CARTA DO DIRETOR
Caro leitor,
“Em 800 edições, Catolicismo jamais fugiu à luta”. Desde sua fundação, em janeiro de 1951, são mais de 66 anos de um longo e glorioso combate em defesa dos ideais da civilização cristã, sob a incessante bênção e proteção de Nossa Senhora. É o que apresentamos na matéria com o título acima (p. 12).
Catolicismo sucedeu ao Legionário, órgão oficioso da Arquidiocese de São Paulo. Após transformá-lo de simples folha mensal em prestigioso semanário e colaborar ininterruptamente com ele durante 18 anos — 14 dos quais na condição de diretor — , por injunções da escalada progressista nos meios católicos e da guerra sem trégua que movia contra ela, Plinio Corrêa de Oliveira foi afastado de sua direção em 1947.
Sobre essa época, reproduzimos neste número uma entrevista publicada em nossa edição de janeiro de 1991, na qual o eminente líder católico realça de um lado a importância do movimento das Congregações Marianas, que se evidenciou na influência da Liga Eleitoral Católica na elaboração da Constituição federal de 1934, e de outro, a malfazeja e desagregadora ação do progressismo dito católico na história de nosso País.
Quatro anos depois de encerrada sua atuação no Legionário, Plinio Corrêa de Oliveira passou a empreendê-la através das páginas de Catolicismo. Além de ser o porta-voz do antigo grupo constituído em torno do Legionário, a nova publicação tinha em vista aglutinar as pessoas com ideias afins, esparsas nos diversos estados da federação, a fim de atuarem juntas em prol de uma restauração cristã.
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Recomendamos especial atenção ao texto da matéria de capa “Um luar no sertão” (p. 26). Seu autor, Nelson Ribeiro Fragelli, acentua muito bem a orientação conservadora refletida em eleições recentes, como também a manifestação da importância de zonas rurais em oposição a blocos populacionais urbanos.
São muito judiciosas as suas observações sobre a circunspeção do homem do campo, o mundo “rural profundo”. Fenômeno que se constata hoje em vários países, tornando-se gradualmente generalizado.
Desejamos a todos uma profícua leitura.
Em Jesus e Maria,
Paulo Corrêa de Brito Filho
PALAVRA DO SACERDOTE
Pergunta — No mundo de hoje, o católico é testemunha (e até, por vezes, vítima direta) de ofensas a Deus que nos indignam e nos levam a desejar que Deus castigue ainda nesta Terra os responsáveis por essas infâmias (até mesmo como meio de tentar salvá-los do inferno). Na própria Bíblia lemos passagens de profetas amaldiçoando cidades ou pessoas. A minha pergunta é a seguinte: se diante de uma blasfêmia ou ofensa a Deus particularmente clamorosa é lícito amaldiçoar os seus promotores, como faziam os profetas do Antigo Testamento (desejando, porém, que eles acabem se salvando). Ou isso é uma manifestação de cólera, e, portanto, um pecado?
Resposta — Não podemos senão nos alegrar com o zelo do nosso missivista e concordar com ele a respeito da situação gravíssima de pecado em que o mundo atual se encontra mergulhado, para deplorarmos juntos o pulular de ofensas feitas a Deus, muitíssimas das quais merecem a qualificação que figurava nos antigos catecismos, ou seja, de que tais pecados clamam ao Céu e pedem a Deus por vingança.
Mas fica a pergunta: é lícito pedir ou desejar essa vingança de Deus, de tal maneira que o mal recaia sobre os autores dessas blasfêmias e ofensas, por exemplo, quando elas são dirigidas a sua Santa Mãe?
A questão é delicada, mas a resposta simples, clara e concisa já foi dada por Santo Tomás de Aquino na Suma Teológica. Na parte em que trata da virtude da justiça, o Doutor Angélico analisa os distintos pecados que são cometidos por palavras contra a justiça, dentro e fora dos tribunais, e aborda no fim a maldição (II-II, q. 76).
Para responder se é permitido amaldiçoar um homem, posto que, segundo São Paulo, “abençoai os que vos perseguem, abençoai-os, e não os amaldiçoeis” (Rom. 12, 14), Santo Tomás começa por explicar que “amaldiçoar é o mesmo que dizer mal” (male dictio) e que isso pode realizar-se sob a forma de difamação (da qual ele já tratou anteriormente), ou então como desejo ou ação para que um mal recaia sobre outrem.
Nesse ponto ele introduz uma distinção entre — de um lado — desejar ou ordenar o mal a outrem porque isso lhe causa dano, desejando esse dano em si mesmo (que é a maldição propriamente dita), o que é sempre ilícito; e de outro lado
(continua)
Legenda: Imagem de Nossa Senhora é profanada na Villa Doria Pamphilj, em Roma, no dia 15 de julho de 2013.