retirar-se para uma região mais remota da Numídia, e estabeleceu-se em Tagaste. Além da tranquilidade do lugar, podiam gozar da amizade do bispo local, que não era outro senão Alípio, fiel amigo de Santo Agostinho.
Ali os santos esposos continuaram suas obras de beneficência. Fundaram um mosteiro para 80 monges, no qual o marido ingressou; um convento para 130 monjas, para onde Melânia se retirou; e enriqueceram com muitas doações a igreja de Tagaste. Os ilustres personagens romanos deixavam admirados os fiéis de Tagaste, pelo seu fervor e profunda humildade.
Uma vez assim estabelecidos, Piniano e Melânia, impacientes de verem o homem cujo nome enchia o mundo cristão, dirigiram-se a Hipona acompanhados de Alípio. Ali ocorreu um incidente que bem mostra os costumes da época. Mal sua chegada foi conhecida na cidade, um extraordinário entusiasmo se propagou em todas as classes. Foram todos à igreja para assistir aos "Divinos Mistérios", que era como se referiam à Missa. Chegando ao ofertório, um murmúrio se levantou do povo e cresceu gradualmente, até se transformar num estrondo. A inteira assembleia dos fiéis clamava em alta voz a Agostinho, para que impusesse as mãos sobre Piniano, ordenando-o padre para aquela igreja. Tanto o Bispo quanto o nobre romano resistiram, mas não conseguiam acalmar a população excitada. O tumulto cresceu, e dos pedidos passaram aos insultos e às ameaças, dirigidas especialmente ao pobre Alípio, ao qual acusavam de estar movendo Piniano à resistência, porque queria retê-lo para si em Tagaste. Para acalmar os ânimos, foi preciso que o patrício romano fizesse um juramento de que ficaria em Hipona; e de que, se algum dia resolvesse ser padre, não seria ordenado em outra diocese que aquela.7
Ao chegar à África, venderam suas possessões da Numídia, Mauritânia e África Proconsular. Estavam dispostos a vender todas as suas propriedades, destinando o dinheiro arrecadado ao socorro dos pobres e ao resgate dos prisioneiros. Entretanto, três bispos - Agostinho, Alípio de Tagaste e Aurélio de Cartago - deram um conselho que Melânia acatou: em vez de entregar dinheiro, que logo seria gasto, daria a cada mosteiro um local e uma renda. Os esposos foram particularmente generosos com Alípio, porque sua cidade era pequena e pobre.
"As medidas tomadas por Melânia a Jovem e seu esposo Piniano liquidaram uma das maiores fortunas de seu tempo, e com o produto das vendas socorreram os pobres e a Igreja".8 O caso de Melânia e Piniano serve para ilustrar quanto o Cristianismo havia conquistado a alta sociedade do Império, revelando "o desprendimento que muitas famílias aristocráticas fazem de suas riquezas em razão de um valor cristão em ascensão: a prática da caridade por meio da esmola".9
Melânia permaneceu na África por sete anos, vivendo entre as virgens consagradas que tinham sido outrora suas escravas, e que de ora em diante seriam tratadas como irmãs. Durante esse tempo o santo casal manteve contato com Santo Agostinho por visitas pessoais, e sobretudo por intensa correspondência, que continuou por muitos anos, mesmo depois que eles se retiraram para a Terra Santa. A pedido de Melânia, o Santo Doutor escreveu em 418 o tratado De gratia Christi et de peccato originali ("A graça de Cristo e o pecado original"), o mais metódico tratado anti-pelagiano.
Em Jerusalém (417-439)
Em 417, Melânia, sua mãe Albina e Piniano empreenderam uma peregrinação à Terra Santa, detendo-se em Alexandria, onde visitaram os principais locais de vida monástica e eremítica. Em Jerusalém, viveram por um ano num albergue de peregrinos onde conheceram São Jerônimo, cuja discípula e colaboradora, Santa Paula, era prima de Melânia.
Após a viagem ao Egito, decidiram ficar na Palestina, onde Melânia viveu 12 anos em uma ermida próxima ao Monte das Oliveiras, e depois em um mosteiro que ali ergueu. Na Cidade Santa ela fez também generosas doações, com o dinheiro da venda de suas propriedades na Espanha. Os dois esposos fundaram vários mosteiros na Terra Santa, tanto para mulheres quanto para homens. Lá morreram Albina em 431, e Piniano em 432.
Melânia raramente saía da Terra Santa. Uma das exceções foi uma visita a Constantinopla, onde se encontrava seu tio Volusiano, embaixador na corte de Teodósio II. Este escreveu-lhe convidando-a a ir visitá-lo, e ela o fez na esperança de obter sua conversão ao Cristianismo, pois ainda era pagão. Ela o assistiu até sua morte em 6 de janeiro de 437, tendo conseguido que ele aceitasse o batismo in extremis.
Em 438, Eudóxia, esposa do imperador Teodósio, visitou a santa em Jerusalém. Melânia passou o Natal de 439 em Belém e morreu em Jerusalém uma semana depois, no dia 31 de dezembro, data em que sua festa é celebrada.
Veneração
A Igreja Grega começou a venerá-la logo após sua morte, mas Melânia foi quase desconhecida na Igreja Ocidental por muitos anos. Recebeu maior atenção após a publicação de sua vida pelo Cardeal Rampolla (Roma, 1905), baseado na descoberta de dois manuscritos: o primeiro, em latim, encontrado por ele no Escorial, em Madrid, em 1884; o segundo, uma biografia grega, que está na biblioteca Barberini. O cardeal Rampolla publicou estas importantes descobertas na gráfica do Vaticano.
Em 1908 São Pio X concedeu o ofício da Santa à Congregação do Clero, em Somasca. Este foi considerado o começo de um culto eclesiástico zeloso, ao qual a vida e obras da santa fizeram jus.10