Reformas no Leste europeu
Esperanças ou apreensões?
Porta de Brandenburgo, Berlim: fim do pesadelo?
Com o muro arrasado, os tanques não mais voltarão?
Questão de estilo
Quem é Gorbachev? um condestável do bem popular, um ambicioso, um comunista doutrinário?
Os acontecimentos que se têm desenrolado ultimamente na Rússia e nos países do Leste europeu, mais especialmente na Polônia, Hungria, Alemanha Oriental; e, no momento em que escrevemos, na Bulgária e na Tchecoslováquia, caracterizam-se pelo inopinado, pela pressa rumo a um estado de coisas pouco definível.
Numa análise superficial, dir-se-ia que o comunismo clássico, dogmático, impossibilitado de propiciar um bem-estar mediano para os povos sob o seu jugo, viu-se na contingência de alterar seus métodos e até a sua doutrina, a fim de gerar algum progresso. No Ocidente, alguns chegam a afirmar que o comunismo e o marxismo morreram.
Na verdade, esses movimentos reformistas só foram possíveis com a ascensão ao poder, na Rússia, de um novo chefe - Mikhail Gorbachev - com novo estilo de governo comunista.
Imagem e hipóteses
Logo após Gorbachev subir ao poder, a mídia Ocidental passou a enfocar suas atitudes: ele se apresentava concessivo, sem ter para com o Ocidente a impermeabilidade rancorosa estampada por um Stalin, um Brejnev etc. Pelo contrário, já em suas primeiras viagens, acompanhado por Raissa, – fato inédito a Rússia comunista ter uma "primeira dama" – a impressão que causava era a de um homem educado, benévolo, bom conversador e disposto a receber influências do Ocidente
A essa imagem somou-se outra, a de um político que praticava uma aparente autodemolição do regime, não só permitindo, mas estimulando críticas às mazelas do comunismo.
Esta última característica merece análise mais detida. Por que essa política de aparente autodemolição?
Para responder a essa questão, podem-se considerar três hipóteses:
Na primeira, Gorbachev seria movido por um interesse pessoal, querendo aparecer como alguém que abre um caminho, - inédito, de conduta pacifista em relação ao Ocidente - por meio de uma política de mão estendida. Toma atitudes distensivas e concessivas, ad extra et ad intra.
Ad intra, Gorbachev abriria um caminho, por pequeno que seja, para a iniciativa e a propriedade privadas, economia de mercado etc. Ad extra, adotando uma atitude pacifista que abre veredas de mútua confiança e colaboração entre os povos.
Agindo assim, como compensação, Gorbachev afastaria um tanto do Ocidente o fantasma da guerra, o qual se distanciaria à medida que os governos ocidentais enchessem a Rússia de ouro, de recursos, de apoio, com que um Stalin jamais poderia contar.
Para cimentar tal concessão permanente de auxílios, a Rússia se apresenta numa "revolução" interna. Mas esta corre o risco de terminar num retrocesso.
É o que pensa também, neste particular, o analista da conhecida revista norte-americana "Newsweek", Scott Sullivan: "Um golpe militar contra Gorbachev é extremamente improvável, mas ainda possível. Um golpe sem derramamento de sangue no Kremlin, por neo-stalinistas bem escovados, é muito mais concebível" ("Newsweek", 20-11-89).
Tal política, que mais parece destinada a agradar o Ocidente, serviria também para manter Gorbachev no poder como se mantém um ambicioso. Quer dizer, o poder pelo poder, com sacrifício dos princípios que até hoje defendeu, caracterizaria o Gorbachev ambicioso.
Ele pode ser visto ainda como um idealista. Neste caso, Gorbachev se moveria não pelo desejo de se manter no poder, mas de alimentar o ideal da paz universal e libertar da pobreza seus próprios conterrâneos.
Há uma última hipótese, na qual Gorbachev poderia ser visto como um homem de ideias, de doutrinas. Sua atual política seria uma marcha necessária para a realização do comunismo integral. Através da perestroika, chegaria à autogestão marxista.
Quem é Gorbachev?
Qual dos três perfis é o verdadeiro?
– Seria ele um interesseiro (primeira hipótese)?
– Seria ele um "condestável" da harmonia interna na Rússia e entre os povos (segunda)?
– Ou um "condestável" do comunismo, disfarçado em "condestável" da iniciativa privada etc., para melhor alcançar seus fins (terceira)?
Esta é a grande pergunta, e que poderia ser assim formulada: qual o rumo verdadeiro, sincero e profundo que toma atualmente a política russa?
É tão difícil optar por uma dessas hipóteses, que "Catolicismo" fica verdadeiramente pasmo em ver quantas pessoas bonacheironamente já vão aceitando a hipótese de um "condestável" desinteressado e nobre, dedicado ao bem dos povos, da paz etc., e excluir simplesmente as outras duas, contudo tão prováveis.
É dentro desse contexto que devem ser analisados os movimentos reformistas dos países do Leste europeu - que em tudo até agora dependeram da política russa - movimentos que têm atraído, pelo inopinado, pelo açodado, pelo espetacularmente inesperado, a atenção do Ocidente inteiro.
Por outro lado, que significado teria em face de toda essa movimentação o encontro João Paulo Il-Gorbachev? Pelo menos um passo a mais da Ostpolitik Vaticana, fato ímpar na História.
A Alemanha Oriental
Egon Krentz da linha Gorbachev. Repressão na China, liberdade na Alemanha Oriental?
O processo que está ocorrendo na Alemanha comunista assemelha-se ao da Rússia.
Egon Krentz, sucessor natural do ex-secretário-geral Eric Honecker, iniciou as reformas e, em menos de dois meses, foi por elas ceifado, pois conservava a imagem de "linha-dura".
Substituiu-o Gregor Gysi, não pertence aos quadros do PC local, mas, na realidade, sustentáculo do mesmo. É previsível que siga fielmente a política do dirigente russo. Seria a vitória da linha Gorbachev.
Convém recordar os eventos. Seguiu-se às manifestações populares, não a repressão de tipo chinesa, mas a abertura do Muro da Vergonha. Chama a atenção, nesses acontecimentos, seu caráter inopinado. Honecker, o "super duro", declarara que o Muro continuaria por um século.
Repentinamente, é apeado do poder. E Krenz, que o substituiu, cedeu às manifestações, quiçá menos contundentes do que as da Praça da Paz Celestial, em junho último.
Pouco depois, nova substituição. Até que ponto os dirigentes comunistas germânicos estarão dispostos a prosseguir nas vias "reformistas" e de "abertura"?
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Uma confederação pan-europeia?
Martelo para quebrar o muro: um símbolo?
Uma consequência a médio prazo – inevitável: uma vez posto o muro abaixo, é a reunificação das Alemanhas.
Reduzido ao nível do chão, o muro de Berlim – e o das duas Alemanhas em geral – é impossível evitar que os entendimentos se façam rápidos, frequentes, assíduos e fraternos entre um lado e outro.
Também será impossível impedir, a partir deste momento, um intenso e ágil intercâmbio cultural - livros, revistas, jornais etc.; conversas individuais sobre política; envios de emissários não só de governo a governo, mas de partido a partido, de grupo social a grupo social, de grupo religioso a grupo religioso, de universidade a universidade, de um lado e doutro da Alemanha.
Surge desse fato uma questão capital - que nos conste - não levantada pela mídia: qual será a nota dominante da Alemanha reunificada?
É fato que o problema ideológico e filosófico vai continuar a ter sua atualidade. E não se poderá evitar isto.
Tal problema apresentar-se-á em breve à Alemanha.
Mas não só a ela. À medida que as "reformas" nos países do Leste se desenvolvem, que tipo de relações a Europa Ocidental deve estabelecer com eles? "Uma frouxa confederação com os nascentes governos pluralísticos do Leste?"
A pergunta feita pelo citado Sullivan (id., ib.), o qual acrescenta que esta "opção traz um custo alto e visível. Com exceção da Alemanha Oriental e da Tchecoslováquia, a Europa Oriental não representa um verdadeiro mercado para os produtos ocidentais por décadas, se é que representará alguma vez. Será, na realidade, um caso de caridade muito provavelmente extenuante e frustrante".
Uma previsão
Há mais de vinte anos o Professor Plinio Corrêa de Oliveira redigiu o artigo "Dias Decisivos nas Duas Alemanhas", no qual previa e analisava a hipótese, então longínqua, da unificação germânica:
"Sendo uma Alemanha neocapitalista e outra comunista, como fundi-Ias em um só todo? Mediante uma federação em que cada parte