O campo, com seus calmos estilos de vida, se prende ainda longamente à cultura tradicional e, de modo especial, à família, nas quais sobrevivem comportamentos outrora modelados pela influência cristã. (Foto: Arnaldo Alves ANPr).
(continuação)
tudo corre velozmente, menos a reflexão. Difícil é pensar em meio à azáfama das imensas concentrações populacionais. Aturdido, o pensamento citadino, para convencer-se de que ainda existe, recorre às ideias feitas pela mídia, que verte sem parar torrentes de informações, fatos, notícias, cujos comentários uniformizam as opiniões. O campo, pelo contrário, com seus calmos estilos de vida, se prende ainda longamente à cultura tradicional e, de modo especial, à família, nas quais sobrevivem comportamentos outrora modelados pela influência cristã. É em família que o pensamento se aperfeiçoa e adquire autenticidade.
Na vida de campo fala-se menos, mas pensa-se mais. É onde se encontra hoje a “maioria silenciosa” das nações ocidentais. Silenciosa e conservadora, que não gosta de mudanças. Para que mudar, rumando sempre para reformas incertas? — argumenta essa maioria, desconfiada da mídia, desconfiada dos riscos trazidos por toda transformação. Desconfiada, portanto, do berreiro da esquerda, pois esquerda é sinônimo de agitação.
Sendo silenciosa tal maioria, ela não gosta, portanto, de quem berra e agita. Em nosso Brasil isto explica, por exemplo, a rejeição da população do campo ao MST, cujos crimes subsistiram nos últimos 25 anos devido unicamente ao aporte governamental milionário, passivo de ser investigado pela Lava Jato.
No fim do ano passado, o então primeiro-ministro italiano Matteo Renzi (esq.) convocou um plebiscito. Ele almejava reformar a Constituição, para reforçar o seu colorido já bem socialista. Renzi sofreu fragorosa derrota e demitiu-se. Por que os italianos não aprovaram sua reforma? Porque ele não se preocupou com a “maioria silenciosa”.
Circunspecção do homem do campo
Uma consideração do Papa Pio XII, em alocução à Confederação dos Agricultores Italianos (29 de fevereiro de 1952).
“O homem do campo, mais refletido do que o homem da cidade, não se deixa nem levar por entusiasmos repentinos, nem se convencer por palavras sedutoras; calmamente, ele pondera onde está seu interesse, bem como o interesse alheio. Ele sabe que toda medalha tem dois lados, como lados também tudo o que é belo. Ele é lento ao tomar resoluções, pois só se convence ao apalpar por si mesmo a realidade, e inteiramente atento a tudo o que o cerca, prefere não estender demasiadamente seu campo visual nem se inteirar do que está além de seu meio. Ele é levado a cuidar bem de suas próprias necessidades e menos do bem comum e universal, vendo que, se as coisas vão mal para os outros, não tardarão também a ir mal também para ele” (Les enseignements pontificaux, Desclée & Cie, 1960).
No fim do ano passado, o então primeiro-ministro italiano Matteo Renzi convocou um plebiscito. Ele almejava reformar a Constituição, para reforçar o seu colorido já bem socialista. Renzi sofreu fragorosa derrota e demitiu-se. Por que os italianos não aprovaram sua reforma? Porque ele não se preocupou com a “maioria silenciosa”. As estatísticas pós-eleitorais mostram que o voto dessa maioria não proveio dos grandes centros metropolitanos (Beppe Servegnini, Cidade contra campo, “Corriere della Sera”, 25-11-16).
“Rural profundo”
O jornal “Le Monde”, órgão oficioso do Partido Socialista Francês — o que torna insuspeito o comentário de cunho conservador que segue abaixo — , publicou em 24-11-2016 um artigo de O. Bobineau no qual este registra que a região “rural profunda” constitui o último polo de resistência de uma França católica e conservadora. “Esses eleitores certamente abandonaram suas paróquias, seus pais e avós. Contudo, não os esqueceram, e permanecem ligados a suas raízes”. Paróquia, pais, avós, isto é, a família em torno da Religião, a fixar no solo das mentalidades a tradição cristã. O eleitor parisiense, nota Bobineau, reflete sobretudo a mídia.
No Brasil, de há muito que observamos o mesmo. Em sua obra Reforma Agrária-Questão de Consciência (p. 16, 1962), Plinio Corrêa de Oliveira afirmou que a propriedade agrícola nascida
(Continua)
Legenda: Panorama do Piemonte região situada no norte da Itália