Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 828 | página 14-15
| INTERNACIONAL |

COMO ENTENDER O QUE ACONTECE NO CHILE?

Juan Antonio Montes

Santiago – Causou surpresa na opinião mundial a violência desencadeada no Chile a partir de 18 de outubro passado, com saques e incêndios do metrô, lojas, sedes de partidos políticos e igrejas, e inúmeras cenas de vandalismo. De fato, como entender que uma população com os melhores índices econômicos do continente possa estar tão insatisfeita? Como justificar que seus beneficiários repudiem o que construíram com tanto esforço e dificuldade em três décadas?

Comentaristas e analistas de todo o mundo tentaram explicar o inexplicável. Em seus comentários, há razões como insatisfação acumulada há anos, expectativas que não se atendem na velocidade desejada, uma geração que recebeu tudo sem esforço e não o valorizou. Todos esses aspectos do problema podem influenciar os fatos, mas não explicam o ódio mais profundo que aí se manifestou.

Um ânimo destruidor repentino?

Por ocasião dos feriados nacionais em 18 de setembro, precisamente um mês antes do início dos protestos, a grande preocupação dos chilenos era saber onde as festas aconteceriam, e se os pedágios seriam automatizados para permitir o atendimento rápido de milhares de carros que se deslocariam em direção à costa ou ao sul do país. Nada pressagiava que, apenas quatro semanas depois, estivessem ardendo em chamas as mesmas cabines das praças de pedágio, que as pessoas queriam rápidas e eficientes.

Eis aí uma constatação que evidencia o caráter repentino da manifestação. Bastou um aumento de pouco menos de 25% no valor da passagem do metrô, para que as manifestações anárquicas começassem. Houve um colapso das catracas das principais estações e o subsequente incêndio criminoso de várias delas e de ônibus do serviço de transporte. Pessoas que antes pareciam satisfeitas com a vida queimavam e destruíam tudo ao seu alcance.

Três décadas de governos permissivos

Os incendiários e predadores de bens públicos e privados geralmente não excedem 30 anos de idade. Correspondem, portanto, àqueles que nasceram durante o constante crescimento da produção, do poder de compra e do valor real dos salários. De acordo com a Pesquisa Casen, divulgada em agosto passado, "em 11 anos a taxa [de pobreza] caiu 20,5%; quanto à pobreza extrema, entretanto, é de 2,3%, o que equivale a 412.839 pessoas". O ministro do Desenvolvimento, que anunciou esses resultados, declarou: "Na primeira vez que a pobreza é medida no Chile, ela estagnou".

Entretanto, ao mesmo tempo em que nessas três décadas a sociedade era economicamente enriquecida, a instituição da família, célula básica da sociedade, rapidamente foi corroída nos seus fundamentos cristãos. Tal corrosão não foi obra do acaso ou das tendências modernas. Foi o objetivo pretendido pelos socialistas, quando recuperaram o poder após a tragédia da experiência socialista do ex-presidente Allende. Os socialistas chilenos perceberam que, após esse fracasso, nunca mais voltariam ao poder político com um discurso estatista e nivelador. A única maneira de o retomarem seria aplicar seus postulados igualitários à esfera cultural, especialmente à instituição da família. Com método, teimosia, e muitas vezes com a colaboração de parlamentares do centro-direita, foram aplicados esses postulados para estabelecer o conceito de "diferentes tipos de família" e a relativização do pátrio poder.

Os governos esquerdistas impunham uma sucessiva cultura de "direitos": aborto, gênero, educação sexual permissiva, igualdade entre crianças nascidas dentro e fora do casamento, união homossexual etc. Saíram gradualmente do cenário conceitos como deveres, obrigações, requisitos e esforço individual dos mais novos.

Não surpreende, portanto, que, após três décadas de imposição dessa agenda amoral, seu fruto seja o de uma geração apenas desejosa de ter "tudo, agora, e para sempre", como reivindicava na França o ex-presidente socialista François Mitterrand. No entanto, como é evidente que nem todos podem ter "tudo, agora, e para sempre", os destruidores pensam ser melhor que ninguém tenha nada, e que não o tenha nunca.

Os objetivos desses ataques

Para conhecer o espírito de uma revolução - e o que está acontecendo no Chile é precisamente uma revolução -, devemos discernir os objetivos dos setores mais radicais. Há neles um desejo revolucionário niilista, que não foi suficientemente considerado, pois parecem movidos por um ódio novo, quase metafísico, no qual o slogan é "destruir", "fugir" de qualquer compromisso com a sociedade e com o bem comum de seus membros.

Os políticos, tanto do governo quanto da oposição, acreditam que o problema será resolvido com medidas econômicas (mais royalties e menos liberdade individual) e de ordem política (uma nova Constituição). Uns e outros se apressam em atender a essas supostas demandas, pois a cegueira do chamado "centro esquerda" não os deixa entender que o objetivo

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