Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 783 | página 32-33
| MATÉRIA DE CAPA | (continuação)

Parece-me ver os olhos do pensador meditando, examinando do ponto de vista da filosofia e da teologia aquele acontecimento central da História: sua Paixão e Morte. Em meio de tudo isso, Ele está rezando. A meu ver, é patente que há uma magnífica oração.

Meditação que faz sangrar a alma, mas que eleva e santifica

Fotografada a escultura sob outro ângulo, parece-me que a impressão da dor física é um tanto menor, enquanto a impressão da angústia e da reflexão é ainda maior.

Noutro ângulo, aparece um conjunto de várias expressões, de diversos close-ups de Seu rosto Sagrado. Tudo se junta numa fisionomia una, na qual sobressai a vergastada profunda na testa.

Quando uma pessoa pensa, costuma frequentemente formar um vinco desse tipo na testa. É a meditação do verdadeiro Homem-Deus, que é acompanhada de dor e pensamento. Quantas vezes conjuga tristeza e amargura. Uma meditação que faz sangrar a alma, que envelhece, encanece, consome, mas também eleva e santifica.

Nosso Divino Redentor, o “Rei da dor”

Nessa fotografia aparece por inteiro o corpo divino. Eu não tenho nada a dizer! Notem a tumefação do braço esquerdo, que nessa visão se percebe melhor. Esses braços ainda vão carregar a Cruz e as mãos ainda vão ser cravadas na Cruz, até Sua Morte. Isso constitui a imensidade de tormentos que O aguardam depois de ter sofrido tanto.

Em detalhe, vemos amarradas as mãos sagradas do Onipotente. Percebem-se as pontas dos dedos. É belo contemplar que as mãos são apresentadas inteiramente descontraídas, não há contração nervosa. Mas aparecem como as mãos de um rei, prontas para serem osculadas. É o Rei da dor.

Por vezes tais impressões são pessoais. E se bem que as fotografias da escultura estão muito bem tiradas, sou da tese de que os projetores [de slides] raramente dão toda a realidade do que projetam, e que a imagem é muito mais real.

Eu pretendo depois trazer o quadro e colocá-lo em vários lugares, para que todos os senhores possam vê-lo bem. Após, destinarei o lugar onde com toda propriedade possa ficar de modo definitivo.

Não queria deixar de assinalar esta ocasião de graças que todos recebemos. É evidente que este quadro, para verdadeiros devotos e escravos de Nossa Senhora, segundo a consagração ensinada por São Luís Maria Grignion de Montfort, nos induz a entender que tendo Nosso Senhor sofrido tudo isso, foi pelos rogos de Maria que esse sangue é aplicável a nós. Se nossa presença não Lhe causa horror, mas, pelo contrário, é aceita com misericórdia, deve-se aos rogos de Maria. Ela é o caminho necessário, por vontade de Deus, para nos aproximar de seu Divino Filho. E sermos, não digo dignos, mas ao menos de algum modo proporcionados para olharmos essa figura e rogar por nós e pela Igreja.

Julgo que o escultor produziu uma obra de arte extraordinária no seguinte sentido: muitas vezes vemos num quadro ou escultura a expressão da alma do artista. É o modo pelo qual ele exprimiu o que certo tema lhe produziu na alma. Mas muito mais belo é quando o artista de tal maneira se deixa identificar com o tema, que apenas este aparece. No caso, apenas Nosso Senhor Jesus Cristo. Ou seja, o artista de tal maneira viveu, por assim dizer, a dor de Nosso Redentor, que produziu a representação de Jesus, e depois se apaga. Não se percebe qual era o seu estado de alma a não ser mediante a extrema inteligência, propriedade, finura, e, sobretudo, a extrema piedade com que conseguiu apresentar a obra. A meu ver, este é o auge do mérito quanto a uma obra de arte.

O católico deve aceitar o sofrimento por amor à Igreja

Uma consideração final: hoje a Igreja está atada à coluna da flagelação. Fazendo cessar a causa, cessa o efeito. Se quisermos eliminar em nossa alma um estado ruim, devemos perguntar qual a causa desse estado para fazê-lo cessar.

Surge então a pergunta: Qual a razão de nossa indiferença? — Ela tem sua raiz na indiferença maldita do homem moderno por tudo que não seja ele próprio. Vemos povos afundarem em desditas, lemos nos jornais atrocidades praticadas pelo sistema comunista, mas as pessoas não se importam com isso.

Por quê? — Porque só se incomodam consigo mesmas, apenas se preocupam com suas coisinhas. Dos verdadeiros interesses sérios elas não cuidam. Interessam-se apenas pelas bagatelinhas de todos os dias.

Quantas e quantas vezes autênticos católicos são escarnecidos, por vezes até agredidos! Quem toma posição em sua defesa?

Todo sofrimento de qualquer católico, se aceito com espírito de fé, pode ser comparado ao sofrimento infinitamente precioso de Nosso Senhor Jesus Cristo. Há uma analogia. Passamos por muitos sofrimentos, mas em comparação com os d’Ele, são insignificantes.

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