Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 796 | página 34-35

Se um homem possuísse uma alma autenticamente católica, observando o sol ele poderia se pôr de joelhos e adorar a Deus como criador do sol. Teria uma ideia do sol numa plenitude que nunca havia tido antes.

(continuação da página anterior)

No passado, havia na Inglaterra minas de carvão muito profundas, que formavam diversos andares e nas quais o ar penetrava por tubulações. Dentro delas havia animais de carga que raramente viam a luz do sol. Mas quando esses animais eram periodicamente levados para a superfície do solo, davam manifestações de enorme contentamento. Eles pulavam, jogavam-se no chão, relinchavam. Manifestavam a satisfação por sentirem-se banhados pelo sol.

Imagine-se um homem que tivesse nascido numa mina subterrânea e nunca tivesse visto o sol. Mas teria visto fotografias do sol. Mostrassem-lhe um fogareiro dizendo: "O calor do sol é parecido com o calor desse fogareiro". Descrevessem-lhe como é o sol. É claro que tal homem formaria uma pequena ideia do sol. Mas quando ele, em certo dia, pudesse chegar à superfície da terra e visse o sol, poderia dizer: "Essas coisas que me apresentaram são mais enganadoras do que verdadeiras, porque o sol é tão superior que fiquei apenas com uma pequena ideia dele. O sol excede tudo completamente".

Se esse homem imaginário possuísse uma alma autenticamente católica, observando o sol ele poderia se pôr de joelhos e adorar a Deus como criador do sol. Teria uma ideia do sol numa plenitude que nunca havia tido antes.

Assim, essas considerações sobre Nosso Senhor Jesus Cristo nos ajudam a formar certa ideia de quem Ele é. São como fotografias do sol para uma pessoa que vive nas profundezas de minas de carvão. Tais considerações servem como que de espelho que refletem um esboço imperfeito de quem é verdadeiramente Nosso Senhor.

Outra imagem: um santo castíssimo, de uma pureza deslumbrante, não seria nada em comparação com a pureza de Jesus Cristo. Ou um santo veracíssimo, com uma fisionomia de uma limpidez extraordinária, que espelhasse uma sinceridade e uma honestidade como nunca se viu na Terra, não seria nada em face da fisionomia d’Aquele que disse de Si mesmo: "Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida". Ele é a própria honestidade, a própria retidão, a própria sinceridade.

Um santo que tivesse sido muito enérgico não daria ideia perfeita do que foi a energia de Nosso Senhor. Mas, ao mesmo tempo, um santo suavíssimo não pode dar ideia do que tenha sido a suavidade d’Ele. Tudo são ideias incompletas, são esboços de quem Ele foi verdadeiramente.

Devemos meditar a respeito do Divino Redentor considerando cada um desses aspectos, construindo continuamente a imagem d’Ele, sabendo que nunca será inteiramente atingida, mas que nesse enlevo devemos caminhar durante a vida.

No sofrimento, Jesus Cristo se manifestou mais plenamente

Há um traço de Nosso Senhor Jesus Cristo em que apareceu toda a grandeza d’Ele, como um fruto que se parte e exala o seu melhor aroma, dá seu melhor sabor e mostra melhor sua beleza: Ele enquanto sofredor. A dor é a circunstância da vida em que a miséria humana mais aparece. Esmagado pela dor, o homem geme, foge, chora, protesta, aniquila-se, revolta-se. Habitualmente, a dor causa no homem verdadeiro pavor.

Não há verdadeira formosura de alma num homem que nunca sofreu.
A plenitude da vida do homem reside no sacrifício.

Por outro lado, o homem que enfrenta a dor nas suas várias modalidades adquire uma extraordinária formosura de alma. Não há verdadeira formosura de alma num homem que nunca sofreu. Às vezes vejo certas fisionomias "em branco" em matéria de sofrimento e fico com pena, porque os dias de vida do homem se contam pelos dias que ele soube sofrer santamente. A plenitude da vida do homem reside no sacrifício.

Mas há várias modalidades de sofrimento. Elas tocam cordas diversas na alma humana e despertam várias formas de beleza. Por exemplo, o sofrimento do guerreiro; o sofrimento do homem que assiste um doente; o sofrimento do próprio doente; o sofrimento do diplomata dedicado; o sofrimento do pai ou da mãe que vê seu filho partir para o campo de batalha; o sofrimento do amigo injustamente traído por outro amigo. Há tantas formas

(continua na próxima página)

LEGENDAS:
- Capela da Irmandade do Cristo de Burgos, na Igreja de São Pedro – Sevilha (Espanha).