O pitoresco Vale do Roncal
Vamos viajar por um lugar diferente?
Grupo de roncaleses com seus trajes típicos.
Por meio de suas "jangadas", os roncaleses transportam a madeira aproveitando a correnteza do rio Esca.
NOSSO PAÍS-CONTINENTE caracteriza-se por grandiosos panoramas, vastidões inexploradas, riquezas imensas e uma natureza exuberante.
Lembrando-nos do adágio - "A variedade deleita" - ocorreu-nos convidar o prezado leitor a fazer conosco uma viagem por região bem diferente das que existem no Brasil.
Trata-se de uma zona geográfica cheia de encanto e de pitoresco.
Ao norte da Espanha, na província de Navarra, bem junto da alta cadeia de montanhas dos Pirineus, existe um vale chamado do Roncal.
Iremos visitá-lo, e nosso guia será Rafael Gambra, professor universitário e ilustre autor tradicionalista espanhol, descendente de velha família roncalesa. Os dados são extraídos de seu livro "El Valle de Roncal", Publicaciones Españolas, Madrid, 1959.
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QUEM, NAVEGANDO pelo rio Esca, penetra no Vale do Roncal, contempla os picos mais altos da Navarra. Uma paisagem áspera e varonil de montes foscos e selvagens, coalhados de árvores até os cumes, em cuja espantosa solidão só se escuta o golpe seco do lenhador, o chocalho de uma vaca extraviada ou o estrondo de uma árvore abatida.
O panorama vai mudando insensivelmente à medida que se sobe o Vale. A aspereza dos primeiros desfiladeiros se vai iluminando em perspectivas mais amplas, arrematadas pelos picos agudos dos Pirineus, cujos cumes tantas vezes se perdem nas baixas nuvens do inverno.
Na Vila do Roncal, bem no centro do Vale, se vê um conjunto de casas de pedras escurecidas pelo tempo, que ostentam brasões e que se superpõem nas encostas dos montes, encimadas pela igreja que poderia servir muito bem de fortaleza.
Perfil do tipo humano roncalês
Nesses rincões de clima rigoroso, onde o solo não produz mais que árvores e pastos, habitavam um povo sofrido e frugal de pastores e madeireiros. Gente forte, robusta, experimentada nas armas e criada na maior rudeza dos Pirineus. Pastores que elaboram o requintado queijo que deu fama ao Vale.
Roncalês é um qualificativo que exprime não só de onde se é, como também o que se é: pastor, e secundariamente agricultor e jangadeiro; militar quando a ocasião se apresenta; homem livre, não sujeito a senhorio, de estado nobre, com nobreza coletiva de primeira qualidade.
O traje roncalês, hoje considerado pelo folclore como o traje típico navarro, é dos mais severos e senhoriais dentre os populares da Espanha.
O papel do lar católico no Vale
É curioso analisar os estatutos pelos quais se regem os sete povoados que integram o Vale, para compreender o vigoroso ambiente em que vivem, tão diverso do cosmopolitismo das sociedades contemporâneas. Uma personalidade coletiva tão saliente como a deste Vale só podia se alcançar mediante uma grande estabilidade e força da instituição familiar.
A pedra angular daquela sociedade era a família, a ponto de o Vale se conceber como uma federação de famílias que vivem reunidas. E a família se perpetua através da instituição do patrimônio familiar. Cada lar constitui, no Roncal, um conjunto de bens que permitem à família ter vida. Os cem lares ou patrimônios da vila de Roncal, por exemplo, poderiam ser reconhecidos tais quais eram se remontássemos há trezentos anos atrás.
A propriedade adquire um sentido de estabilidade e de afeto, que a vincula para sempre a seus moradores naturais, evitando que passe a mãos estranhas.
A vida familiar era patriarcal. O pater-familias tinha toda autoridade e a ele se submetiam os que viviam na casa. A unidade familiar tinha tanta importância, que sua vida se organizava de modo quase completamente autárquico, isto é, independente de qualquer outro grupo social, capaz de fabricar e obter todo o necessário para sua manutenção, limitando-se a importação do vinho, sal e joias para o traje da roncalesa.
Isolado e formando uma comunidade política fechada - verdadeira galáxia de pequenas vilas independentes - o Vale manteve no decurso dos séculos uma personalidade forte e característica, com uma história própria.
A Junta Geral do Vale, à qual pertence a maior parte dos solos da região, se administrava por si mesma, sem prestar contas a nenhum poder superior, nem mesmo à Câmara da Navarra. E esta autonomia faz dele um exemplo vivo do que seriam no Século de Ouro os povoados espanhóis, tão profundamente diferentes entre si, tão zelosos de seu próprio foro, mas unidos na mesma Fé e sob a mesma Coroa.
Os habitantes do Vale estiveram sempre presentes nas empresas comuns em defesa da Fé e da Coroa. De onde lhes vieram certos privilégios coletivos zelosamente mantidos através dos tempos.
O Roncal e seus privilégios
No Vale de Roncal, são três os privilégios ou honras, como recordação de legendárias batalhas. O primeiro consiste em que todos os roncaleses são nobres "caballeros, hidalgos e infanzones", com direito de usar como próprio o escudo do Vale, de tal forma que, para armar-se cavaleiro das Ordens militares, basta provar que o sobrenome é roncalês de origem. Se estiver presente essa condição, fica demonstrada a nobreza do mesmo.
O segundo privilégio consiste na liberdade concedida aos rebanhos roncaleses de pastar nas "Bardenas del Rey" - extensos territórios semidesérticos situados na extremidade esquerda do Aragão, que eram propriedade da Coroa espanhola. Para lá se dirigia a interminável coluna de ovelhas (no século XVIII o número de cabeças chegou a 200 mil), quando a neve cobre os montes, ali permanecendo até o retorno da primavera.
O terceiro é singular, sobretudo pela sua sobrevivência ainda hoje em dia. Consiste em que um vale da província francesa de Béarn - o vale de Bareton - do outro lado dos Pirineus, é tributário do Vale de Roncal, devendo entregar aos representantes deste, no dia 13 de julho de cada ano, um tributo de três vacas e prestar-lhe ao mesmo tempo vassalagem e submissão.
Luis Carlos Azevedo
Entrevista com o Prof. Rafael Gambra
Felipe Barandiarán, enviado especial
Prof. Rafael Gambra, em seu escritório, na capital espanhola
CATOLICISMO - Prof. Gambra, qual a principal atividade do roncalês?
RAFAEL GAMBRA - Originariamente o roncalês era pastor de ovelhas. Foi também agricultor e madeireiro. Porém, no mundo moderno, o valor da lã foi diminuindo, a agricultura nos montes - especialmente trigo e cevada - tornou-se antieconômica, de modo que o Vale do Roncal foi se despovoando. Hoje em dia, no inverno, apenas uma parte das casas continua habitada. No verão, com o turismo, há um aumento artificial da população.
CATOLICISMO - Há algum produto característico do Vale?
RAFAEL GAMBRA - Certamente. São famosos os queijos do Roncal, fabricados com leite de ovelha. Eles são muito fortes.
CATOLICISMO - O Roncal mantém ainda seus usos e costumes?
RAFAEL GAMBRA - Com a invasão da televisão tudo se uniformizou. Não há mais as canções, os jogos característicos das crianças roncalesas, os trajes típicos não se usam mais e existem apenas para festas folclóricas. O próprio modo de falar, com sotaque local, desapareceu. É preciso ainda salientar o papel demolidor dos clérigos progressistas que envenenam todos os povoados. Antigamente ninguém deixava de ir à Missa. Hoje...
CATOLICISMO - Prof. Gambra, o Sr. ...
RAFAEL GAMBRA - Espere, quero completar. O que se mantêm são as casas, muitas delas com 300 anos ou mais, pertencentes às mesmas famílias. Isto foi possível porque no direito foral em vigor na Navarra - ao contrário do código de inspiração napoleônica vigente no restante da Espanha - é permitido ao proprietário testar em favor de uma só pessoa, sem ter que dividir o patrimônio entre os diversos filhos. Assim as casas permanecem, têm um nome de família, e frequentemente passam de pai para filho.
CATOLICISMO - E a pitoresca entrega das três vacas, feita pelos franceses?
RAFAEL GAMBRA - Mantém-se como folclore e atrai muitos turistas. Os franceses trazem as vacas no dia 13 de julho, mas depois as levam de volta, deixando seu valor em dinheiro. O local era de difícil acesso, mas hoje há estradas que chegam até lá.