Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 832 | página 44-45

| POR QUE NOSSA SENHORA CHORA? |

EUTANÁSIA APROVADA EM PORTUGAL: UMA TRAGÉDIA ANUNCIADA

José Carlos Sepúlveda da Fonseca

Infelizmente dentro da oposição entreguista, contra a aprovação da eutanásia, se encontravam muitas autoridades eclesiásticas de projeção. Houve até quem sugerisse que a “morte assistida” (infame eufemismo para a solução final) era apenas uma questão constitucional.

Nada de péssimo se faz subitamente”, diz um velho adágio. Isto se pode afirmar da aprovação da eutanásia em Portugal. Foi um longo processo, e nele estavam comprometidos diversos atores.

De um lado, os mentores dos mal-denominados “avanços civilizacionais” (avanços da barbárie, diríamos). Houve partidos políticos, como o Partido Socialista, que na recente campanha eleitoral omitiram de seu programa o polêmico tema da eutanásia, para desse modo escondê-lo do eleitorado e poder conquistar o voto dos incautos, inclusive de muitos católicos. Outro partido ainda, que tenta aprovar medidas legais para quem abandone animais ou os sacrifique, quando estão irremediavelmente doentes, mas que ufanamente propunha a eutanásia. Também grupos de médicos que, violando os mais elementares princípios da ética profissional, se diziam favoráveis a esse “direito” de decidir matar. Vozes coniventes, pois os projetos de lei em análise no Parlamento português mencionavam a necessidade de uma avaliação final de médicos para atender à decisão do paciente de solicitar a “morte assistida”.

Por outro lado — e talvez mais terrível — houve muitos que deveriam ter sido os paladinos da oposição a essa ignominiosa lei, mas neles se encontrou a inércia, a contemporização, a omissão, o descaso, o pragmatismo, as promessas vãs, os acertos de bastidores, o respeito humano de defender princípios definidos. Durante a campanha eleitoral o tema não esteve em debate, e isso quer dizer que ninguém interpelou o então primeiro-ministro socialista sobre a questão da eutanásia, como era dever daqueles que se dizem “oposição”.

É triste dizê-lo, mas nessa oposição entreguista se encontravam muitas autoridades eclesiásticas de projeção. Renunciando à missão específica confiada por Nosso Senhor, de ensinar a todos os povos, preferiram empurrar o debate para o campo de um humanismo vago e sem fé, de uma defesa da vida sem valores transcendentes, de uma religião ecumênica e sem definições doutrinárias. Houve até quem sugerisse que a “morte assistida” (infame eufemismo para a solução final) era apenas uma questão constitucional. Houve um recém-nomeado Cardeal que desenvolveu em artigo “as dez razões civis (!) contra a eutanásia”; e à última hora, sem ardor e sem verdadeiro empenho, mas para limpar a face, introduziu o pedido mal explicado de um referendo.

Esta “oposição” parecia só ter como finalidade diluir a força da reação, lançando a anestesia entre os que deveriam reagir.

É fora de dúvida que nesse entreguismo derrotista projeta-se negativamente a figura “kerenskiana” do Presidente da República. Católico, sempre pronto ao espetáculo das selfies ou a pontificar sobre a Constituição e os valores da “democracia”, em episódios carregados de demagogia que alimentam o politicamente correto. Mas de uma omissão cúmplice quando se tratava de defender, por exemplo, esse bem inalienável que é a vida.

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Não podemos ser ingênuos. Tantos fatores concorrendo para um mesmo fim não são fruto da “coincidência”, e isto me fez recordar um trecho lapidar de Plinio Corrêa de Oliveira, que transcrevo a seguir:

“O que é esta quinta-coluna misteriosa e extensa, cujos dedos mágicos e impalpáveis encontram sempre, no momento decisivo, no lugar decisivo, no posto indispensável, o homem serviçal e flexível que abre sorrateiramente as portas das mais intransponíveis fortificações, anestesia e transforma em inofensivas cobaias os mais valentes leões de guerra, e fere de sonolenta cegueira os mais dinâmicos e perspicazes estadistas? A que realidade trágica e satanicamente profunda corresponde esse grande mysterium iniquitatis?

“Não causa surpresa que os fariseus tenham encontrado um Judas. Mas, que o perfil diabólico do Iscariotes se multiplique indefinidamente, e obtendo vitórias que são verdadeiros golpes de prestidigitação, eis aí uma novidade desconcertante, cujo raio de ação parece transcender a órbita dos recursos humanos.

“De nossa parte, estamos certos de que o substractum humano mais profundo da quinta-coluna não é fornecido nem pelos aventureiros, nem pelos oportunistas, nem pelos traidores vulgares que a peso de ouro sacrificam seus mais sagrados deveres. Há demais trabalho, demais inteligência, demais êxito nesse vasto plano, para que façamos ao oportunista a honra de o apontar como seu autor. Só um idealismo ardente e satânico, como o que animava outrora os propagandistas da Revolução Francesa e do Comunismo, pode explicar tantas e tais vitórias.

“Mas esse pequeno punhado de idealistas de nada valeria, se não encontrasse a seu serviço toda uma coorte de oportunistas, de imediatistas, de brilhantes ratés e de inconsoláveis fracassados, dispostos a tudo, prontos a tudo, a todos os riscos como a todas as infâmias, para manter a fachada ilusória de uma situação social já esboroada, de uma reputação já comprometida ou de uma tradição já maculada. Aí, nesse bas-fond humano, é que se encontram todos os agentes da quinta-coluna, todos os miseráveis que servirão de instrumentos a essa catástrofe em marcha, que é o totalitarismo” (Legionário, nº 492, 15-2-1942).

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Para encerrar estas breves considerações, volto-me para as graves advertências feitas há mais de um século por Nossa Senhora em Fátima, quando falava aos três pastorinhos sobre a imensa e grave crise que assolava a sociedade e os Estados em todo o mundo. Muitos católicos, incluindo eclesiásticos, particularmente em Portugal, silenciam a Mensagem de Fátima no seu âmago, ou quase se envergonham dela. Mas os radicais, que sob a capa da moderação governam Portugal, escolheram o dia do centenário da morte de Jacinta Marto (20 de fevereiro) para aprovar essa lei infame no Parlamento. Simples coincidência? Não se iluda, caro leitor, pois coincidências assim não existem. E que isto nos sirva de lição. 

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