Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 828 | página 36-37
| A ESCOLHA DA FESTA DA IMACULADA... | (continuação)

aplicados ao terreno político-social, levando-os a se insurgir contra o rei católico Felipe II e os sucessores dele na Espanha, onde o monarca regia seu império e era defensor do catolicismo. Na época, o reino de Portugal estava unido à Espanha pelo casamento, incluindo naturalmente o Brasil, que também sofreria os cruentos assaltos dos hereges holandeses.

Nos Países Baixos, os tercios (regimentos) espanhóis lutavam em condições de extrema dificuldade, apoiados pela minoritária população católica local. A geografia pantanosa e o auxílio dos vizinhos protestantes conferiam aos rebeldes facilidades de luta e poder de fogo extraordinários. Porém, tinham acabado de perder a Antuérpia, primeira capital da revolta e maior cidade da época, com aproximadamente 100 mil habitantes. Alexandre Farnese, duque de Parma e governador de Flandres, a arrancara dos hereges, mas entendeu que a conquista seria insuficiente enquanto os revoltosos controlassem o mar. Enviou então o conde Carlos de Mansfeld com parte do seu exército para tomar as ilhas de Zelândia e Holanda, que dominavam a costa e constituíam o coração da revolta.

Retrato de Felipe de Hohenlohe-Neuenstein (apelidado Hollac) – Jan van Ravesteyn (1572–1657). Rijksmuseum, Amsterdã.

A ilha de Bommel, entre os rios Mosa e Waal, foi ocupada por cinco mil soldados espanhóis do Terço Velho de Zamora, comandado pelo mestre de campo Francisco Arias de Bobadilla. Os protestantes julgavam imperioso revidar a perda de Antuérpia com uma vitória de grandes proporções, e o almirante calvinista Felipe de Hohenlohe-Neuenstein (apelidado Hollac), comandante dos rebeldes Estados Gerais dos Países Baixos, percebeu a vantagem que lhe oferecia a dispersão do exército católico pelas ilhas. Aparelhou então uma frota de 100 barcos, e pediu o reforço de calvinistas franceses. No entanto os franceses se lembravam do que dissera o almirante Guillaume Gouffier de Bonnivet, derrotado e morto pelos hispanos em 1525, na batalha de Pavia: "Cinco mil espanhóis são cinco mil homens que lutam e cinco mil cavalos ligeiros, e cinco mil homens de infantaria e cinco mil sapadores e cinco mil demônios". Temerosos, os franceses tiraram o corpo.

Antes a morte que a desonra

Os arautos do erro de Calvino não queriam enfrentar as tropas espanholas por terra, porque os tercios constituíam a mais temível infantaria do mundo. Então Hollac projetou um cerco naval da ilha de Bommel e reuniu uma frota formidável nos rios em volta. Pretendia assim cortar os insumos bélicos de Bobadilla, deixá-lo sem comida e sem abrigo. Ao mesmo tempo, ofereceu-lhe uma capitulação honrosa apelando ao "bom senso": os católicos poderiam sair sem deixar reféns e levariam suas bandeiras. Assim Hollac evitaria uma luta corpo a corpo com os tercios.

Apresentada a proposta, o mestre de campo Bobadilla respondeu: "A infantaria espanhola prefere a morte à desonra. Nós vamos falar sobre a capitulação após a morte". Se dita por outro, a frase soaria como bravata, mas feitos de armas nessas terras ensinavam que ela seria levada muito a sério. Havia entre aqueles homens os que alguns anos atrás tinham sido capturados em Tournai e Maastricht, mas que voltaram e reconquistaram Dunkerque e Nieuwpoort, desfilaram suas bandeiras por Bruges e Gant, e ainda conquistaram Antuérpia.

Hollac, arauto de uma seita impura e igualitária, estava certo de que aqueles católicos fariam o que tinham dito. Concebeu então um estratagema para quebrá-los, sem ter que medir forças com os sitiados: mandou inundar a ilha de Bommel, onde estavam os católicos, rompendo as barragens dos rios Mosa e Waal. A terra ocupada pelos espanhóis foi inundada por uma enxurrada violenta, e só a colina de Empel sobressaía da água. Os soldados dos tercios, esgotados e famintos "como sempre", ficaram ensopados até os ossos, reduzidos a um pedaço de terra facilmente bombardeável pelo inimigo. Enquanto isso, 100 barcaças e galeões holandeses se juntaram à artilharia dos fortes da área, que já vomitavam fogo sobre os resistentes.

Os tercios passaram o dia 7 de dezembro defendendo-se na colina de Empel. Durante a noite, alguns homens de Bobadilla escavavam abrigos, e nesse trabalho a pá de um soldado bateu num objeto estranho, que a princípio fora confundido com uma pedra. Removeu a terra que o circundava, e constatou ser um pedaço de madeira. Afastando a lama que o cobria, surgiram as cores azul e branca, até finalmente aparecer um quadro flamengo da Imaculada Conceição. A devoção dos povos espanhol e português à Imaculada se manifestava fervorosamente entre aqueles soldados, que A tinham em conta de heroína da histórica vitória contra os mouros em Navas de Tolosa, em 1212, e da conquista de Granada em 1492. Ela voltava agora a aparecer em Empel, onde só um milagre impediria a derrota!

Nas cidades católicas vizinhas - como Bolduque, capital da província de Brabante do Norte - os habitantes conduziam o Santíssimo Sacramento em procissão nas ruas, implorando pelos sitiados. Foi nessa hora que apareceu a imagem da Imaculada, cujo dogma ainda não havia sido proclamado, e cuja festa não fora instituída, mas que grandes teólogos e o fervor popular defendiam com devoção. Transcorreriam quase três séculos até que o bem-aventurado Papa Pio IX, em 1854, proclamasse o dogma da Imaculada Conceição, confirmado em 1858 por Nossa Senhora em Lourdes.

Prometendo à Imaculada vencer ou morrer

O milagre de Empel – Augusto Ferrer-Dalmau (2015). Afastando a lama, surgiram as cores azul e branca, até finalmente aparecer um quadro flamengo da Imaculada Conceição.

Exaustos, os oficiais e soldados improvisaram um altar de pedras fixadas com lama, e o ornaram com a Cruz de Santo André, símbolo do exército espanhol. Para louvar a imagem da Imaculada Conceição, milagrosamente encontrada, entoaram

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