Em seguida, Pilatos apresentou Jesus Cristo ao público dizendo “Eis o homem!”
Olhar profundamente meditativo
Nessa imagem, a carne aparece toda entumecida, toda lanhada pela flagelação. Olhem as mãos! Analisem o olhar! O que considero mais emocionante nela é o olhar, muito pensativo, profundamente meditativo. Tenho visto incontáveis crucifixos em que Nosso Senhor parece abismado, aliás legitimamente e santamente, na consideração de sua própria dor, em que o artista procura atrair a atenção da pessoa que vê o crucifixo para as dores de Nosso Senhor, visando provocar compaixão. E o próprio olhar d’Ele parece perguntar: “Pelo menos nesta dor tu não tens pena de mim?”
Porém, nesta imagem, interpreto o olhar de outra maneira. É bem verdade que a dor está presente. É o olhar de uma pessoa que sofre profundamente. Mas, acima da dor, há uma reflexão profunda e consternada, de quem pensa com profundidade a respeito do que Lhe está acontecendo. Pensa a respeito do significado transcendente, metafísico e sobrenatural de todas as dores pelas quais Ele está sofrendo.
É propriamente uma meditação sobre sua própria Paixão como Ele desejaria que fizéssemos. Meditação que eu interpreto, olhando a face sagrada, partindo de um ponto altíssimo, do mais alto ponto de consideração em que uma mente humana possa colocar-se. Mas é ao mesmo tempo uma meditação que vai até o mais concreto, ao mais palpável, ao mais miúdo, ao mais distante da transcendência, e une tudo numa visão comum. Une tudo numa só consideração global não apenas do que contra Ele estão fazendo, mas também do que fazem por Ele. Não apenas os homens vivos de sua época, mas de todos os homens que ao longo dos tempos considerariam esse passo da Paixão e que seriam frios, indiferentes, cruéis; mas também daqueles que O adorariam, transportados de amor, de admiração, de veneração, considerando a situação em que Ele se encontra.
Em meio à dor, entregue às mais altas cogitações
Essa imagem me relembra as palavras do profeta Simeão sobre Jesus: “Eis que este menino está destinado a ser uma causa de queda e de soerguimento para muitos homens em Israel, e a ser um sinal que provocará contradições, a fim de serem revelados os pensamentos de muitos corações” (São Lucas, 2, 34-35). Quer dizer, dividindo a História, cindindo-a de alto a baixo em dois: os que eram d’Ele e os que eram contra Ele; salvando alguns e perdendo os outros.
Parece-me que tais considerações, e outras ainda altíssimas, estão expressas nesse olhar, que, como se pode ver, pousa ao longe, num ponto indefinido.
Mas de outro lado, a escultura revela uma altaneria na posição d’Ele. Notem que, por mais que esteja alquebrado, Ele não está arqueado; pelo contrário, o tronco sagrado ereto numa posição que se poderia chamar nobre. A própria cabeça não está caída de um modo desairoso; sem estar inteiramente erguida, de modo arrogante, está posta com uma naturalidade profunda e nobre sobre o pescoço, e ereta como um homem que pensa muito, entregue às suas mais altas cogitações.
Em Nosso Senhor, nobreza, beleza e força moral
Notem, em outro aspecto, a posição lindíssima dos braços. Dir-se-ia um personagem que está num ato de muito protocolo e etiqueta. Nas cortes, muitas vezes o modo correto de postar os braços diante de um rei ou de uma rainha é este. Assim está Ele. E assim podem vê-Lo com o corpo flagelado. Há partes da carne sagrada que não foram batidas e outras em que a carne foi arrancada.
Historicamente, Jesus Cristo estava cercado por gente que ria d’Ele. Mas Ele não olha para as pessoas. Ele as transcende, não toma conhecimento, está infinitamente acima de tudo isso, entregue a seus pensamentos, à sua oração.
Poder-se-ia colocar, entre os muitos títulos que essa imagem mereceria, a frase: “Jesus autem orabat” (Jesus porém orava); como também a frase: “Jesus autem tacebat” (Jesus porém calava-se).
Observem o manto da irrisão que os verdugos colocaram sobre os ombros de Nosso Senhor por ocasião da coroação de espinhos. Apesar de tudo, o manto cai de modo composto, indicando nobreza, beleza moral e força moral que não O abandonaram nem mesmo nas situações mais terríveis.
Creio que representa a última expressão do comovedor dentro desta linha: Cristo enquanto pensando, enquanto refletindo profundamente, enquanto orando durante sua Paixão.
Angústia doce, suave, sem agitação e confiante
Nessa fotografia da imagem, parece-me discernir no olhar três aspectos: primeiro, muita dor física, que se exprime seguida de muita angústia diante da dor que virá. É uma figura que está no meio de todo tormento e que sente o que ainda terá que sofrer. Portanto, no auge do horror, em que Ele ainda não padeceu tudo. A morte que O libertará ainda está longe. Já sofreu tanto que perdeu toda a força para resistir, mas ainda tem que aguentar enormemente.
Há uma ansiedade e uma angústia; mas uma angústia doce, suave, sem agitação e confiante: Meu Pai atenderá minha prece, Eu chegarei até o fim. Isto tem um sentido.
Notem também a tristeza moral profunda. Como que divinamente decepcionado com aqueles que O abandonaram. Parece que, nessa hora, Ele se lembra não dos miseráveis que O chicotearam, mas dos Apóstolos que O deixaram! Que Ele está, um por um, revendo cada Apóstolo. E está pensando em São Pedro sobre quem Ele edificou a Igreja. Pensando em São João, o Apóstolo virgem, que horas antes ainda deitara a cabeça sobre Seu peito para fazer-Lhe uma pergunta particular. Pensando em São Bartolomeu, que Ele mesmo qualificara como um verdadeiro israelita no qual não havia fraude, e que, entretanto, igualmente O abandonou. Pensando em todos os outros. Com horror, pensando no filho da perdição que O vendeu. Considerando todos aqueles que O trairiam ao longo dos séculos.
Mas também está pensando nos sacerdotes, nos bispos, nos cardeais e no Papa de hoje.
Ele está refletindo em algo que O angustia enormemente, que é magnífico: no sofrimento de Nossa Senhora.
“MAS QUE MAL FEZ ELE?”
“Pilatos perguntou-Lhe outra vez: Nada respondes? Vê de quantos delitos te acusam! Mas Jesus nada mais respondeu, de modo que Pilatos ficou admirado. Ora, costumava ele soltar-lhes em cada festa qualquer dos presos que pedissem. Havia na prisão um, chamado Barrabás, que fora preso com seus cúmplices, o qual na sedição perpetrara um homicídio. O povo que tinha subido começou a pedir-lhe aquilo que sempre lhes costumava conceder. Pilatos respondeu-lhes: Quereis que vos solte o rei dos judeus? (Porque sabia que os sumos sacerdotes o haviam entregue por inveja.) Mas os pontífices instigaram o povo para que pedissem de preferência que lhes soltasse Barrabás.
Pilatos falou-lhes outra vez: E que quereis que eu faça daquele a quem chamais o rei dos judeus?
Eles tornaram a gritar: Crucifica-o!
Pilatos replicou: Mas que mal fez ele? Eles clamavam mais ainda: Crucifica-o!
Querendo Pilatos satisfazer o povo, soltou-lhes Barrabás e entregou Jesus, depois de açoitado, para que fosse crucificado.
Os soldados conduziram-no ao interior do pátio, isto é, ao pretório, onde convocaram toda a coorte. Vestiram Jesus de púrpura, teceram uma coroa de espinhos e a colocaram na sua cabeça. E começaram a saudá-lo: Salve, rei dos judeus! Davam-lhe na cabeça com uma vara, cuspiam nele e punham-se de joelhos como para homenageá-lo. Depois de terem escarnecido d’Ele, tiraram-lhe a púrpura, deram-Lhe de novo as vestes e conduziram-no fora para o crucificar”. (São Marcos, 15, 9-20)