(continuação)
de outra forma ao amplo esforço de transformar o mundo no oposto da Civilização Cristã.
Hábitos e instituições ancestrais uniam a população francesa à Igreja e à autoridade local. O vigário vinculava a todos em torno da liturgia; o castelão presidia os ritos civis. Era um universo austero e alegre, arcaico e estável. Pinturas e relatos do mundo rural anterior à Revolução suscitam hoje invejosas saudades da existência de outrora. Cada região tinha seu padroeiro, suas festas, seus modos de vestir. Músicas, vinhos, pães e queijos diferiam de paróquia a paróquia, segundo tradições próprias. Tudo se movia com lentidão, pois tudo tinha sido elaborado consuetudinariamente, século após século. A velha França vinha do fundo das idades. A Revolução, inversamente, se apresentava como uma factícia novidade. Ela se autoproclamava “una e indivisível”. Frívolo slogan. O esforço jacobino de conquistar os agricultores levaria anos. E até hoje não o conseguiu inteiramente. Subsiste o “rural profundo”.
Duas nações dentro de um só país
Uma nação se constitui lentamente, a partir de uma vontade comum, e sua unidade espiritual é organicamente formada através dos tempos. Sua conversão ao Cristianismo é episódio relevante para todas as nações europeias. Os Santos que as marcaram com suas obras e seus milagres, os reis e heróis cujos sacrifícios conservaram a sua integridade territorial, múltiplas vicissitudes históricas são autênticos fatores de consolidação do espírito de um povo. A Revolução não tinha nada disso. Era apenas uma ideia que impunha a ferro e a fogo uma ideologia. Atesta-o o período do Terror na França (1793-1794), erigido pelo governo revolucionário em sistema legítimo de liderança. Victor Hugo escreve que a Guerra da Vendeia foi entre uma ideia (Iluminismo) e uma concepção de vida ancestral. No centro dessa concepção — poderia ter acrescentado — , estavam o altar e o trono.
O morticínio praticado pela Revolução (em nome da Fraternidade) aumentava ainda mais a distância que separava o homem do campo da Paris revolucionária. Privado de seus párocos e de seus castelões — expulsos ou guilhotinados — , o campo se intimidou e se isolou. Ele desconfiou dos emissários do governo, portadores de novos decretos e novas regulamentações, e os recebeu frequentemente a pedradas. Que regulamentações? Uma só lei (em nome da Igualdade), respondia o governo de Paris, imposta às mais diferentes províncias. Imensa era a diversidade de região para região. Como equiparar pescadores da Bretanha com os montanheses do Gevaudan? Aqueles lutando contra as intempéries para tirar do mar o seu sustento e estes ainda às voltas com matilhas de lobos negros? Como legiferar ao mesmo tempo para os habitantes das florestas de Vosges e os pastores das terras áridas do sul do Maciço Central?
A República era verdadeiramente um espírito sem corpo. Ela abolira as seculares autoridades locais baseadas na fidalguia, no amor ao solo de onde brotara a raça, da identificação com a paisagem, com a fauna e a flora. A artificialidade republicana se chocava com a autenticidade popular, cujo senso comum era rejeitado pelos que traziam “novas teorias”. Era difícil converter o homem do campo num racionalista. Formaram-se na França duas nações. Duas nações conflitantes, uma das quais deveria ser aniquilada (em nome da Liberdade republicana).
Enfrentamentos em muitas regiões da França como consequência das leis anticatólicas do governo. À esq. a polícia invade violentamente a Igreja Santo Hilário, em Poitiers.
Sendo anticatólica, a República se chocava com a influência da Igreja, que desde tempos imemoriais presidia os acontecimentos quotidianos: nascimento, casamento, funerais; curava nos hospitais, ensinava nas escolas e universidades, cuidava do bem-estar das famílias. A bênção dos campos, feita pela Igreja, era de grande solenidade. Em circunstâncias trágicas ou de glória, o povo fazia orações públicas rogando o afastamento de pestes, doenças, pragas, tempestades e raios. Rezava-se antes do trabalho e dos lazeres.
Ritos protetores
Em seu livro Tranquilizar e proteger (Fayard, 1989), Jean Delumeau, autor de várias obras sobre os hábitos quotidianos das populações europeias, dá a conhecer grande número de documentos, buscados em arquivos paroquiais, sobre orações e ritos protetores das populações quando ameaçadas pela peste, pela guerra, por inundações etc. A prática desses ritos era constante a partir do século XV. Ele revela a íntima relação do povo com o clero: “Os Santos teciam os dias do ano, davam o compasso do tempo, ditavam sábios conselhos aos trabalhos”. Eram bênçãos, orações, procissões, rosários, exorcismos,
(Continua)
Legenda: - Procissão em Penmarch (Finistère) Lucien Simon, 1901 (Musée d’Orsay, Paris). - Bênção do campo, na Hungria de 1929.