos e cerimônias. Assim, fala-se da consagração de uma igreja, de um altar ou de um bispo. O conceito tem um aspecto positivo, o de pertencer total e exclusivamente a Deus; e um aspecto negativo, que é o de subtrair o uso profano.

Ao longo dos séculos a Igreja não hesitou em empregar a palavra “consagração” para exprimir o dom e a oferenda que uma pessoa, um grupo humano ou uma região fazem de si a uma criatura de Deus, como Nossa Senhora, à Igreja ou à uma Ordem religiosa, como um meio para melhor servir ao próprio Deus. Até na linguagem comum se utiliza esse termo para exprimir uma dedicação total. Por exemplo, quando dizemos que uma pessoa se consagrou a uma causa ou a um trabalho.

Como é isso possível, se somente Deus, Criador e Senhor de tudo quanto existe, tem direito à pertença (domínio) total e exclusiva de suas criaturas? A resposta é que se trata aí da aplicação deste princípio conhecido: quando se diz algo de Deus, a referência é em sentido próprio; quando se diz o mesmo de uma criatura, o sentido é apenas analógico.

O protestantismo é contrário à vassalagem a Nossa Senhora

Já no século IV a noção de pertencer a Nossa Senhora aparece nos escritos de Santo Efrem, o Siríaco; e no século seguinte, uma “santa servidão” a Ela, pela qual os que a praticavam eram chamados “servos de Maria”. No século VII, provavelmente em 626, depois do cerco dos ávaros e dos persas, a cidade de Constantinopla exprimiu no hino Akathistos sua pertença Àquela que os tinha salvo: “A Vós, capitã e defesa, canções de vitória e de gratidão. Mãe de Deus, eu consagro vossa cidade, libertada de ameaças horríveis”. Santo Ildefonso de Toledo (+667) difundiu a ideia da consagração a Nossa Senhora, ou mais precisamente “da dedicação plena ao seu serviço”.

No século VIII, São João Damasceno elaborou ainda mais o tema da consagração a Maria. Numa passagem de seu sermão sobre a dormição, escreveu: “A Vós consagramos nossas mentes, nossas almas e nossos corpos – em uma palavra, todo nosso ser”. Empregou sem hesitar o verbo grego anathemeni, que significa reservar para uso sagrado, configurar como presente votivo, dedicar, separar.

Na sociedade feudal da Idade Média, não causava nenhuma estranheza a ideia da dedicação total a um senhor feudal inferior. A sociedade era então baseada sobre um sistema de vassalagens sucessivas, pelo qual o senhor de um vassalo era, por sua vez, vassalo de um senhor mais alto, até chegar ao rei. E todos compreendiam que, se cada vassalo em seu respectivo nível servisse bem ao seu senhor, o maior beneficiário final dessas dedicações era o soberano.

Assim, a ideia da consagração a Deus por meio de Maria entrou muito fundo na espiritualidade de muitos santos, de várias Ordens, congregações e do próprio povo. O conceito de vassalagem a Nossa Senhora só foi questionado pela revolução protestante, com a orgulhosa pretensão de que cada batizado estabeleça uma relação direta com Deus, sem nenhuma intermediação da Igreja, de seus sacramentos e de seu magistério. O pretexto para isso é que tal vassalagem afastaria de Cristo, único Mediador.

O Cardeal Pierre de Bérulle (+1629), fundador da chamada “escola francesa” de espiritualidade, impôs à Congregação do Oratório e às carmelitas o voto de servidão a Maria. Levantou-se então grande ofensiva de libelos anônimos motivados pelo jansenismo, que era uma versão moderada dos erros protestantes. O voto de escravidão proposto pelo Cardeal de Bérulle foi condenado pelas universidades de Louvain e Douai.

Consagração do mundo ao Imaculado Coração de Maria

No Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, São Luís Maria Grignion de Montfort fundamenta de modo irrefutável que a escravidão a Maria é o meio mais rápido, fácil e seguro de se conformar a Jesus Cristo. Para evitar uma condenação semelhante à do Cardeal de Bérulle, o grande santo mariano tomou o cuidado de intitular sua fórmula de escravidão mariana “Ato de consagração a Jesus Cristo, a Sabedoria Encarnada, pelas mãos de Maria”. A descoberta desse livro em meados do século XIX fez com que a Mariologia se desenvolvesse resolutamente nos meios teológicos, e que dezenas de milhares de fiéis fizessem sua consagração a Nossa Senhora nos termos propostos por São Luís de Montfort.

Esse movimento de entusiasmo por parte dos escravos de amor da Santíssima Virgem foi indiretamente convalidado pelas aparições de Nossa Senhora em Fátima, nas quais Ela disse que viria solicitar a consagração da Rússia ao seu Imaculado Coração, a ser realizada pelo Papa em união com todos os bispos do mundo.

No dia 31 de outubro de 1942, num momento crítico da Segunda Guerra Mundial, o Papa Pio XII, numa Radiomensagem aos fiéis portugueses, fez um ato de consagração do mundo ao Imaculado Coração de Maria, nos seguintes termos: “A Vós, ao vosso Coração Imaculado, nesta hora trágica

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