Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 469 | página 24-25
| APELO DOS EXILADOS LITUANOS A JOÃO PAULO II |

Filial súplica de lituanos exilados ao Pai Comum da Cristandade por ocasião de seu encontro com o presidente soviético

Lituanos protestam contra o pacto Ribbentrop-Molotov - que selou a amizade entre comunistas e nazistas - no cinquentenário de sua assinatura. Como decorrência desse infame pacto, a Lituânia foi anexada pela Rússia.


CATOLICISMO publica em primeira mão, no Brasil, a íntegra de um documento de excecional importância.
Por ocasião da recente visita de Gorbachev a João Paulo II, um grupo de lituanos exilados nos Estados Unidos fez estampar em um dos principais jornais da Itália - "Corriere della Sera", Milão, edição de 29-11-89 - um dramático apelo ao Chefe da Cristandade, em favor da libertação da Lituânia. O mesmo documento pede também liberdade para os lituanos encarcerados pelos comunistas.
Os signatários manifestam sua certeza de que um pedido firme de João Paulo II nessa direção não poderia ser recusado por Gorbachev, sob pena de este comprometer a credibilidade de suas boas intenções.
Observadores internacionais creem que uma resposta positiva a tal solicitação por parte de Gorbachev, poderia constituir verdadeiro triunfo para a Ostpolitik vaticana, da qual até agora não se conhecem resultados ponderáveis para os católicos de além Cortina de Ferro.
O manifesto alcançou significativa repercussão em órgãos da imprensa italiana, alguns dos quais utilizaram imagens bem vivas para exprimir o efeito que o documento obteve em determinados círculos.

O diário "Il Centro", dos Abruzos, por exemplo, sob o título "Os exilados lituanos escrevem ao papa: não nos esqueçais", comenta que "o apelo caiu sobre o Vaticano como um raio em céu sereno, criando embaraços e um pouco de descontentamento".

Segundo o jornal, um ponto delicado a ser tratado entre João Paulo II e Gorbachev era a questão lituana. E conclui: "Neste negócio de porcelana, a carta dos exilados lituanos caiu pesada como um paquiderme".

Realizado o mencionado encontro, no dia 1° de dezembro último, até o momento não se sabe se o dramático assunto foi objeto de interlocução entre o Pai Comum da Cristandade e o chefe comunista.

* * *

Para o leitor superficial, a relevância dessa publicação fica velada pelo fato de que ela diz respeito à situação de um país cujo espaço territorial é pequeno e com diminuta população: a Lituânia. Se análogo apelo partisse, por exemplo, de ingleses ou alemães, certamente chamaria muito mais a atenção da opinião pública mundial. Entretanto, apesar desses dois fatores que parecem minimizar a importância do documento, a realidade é outra.

É bem verdade que a Lituânia é uma nação de reduzida extensão territorial, com pequena população, que nunca manteve relações mais estreitas com o mundo sul-americano. E cujo âmbito de irradiação, após o malsinado pacto Ribbentrop-Molotov, ficou circunscrito à zona de influência báltica e eslava, que, por certo, é bastante remota em relação à área de influência da América do Sul.

Mas, para se avaliar devidamente a importância da Lituânia na conjuntura atual, é elucidativo estabelecer aqui uma analogia. Poderíamos comparar a influência da Lituânia - no plano individual - à de um comum homem da rua. A repercussão que tal homem alcança é pequena. Suponhamos, porém, que ele, embora inocente, seja recolhido a um presídio. Dentro do cárcere, qualquer desordem repercute intensamente em todo o recinto da prisão.

Tal analogia se aplica à influência que desfrutam as nações subjugadas pelo comunismo no contexto do mundo carcerário do qual fazem parte. Qualquer atuação de setores pertencentes a essas nações repercute ponderavelmente no conjunto das nações-presídio. Eis a razão pela qual a imprensa ocidental noticia com tanto destaque qualquer agitação promovida por populações situadas, ora por vezes no Cáucaso, ora na região báltica.

Por tais razões, o manifesto dos exilados lituanos repercutirá necessariamente no mundo-carcerário soviético, o qual, mediante a glasnost, tornou-se bem mais transparente do que era anteriormente. E alcançando grande repercussão nas vastidões carcerárias da chamada URSS, acabará tendo influência na conduta desta, no plano internacional.


Íntegra do documento

A

S.S. João Paulo II

Cidade do Vaticano Santo Padre

Momento histórico

Vossos filhos lituanos residentes nos Estados Unidos da América não podiam deixar de dirigir-se publicamente e filialmente a Vós, devido a acontecimentos cujas implicações são claramente históricas. Aproveitam para isso a liberdade que podem exercer nesta terra que os acolheu generosamente, liberdade de que não gozam os nossos irmãos que vivem na amada e perseguida mãe-pátria.

Histórico é o momento, pois pela primeira vez o chefe do Partido Comunista soviético, o Presidente Mikhail Gorbachev em pessoa, se encontrará em Roma com Vossa Santidade, o que abre um precedente até aqui inimaginável.

Histórico, ademais, porque este fato coincide com situações complexas que se vivem atrás da Cortina de Ferro, sobre cuja marcha, evolução e desenlace pesam não poucas interrogações.

Histórico, por fim, pois o anteriormente referido coincide com o cinquentenário do pacto Ribbentrop-Molotov, ato de infâmia que permitiu a Stalin, em 1940, anexar nossa nação - junto com as irmãs nações bálticas - ao império soviético, depois de um banho de sangue e sofrimento. Com o que se deu início a uma Via Crucis que dura até hoje.

Santidade, confluem também neste panorama dois elementos essenciais que, apesar da adversidade, permanecem vivos no coração dos lituanos: em primeiro lugar, nossa devoção à Santa Igreja Católica, Apostólica e Romana; em segundo o nosso amor à Pátria, e aos valores cristãos que lhe foram transmitidos na época de Mindaugas, e que se radicaram nela profundamente desde o batismo da Lituânia, há 600 anos.

É a isto que desejamos acrescentar, com vossa vênia, outras considerações.

Declaração de Gorbachev causa apreensão

A anexação da Lituânia constituiu uma medida de tal maneira atentatória ao direito internacional e ao direito das gentes e das nações, que desde então os Estados Unidos, junto com outras nações ocidentais (inclusive o Parlamento Europeu) se negaram a reconhecer sua legitimidade, apesar das instâncias soviéticas. Num mundo em que as potências não comunistas com tanta facilidade sacrificaram nações e almas aos perseguidores comunistas em aras a uma distensão precária, construída sobre o engano, o reconhecimento ocidental da Lituânia livre é particularmente digno de nota.

No que diz respeito à Santa Sé, não podemos deixar de manifestar nossa gratidão, do mais fundo do coração, pela condenação vaticana à ilegítima anexação da Lituânia por parte da União Soviética. Os católicos lituanos sentem-se particularmente consolados pela convicção de que será sempre assim.

Pelo contrário, o Cremlin sempre manteve uma postura intransigentemente fechada a toda negociação que conduza à restituição da independência violada. Mas o que era explicável em tempos de Stalin, Kruchev ou Brezhnev, torna-se para muitos de nossos compatriotas difícil de compreender na era Gorbachev. As aspirações nacionais, indiretamente encorajadas pelas medidas, declarações e até por atitudes do presidente soviético, transformaram-se em graves apreensões, em setembro último, quando ele, ao inaugurar a reunião

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