Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 832 | página 22-23

| ENTREVISTA | (continuação)

A fome e a miséria assolam Venezuela

a legalidade, anárquico, que não reconhece a autoridade da polícia e queima boa parte do país, queima estações de metrô, esse movimento é o que está promovendo a Convenção Constituinte.

A atual Constituição dá garantias de defesa aos indivíduos e aos órgãos intermediários, às famílias?

É claro que a atual Constituição dá muitas garantias. E se o Executivo e o Judiciário não tivessem atado as mãos das forças de segurança, não estaríamos agora sofrendo o que estamos sofrendo. Tive há pouco uma discussão com um professor — pois infelizmente é através das universidades que essa ideologia totalitária mais ameaça controlar o Chile — , e nessa discussão esse professor me disse: “Precisamos de uma nova Constituição”. Redargui: “Mas por quê?”. Ele: “Porque a atual Constituição pertence a Pinochet”. Eu lhe disse que isso não é verdade, pois ela foi modificada muitas vezes, e na última houve uma modificação muito profunda, feita por Ricardo Lagos. Tão profunda, que Lagos disse ser dele essa Constituição.

Eu respondi que todas as coisas da Constituição foram de fato alteradas por meio de leis, e o professor me disse que a subsidiariedade, um dos assuntos mais importantes, não tinha sido alterada. Eu o interpelei: “Como!? Você quer mudar a subsidiariedade? Você deseja eliminar as associações intermediárias?”. Eu disse também a ele que a subsidiaridade foi afetada pelas leis. Por exemplo, Bachelet acabou com as escolas subsidiadas. Ele respondeu que as escolas subsidiadas não haviam terminado, e eu retruquei: “Como não? Hoje os pais não podem contribuir para as escolas”. Ele respondeu que isso não era para acabar com as escolas subsidiadas, mas com a segregação.

Fui além, e lhe perguntei se queria acabar com a família, já que pretende suprimir todas as diferenças, ao que ele respondeu não ter sido isso o que ele quis dizer. Retruquei: “Se você acabar com todas as diferenças, acabará com a família, pois é ela a primeira razão das diferenças”. De fato existem diferenças necessárias na sociedade política. Este é um exemplo claro de que a Constituição garante e protege as associações intermediárias, protege a família, mas isso incomoda os revolucionários tirânicos que ameaçam o Chile.

Tocou-lhe assistir à gestação da Constituição venezuelana, e agora assiste à de um novo projeto de Constituição no Chile. É possível traçar um gráfico comparativo de uma situação com a outra?

Existem coisas que não são justas no Chile, desigualdades excessivas, e isso sempre será assim. Em toda sociedade há coisas para mudar; no entanto, o país poderia corrigi-las sem mudar a Constituição. Na Venezuela, em 1998, aconteceu a mesma coisa, pois durante 15 anos a mídia foi desacreditando a sua população por meio de uma campanha mentirosa. Como consequência, os venezuelanos acreditamos na mudança, por isso pensamos votar em Chávez, que iria operar tal mudança, e as coisas não poderiam ficar piores do que estavam. Votei em Chávez, e já em janeiro de 1999 percebi o erro, pois o Supremo Tribunal de Justiça declarou que a Constituição poderia ser modificada por meio não previsto. Tendo em vista que o poder constituinte original está previsto na Constituição, a minha conclusão foi de que desse modo iríamos direto para uma tirania. A partir desse momento comecei a me opor a Chávez. Havia votado nele porque fui enganado.

Isso vem acontecendo hoje com muitos chilenos, mas eles não percebem. É verdade que há coisas para mudar, mas eles não sabem que as coisas não mudam com uma arma apontada para a cabeça, muito menos quando essa arma é empunhada por um movimento revolucionário tirânico, ainda mais sabendo-se de suas conexões claras com Nicolas Maduro, com a tirania boliviana recentemente derrubada. Não se pode realizar um processo constituinte com pessoas dirigindo uma arma contra a sua cabeça. Esta primeira questão revela um desejo de mudar que leva as pessoas a querer a Constituinte, mas elas não percebem os perigos daí decorrentes.

Os perigos para o país são enormes. Basta ver quais são os principais promotores do processo constituinte: Michelle Bachelet, Fernando Atria, Partido Comunista, Alejandro Navarro, Camila Vallejo. Todos eles afirmaram querer uma Assembleia Constituinte soberana, a fim de reiniciar a República no Chile. Sem respeitar regra alguma, seja ela moral, legal, tradicional, enfim, de nenhuma espécie. Exatamente o que dizia Chávez.

Eles pretendem começar do zero, com a folha em branco, mas isso é extremamente perigoso. Há ocasiões na História em que isso aconteceu. Por exemplo, em Atenas, no século VI a.C. Mas a quem foi dada uma folha em branco? A Sólon, um dos maiores filósofos e políticos que já houve na História. Mas não me consta que o Chile tenha um Sólon; há, sim, muitas pessoas violentas que querem conquistar o poder e sujeitar o país a uma tirania. O mesmo que aconteceu na Venezuela irá se repetir no Chile: destruição sistemática do setor produtivo, para que todo o poder seja concentrado em um partido, em um movimento político. Uma vez assim concentrado, como na Venezuela, cairá na escassez e até na fome, conforme o exemplo venezuelano.

Uma venezuelana me disse que chorou quando viu uma pessoa no Chile jogar fora um sanduíche porque não tinha mais apetite. Ela declarou: “Venho de um país onde as pessoas remexem os lixões para comer alguma coisa”. Seis milhões de pessoas já fugiram de Venezuela...

Seis milhões até um ano e meio atrás! E eu calculo que já tenham morrido um milhão de pessoas ou mais. Desencadearam-se a violência, a fome e a falta de remédios. Por exemplo, em 2017 morreu Adrian Guacarán — aquele garoto que cantou para João Paulo II, na Guiana, a música “O Peregrino”. Aquela criança morreu porque não havia um medicamento que meu pai também tomava. Na farmácia a caixa desse remédio custa 2.000 pesos, e ele morreu porque não havia esse remédio na Venezuela, um país cuja economia, depois dos Estados Unidos, Canadá e Brasil, era a mais forte da América. Agora está totalmente destruído e nas mãos de estrangeiros.

A destruição da economia venezuelana foi um processo rápido?

A destruição foi muito rápida. Ocorreu entre 1999 e 2002. O último golpe forte foi em 2003, quando num só dia Chávez demitiu 23.000 trabalhadores da indústria do petróleo. A empresa de petróleo ainda estava operando quando ele fez todas essas demissões. Pessoas da Líbia e de outros países foram levadas para operá-la, e com isso ele manteve um fluxo de dinheiro que entrou na Venezuela por meio da companhia de petróleo, além de receber enormes créditos internacionais.

Quando ele chegou ao governo, a dívida internacional da Venezuela era de 27 bilhões de dólares. O presidente Rafael Caldera, com o petróleo a sete dólares o barril, reduziu a dívida de 30 para 27 bilhões. Logo que Chávez chegou ao governo, o barril subiu para US$ 140, multiplicou-se muito, no entanto a dívida em 2009 já era de 150 bilhões. As pessoas da rua não percebiam que a economia havia sido destruída. Não notaram. Os efeitos foram notados a partir de 2013.

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