Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 783 | página 28-29
| MATÉRIA DE CAPA | (continuação)

submeteria voluntariamente a esse tormento pavoroso. Isso produziu n’Ela o mais explicável terror, tendo desmaiado nos braços das santas mulheres que A acompanhavam.

Nosso Senhor sofreu uma distensão porque seu corpo pendia atado à coluna, onde foi flagelado desde a cabeça até os pés. Ele gemeu de dores, mas com um timbre de voz dulcíssimo, que se elevou em meio da brutalidade da cena, fazendo orações enquanto era flagelado de modo pavoroso.

A turba multa estava longe, do lado de fora do edifício, acompanhando a flagelação, e de vez em quando se ouvia: “Morra! Morra! Crucifica-O!”. Escutavam-se ora as vozes bestiais da multidão, ora a voz isolada de Nosso Senhor, na qual se marcavam naturalmente o temor e o tremor, mas junto a decisão de continuar em frente. Era a oração que Ele rezava.

Também segundo relatos de videntes, enquanto o Cordeiro de Deus era açoitado, ovelhas que estavam sendo preparadas para a morte baliam. Então havia duas espécies de vozes como que em coro. Um coro que uivava todos os gritos do ódio, e outro coro, do Cordeiro de Deus e das ovelhas preparadas para o sacrifício que baliam. Nosso Senhor rezava e às vezes ouvia-se a trombeta dos soldados romanos ordenando silêncio à multidão para que Pilatos pudesse falar.

A maldição pairava sobre os judeus deicidas. Até alguns dos soldados romanos tiveram pena de Nosso Senhor; mas aquele povo não teve. De outro lado, pode-se notar a abominação em que pode cair um povo. Os soldados romanos andavam de um lado para outro proferindo insultos. Os judeus deicidas odiavam Aquele que os havia coberto de benefícios, dos maiores atos de benefício e de bondade. O que é próprio a todos os transviados, a todos os decadentes, a todos os tarados: eles confiam em quem não devem, desconfiam daqueles em quem devem confiar; eles são susceptíveis por ofensas que não recebem e aceitam bem ofensas que não mereciam. Tudo isso devido ao completo desvio de suas mentes.

Dureza de alma dos homens preocupados só com seus interesses

Narra-se que os verdugos ficavam cansados de tanto açoitar e tinham que ser substituídos. E Nosso Senhor aguentou tudo das turmas sucessivas desses verdugos despencando o ódio contra Ele, açoitado com varas e látegos com pontas de ferro para arrancar a carne.

Pessoas passavam perto do edifício, montadas em seus camelos, inteiravam-se do que ocorria e iam embora. Não desciam para protestar, ao menos para ver Nosso Senhor e ter pena d’Ele. Nem queriam ouvir os gemidos d’Aquele que os estava resgatando. É bem a atitude do indiferente, do homem dominado apenas por sua vidinha e por seus interesses.

Não se pode esquecer que Nossa Senhora estava num ângulo da praça assistindo a tudo isto: o ódio contra seu Filho, o ódio dos inimigos da Igreja Católica, o ódio do homem possuído pelo demônio. Pode-se então imaginar o porquê do desmaio da Santíssima Mãe.

Tormento moral soma-se ao tormento físico

Esse tormento pavoroso produziu em Nossa Senhora o mais explicável terror, tendo Ela desmaiado nos braços das santas mulheres que A acompanhavam. – Crucifixão (detalhe) – Duccio di Buoninsegna, 1308-1311. Museu dell’Opera del Duomo, Sena.(Itália).

Enquanto Nosso Senhor era flagelado, já se preparava a coroa de espinhos. Uma narração conta que apareceu um homem do povo e cortou as cordas que amarravam Jesus Cristo à coluna; mas depois desapareceu no meio da multidão. Ele não procurou conclamar as pessoas para salvar Nosso Senhor; não optou por sacrificar sua vida ao lado de Jesus Cristo; teve um lampejo de coragem e fugiu. Viu Nosso Senhor cair no solo, mas não foi capaz de erguê-Lo. Nessas épocas históricas até os corajosos são poltrões, os mais admiráveis podem também apresentar aspectos de atitudes desprezíveis.

O corpo de Jesus permaneceu caído ao solo. Passaram umas mulheres e os soldados proferiram palavras imorais dirigidas a elas. Que houvesse de ocorrer isto: a passagem de mulheres despudoradas, revelando sua frieza diante d’Ele. Logo Ele dirigiu seu olhar para elas — evidentemente uma graça que lhes era concedida. Qual a atitude delas? Afastaram-se.

Tudo isso é um contínuo auge do pavoroso. Quando se imagina estar tudo esgotado surgiu algo pior ainda, um tormento moral acrescentou-se ao tormento físico. Uma coisa inenarrável.

Entretanto, Nosso Senhor rezava por todos os homens de todos os tempos. É algo muito salutar guardarmos a recordação disso. Assim, quando pedirmos alguma coisa a nosso Divino Salvador, suplicarmos por meio de Nossa Senhora, que pelas orações feitas por Ele junto à coluna, nos alcance essa ou aquela graça. Obtenha-nos a emenda de um pecado, a comoção de nossa alma em tal ponto de dureza, enfim qualquer outra graça. É uma esplêndida oração, que podemos fazer e relacionar com a imagem de Cristo flagelado.

“Ecce Homo”

Uma cena que ocorreu mostra a dureza dos malfeitores. Nosso Senhor caiu no solo, dilacerado de dor, sem mais poder mover-se; deram-Lhe pontapés e ordenaram que Ele se levantasse. Não tendo forças para levantar-se por si só, foi colocado de pé e jogaram-Lhe suas roupas. Nosso Senhor limpou o próprio rosto do sangue, sem ter quem Lhe ajudasse. Que cena comovente!

Depois de tudo isso, ainda sobreveio a coroação de espinhos, cujas pontas penetraram na cabeça, ferindo o Redentor, tendo o sangue escorrido até a boca.

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