Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 800 | página 30-31

Acabamos de ver, pela distribuição territorial dos votos nas recentes eleições, que a “França profunda” não se encontra em Paris nem nas outras metrópoles. Ela se acha nas zonas rurais. (Gárgula voltada para Paris no alto das torres da Catedral de Notre-Dame).

(continuação)

espontaneamente das profundezas da ordem natural das coisas deu origem entre nós a gerações de agricultores. Em sua luta constante contra a natureza bravia do sertão essas famílias, ao mesmo tempo em que promoviam o seu bem-estar favoreciam, por uma profunda e natural entrosagem de interesses, o bem-estar das famílias dos trabalhadores. Esse estilo de vida é tão propício à prática da virtude. O livro cita o Papa Pio XII, em discurso de 11 de abril de 1956: “Hoje, como no passado, o campo tem tanto a dar que ultrapassa o nível dos bens materiais: ele continua sendo sempre uma das reservas mais preciosas de energia física e espiritual”.

França profunda

A “França profunda” é uma expressão repetida a partir do declínio do socialismo. É o modo de a mídia se referir àquela parte da população afeita a um estilo de existência vindo da família, da paisagem e do tempo. Acabamos de ver, pela distribuição territorial dos votos nas recentes eleições, que a “França profunda” não se encontra em Paris nem nas outras metrópoles. Ela se acha nas zonas rurais. A existência dessa opinião explica a referência acima ao “rural profundo”, afeiçoado ao modo de viver aprendido de seus maiores, ligado a suas tradições, sofrendo com seu desaparecimento, lamentando o abandono das terras e a fuga da mocidade para as grandes cidades. O “rural profundo” desconfia de novas reformas e de mudanças impostas pela administração burocrática parisiense, ou pela União Europeia. Todas elas oprimem seu doce estilo de vida e menosprezam sua mentalidade criativa. Sentem-se órfãos ao verem suas paróquias fechadas, as carências de vocações religiosas. Assim é a mentalidade conservadora do sertão longínquo. A reflexão chega com as eleições. E do sepulcro de um passado dito morto saem imagens evanescidas, mas amadas, e depositam um voto na urna. A esquerda chora. Não é o sol de uma nova era que ressurge com brilhar intenso, mas um luar suave clareando a desolação do atual campo político.

As mulheres do “povo” de Paris (esq.), durante a Revolução Francesa, contrastam com o universo austero e alegre, arcaico e estável dos camponeses do interior, como os representados no quadro de Louis le Nain (A carroça Louis Le Nain, 1641. Museu do Louvre, Paris).

Mentalidade do campo

Segundo o livro O fim da vida rural (1870-1914), de Eugen Weber (Pluriel, 2010), essa mentalidade do homem do campo foi encarniçadamente combatida desde os dias trágicos da Revolução Francesa (1789). Laicista e anticatólica, seu combate ao campo foi maior que à nobreza, sua perseguição ao lavrador maior que ao barão. A Revolução foi, sobretudo, parisiense. Suas ideias propulsoras (o Iluminismo e o Enciclopedismo) infectaram bem menos o homem do campo — que era a condição de dois terços da população francesa em 1789 — , para cujo habitat se impunha imperiosamente levar a ideologia revolucionária, se a Revolução quisesse impor-se ao país. Era preciso “colonizar o campo”, diziam os revolucionários em Paris. Pois, sem ele, o Iluminismo vagava nas cabeças da administração republicana como um esqueleto sem corpo. À página 16 de seu livro Utopia Igualitária, Adolpho Lindenberg exprime com exatidão a ideia que bem explica o programa então aplicado pelos revolucionários jacobinos para aniquilar a mentalidade conservadora do campo: “Após os ‘avanços’ da Revolução Francesa e a ‘limpeza’ que ela fizera com sua guilhotina, surgiria um mundo novo, emancipado, liberto das superioridades e sem amarras com o passado ‘feudal’”. A Revolução — prossegue Lindenberg à p. 24 — não podia tolerar que atitudes, hábitos e modos de ser se opusessem de uma ou

(Continua)