Os contos de Natal
C. A.
É uma tradição de longo tempo celebrar a bela data de 25 de dezembro narrando contos de Natal. E se compreende. As graças, os imponderáveis, o clima espiritual que circunda a comemoração do nascimento do Menino-Deus nos remetem para muito além daquilo que a razão humana pode atingir por si só. É o campo da fé que se abre diante de nós. Com a peculiaridade marcante de que, por ocasião do Natal, o Céu como que oscula a Terra, torna-se mais fácil crer, mais suave, mais ameno. A inocência revive sem esforço mesmo nas pessoas mais afastadas da virtude, como uma promessa de conversão.
Então, amparada e guiada pelas graças natalinas, a imaginação voa à procura da gruta de Belém, compõe situações ideais, pinta aquela realidade superior que a alma vislumbra e sente, mas que o mundo circundante não contém.
Tudo isso transluz nos contos de Natal, frutos da imaginação como quaisquer contos, de uma fantasia, porém, embebida nas águas do sobrenatural, à procura de exprimir algo de muito... muito alto, que o Menino Jesus, Nossa Senhora e São José lhe fazem tocar e até saborear.
Foi assim que, do solo sagrado da civilização cristã, brotaram em profusão os contos de Natal, a encantar crianças e adultos, revelando-nos as respeitosas conversas dos Reis Magos e dos pastores com São José, as enternecidas confidências de alma trocadas entre Nossa Senhora e o Menino, dando-nos a conhecer visitantes insuspeitados que chegavam maravilhados à Gruta, vindos de todos os cantos do mundo e de todas as épocas da História, sem que os Evangelistas lhes tenham registrado a presença, transportados que foram àquele lugar sagrado pela carruagem alada da imaginação dos fiéis.
Ademais, os prodígios gerados pela graça de Natal ao longo dos séculos, em meio às guerras, durante a paz, nos palácios dos reis ou nas choupanas dos pobres, nas estradas e nos caminhos como nas montanhas e nos perigos dos mares, tudo isso os contos nos disseram, sempre com aquela unção sagrada, aquela sublimidade suave que só o Natal proporciona. O historiador G. Lenotre (1857-1935), por exemplo, compôs vários contos natalinos, cujo enredo se desenvolve nos dias da Revolução Francesa, descrevendo situações e personagens daquela época. Entre eles “Mathiote”, o limpa-chaminés que numa noite de Natal ajudou o Conde de Plessis-Morambert a fugir da prisão (ver Catolicismo, dezembro/88).
Porém, oh dor! A civilização cristã de outrora veio decaindo, e as graças se distanciaram. Já no século XIX os contos de Natal começaram a transformar-se. A Sagrada Família, as bênçãos próprias da data foram desaparecendo das narrações, e para o centro do palco foi empurrado o menino de rua, ou então a velha desamparada, tiritando de frio, pálidos de fome, olhando através do vidro fechado de uma janela o lauto banquete do burguês e o crepitar do fogo na lareira.
É uma queda tremenda! O sobrenatural é suplantado pelo material. É a luta de classes que se anuncia, não em termos doutrinários e polêmicos, mas produzindo já um sentimentalismo forçado, com algo de mórbido, em face da cena artificialmente criada pelo escritor. Insensivelmente, nos contos de Natal, a suavidade divina do Menino Jesus foi sendo trocada pelo rancor odiento de Marx, disfarçado ainda em compaixão pelo pobre.
Esse novo tipo de narração constituiu a ponte para se chegar aos dias de hoje, em que os contos de Natal praticamente desapareceram. Os poucos produzidos são, de modo geral, sem interesse ou, pior, fazem parte das aberrações da literatura moderna: por vezes, diretamente blasfemos.
E não apenas os contos. Por uma disposição da Providência divina, adorável como o são todas as disposições d’Ela, mas terrível, parece que as mesmas graças de Natal abandonaram a Terra. Recusadas, enxotadas, elas se refugiam talvez em algum grupo de fiéis, mas não se espargem mais como outrora e deixam merecidamente os homens à mercê de seus desvarios.
Isto é definitivo? Não o cremos, pois senão teríamos chegado sem remissão aos dias do fim do mundo. Nossa.Senhora, porém, prometeu em Fátima que uma paz, uma sublime paz irradiada de seu Coração Imaculado, ainda inundará a Terra.
Triunfai logo, ó Imaculado Coração! Vinde em breve, muito breve, e aí nós proclamaremos vossa vitória de todos os modos, mesmo através de novos e maravilhosos contos de Natal.
Natal de 1922
Neste Natal de 1992, pairam sobre nossa querida Nação densas trevas: problemas de difícil solução, previsões de perigosas desavenças, à maneira de veementes tufões.
Nessa perspectiva, elevemos nossos olhares à Santa Mãe de Deus – sem cuja intercessão nenhuma prece sobe ao seu Divino Filho, e nenhuma graça baixa até os homens – para implorar-lhe que se afastem de nós tantos fatores de preocupação e de tensão, por efeito da única solução autenticamente válida: a paz de Cristo no Reino de Maria.
Sim, o Brasil terá um esplêndido porvir se ele seguir o caminho de Nossa Senhora.
E tal é o porvir, carregado de bênçãos, de virtude e de grandeza cristã, que imploramos seja concedido pela Virgem Santíssima à Terra de Santa Cruz.
Por fim, formulamos votos muito cordiais de que, em 1993, as graças d'Aquela que nos trouxe o Redentor se difundam com largueza maternal sobre todos e cada um dos elementos constitutivos da extensa família de almas dos assinantes de nossa revista.
Que a Sagrada Família defenda vitoriosamente a Santa Igreja e a civilização cristã, hoje mais do que nunca expostas às ciladas e às violentas investidas de implacáveis adversários.