Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 461 | página 04-05

TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO

A OPINIÃO pública nacional assistiu - surpresa e paralisada - a um súbito e inesperado progresso eleitoral de certa esquerda, nas eleições municipais de novembro. Progresso, diga-se de passagem, bem mais modesto do que alardeiam e querem fazer crer os meios de comunicação, de modo geral, e que se deveu mais à divisão dos adversários do que ao próprio desempenho.(Cfr. Plinio Corrêa de Oliveira, "Ascenção das esquerdas: mera fantasmagoria", Folha de S. Paulo, 16 e 19/1/89).
Seja como for, não deixa de ser verdade que a esquerda se encarapitou em prefeituras e câmaras municipais de três capitais e mais algumas cidades importantes.
O que sobretudo chamou a atenção do público é que se trata de uma esquerda diferente, embora a maioria das pessoas não saiba dizer exatamente no quê. Na verdade, essa nova esquerda se professa marxista, se proclama socialista, prega a luta de classes, quer a abolição da propriedade privada e não rejeita o emprego da violência. Tudo como a velha esquerda comunista ortodoxa.
Não obstante, todos sentem, é uma esquerda diferente. Seu discurso tem algo de novo, tão diverso da retórica metálica e sem vida do velho e anêmico PCB, como também da de seu irmão separado, o neurastênico PC do B. E é justamente nesse algo que está a chave do enigma e o verdadeiro perigo.
Para dizê-lo em duas palavras, é a motivação religiosa que confere alguma audiência a essa nova esquerda junto a setores da população majoritariamente católica do País, sempre refratária à pregação comunista explícita dos antiquados PCs.
Em última análise, a força preponderante, e a mais dinâmica, a mais de se temer, dessa nova esquerda político-partidária é a velha esquerda católica, em sua roupagem atualizada, a Teologia da Libertação, com sua tropa de choque, as Comunidades Eclesiais de Base - CEBs.
* * *
Teologia da Libertação... A expressão não é estranha. Quase todo mundo ouviu falar dela. Mas quem sabe exatamente o que é? De onde veio? Para onde vai? O que quer? O que faz?
Neste ano a TL atinge a maioridade - 21 anos - se se considerar, como o fazem muitos autores, a reunião do episcopado latino-americano em Medellín (Colômbia), celebrada em meados de 1968, como seu nascimento oficial. A ocasião é oportuna para um balanço.

"Catolicismo" apresenta nesta edição um retrospecto da TL desde suas origens até nossos dias - "Balanço de 20 anos": seus avanços e recuos, vitórias e derrotas, apoios e reações; e procura responder à pergunta que a todos interessa: qual o seu futuro?
Paralelamente, traça um esboço de sua doutrina igualitária e revolucionária - "Negação da Fé cristã" - estranho e contraditório amálgama de elementos bíblicos com o materialismo histórico e dialético do marxismo, o qual tem por força propulsora a luta de classes. Fica apontado também o papel insubstituível dos moderados, esses eternos adoradores do meio-termo e da ambiguidade, inimigos de toda reação, que não querem de forma alguma frear o carro que desce a ladeira, mas tão-só diminuir-lhe (como?) a velocidade. E que sempre - a História o tem demonstrado - acabam por ajudar os avançados a atingirem suas metas.
A matéria é da maior oportunidade para quem quer entender o que se passa no País (e, em alguma medida, no mundo), não só na esfera religiosa, senão também na política, na social e até na econômica. Pois, em todas elas, está presente - em sua versão moderada ou avançada - essa nova esquerda, diferente no tom e na linguagem, mas afinal é a mesma do comunismo russo, chinês ou cubano. Basta olhar para a Nicarágua!

NOSSA CAPA põe em foco a sessão de encerramento do Encontro sobre Teologia da Libertação, transcorrida no dia 24 de janeiro último, na igreja de São Domingos, no bairro das Perdizes (São Paulo). Discursa o Cardeal Arns. Também fizeram uso da palavra Lula, Frei Boff e Frei Betto. Entre o público notavam-se vários teólogos da libertação de países hispano-americanos. Na ocasião, foi lançada oficialmente a série "Teologia e Libertação" - conjunto de livros sobre a doutrina e a atuação da esquerda católica na transformação do Brasil e da América hispânica.
(Foto Bruno Santarelli)


NOSSA CAPA

Nossa capa põe em foco a sessão de encerramento do Encontro sobre Teologia da Libertação, transcorrida no dia 24 de janeiro último, na igreja de São Domingos, no bairro das Perdizes (São Paulo). Discursa o Cardeal Arns. Também fizeram uso da palavra Lula, Frei Boff e Frei Betto. Entre o público notavam-se vários teólogos da libertação de países hispano-americanos. Na ocasião, foi lançada oficialmente a série "Teologia e Libertação" - conjunto de livros sobre a doutrina e a atuação da esquerda católica na transformação do Brasil e da América hispânica. (Foto Bruno Santarelli)


A revolução em nome do Evangelho

BALANÇO DE 20 ANOS

Luis Sérgio Solimeo

A Teologia da Libertação (TL) completou há pouco 20 anos de existência.

Com efeito, a maioria dos autores considera que seu nascimento "oficial" ocorreu na II Assembleia Geral do Episcopado Latino-Americano, reunida em Medellín (Colômbia), em agosto-setembro de 1968.

Qual o saldo dessas duas décadas de atividades?

Um balanço sumário mostrará quais os avanços e recuos, triunfos e derrotas, expansão e retrocesso dessa corrente, de suas origens até nossos dias. A extensão do tema não permite aprofundamentos, mas tão-só rápidas pinceladas.

Movimento organizado

A TL é não apenas uma doutrina e uma corrente de pensamento, mas também um movimento articulado, de caráter internacional, reunindo teóricos e ativistas que se propõem transformar a Igreja e a sociedade no sentido igualitário visado pelo comunismo.

Esse movimento teve como precursora uma corrente europeia, globalmente conhecida por Teologia Crítica, composta de várias vertentes do pensamento teológico protestante e católico, em voga nos anos 60: Teologia da Esperança (Moltmann, protestante, alemão), Teologia Política (Metz, católico, alemão), Teologia da Morte de Deus (Robinson, protestante, inglês), Teologia da Revolução (Comblin, católico belga residente no Brasil), e outras.

No começo dos anos setenta, os teólogos da libertação convergiram para o movimento Cristãos para o socialismo, surgido no Chile durante o governo marxista de Salvador Allende. Seus principais coordenadores foram os sacerdotes chilenos Gonzalo Arroyo SJ, Sergio Torres, Pablo Richard e Ronaldo Mufioz. Entre os principais ideólogos desse movimento destacavam-se os padres Gustavo Gutiérrez (peruano) e Hugo Assmann (brasileiro), apontados como "pais" da TL. Outras figuras de proa eram o Bispo de Cuernavaca (México), D. Sérgio Méndez Arceo, e o sacerdote salesiano Giulio Girardi (italiano). Encontros em nível internacional foram realizados em Santiago do Chile, El Escorial (Espanha), Cidade do México, Detroit (Estados Unidos), Quebec (Canadá).

Na segunda metade dessa mesma década de setenta, por iniciativa do Pe. Sérgio Torres (exilado em Nova York após a queda do governo marxista de Allende), foi criada a Associação Ecumênica de Teólogos do Terceiro Mundo - ASETT. Essa associação agrupa representantes das três Américas, da Ásia e da África e tem promovido reuniões internacionais de teólogos da libertação ora na África ou na Ásia, ora nas Américas. Seu encontro mais importante foi o IV Congresso Internacional Ecumênico de Teologia, realizado em 1980 em São Paulo. Por ocasião desse congresso realizou-se a famosa Noite Sandinista no auditório da Pontifícia Universidade Católica, na qual teólogos da libertação, bispos, sacerdotes, religiosas, agentes pastorais e integrantes de Comunidades Eclesiais de Base - CEBs comemoraram com guerrilheiros sandinistas a tomada do poder na Revolução na Nicarágua.

Respaldo episcopal

Tais encontros contribuíram em muito para a considerável expansão que a TL conheceu nessas duas décadas de existência.

Outro fator dessa difusão foi a ampla cobertura publicitária que os meios de comunicação têm prodigalizado ao movimento e às atividades de seus próceres. Muito mais importante, contudo, para a grande propagação da Teologia da Libertação por toda a parte, é o apoio que vem recebendo de numerosos bispos, por vezes de Conferências Episcopais inteiras (como ocorre no Brasil, com exceções). Em nosso país, a CNBB se arvorou em paladina dessa corrente em face das medidas restritivas do Vaticano, por sinal bem moderadas.

Sem esse respaldo episcopal, as doutrinas da TL não se teriam infiltrado nas publicações católicas, nas aulas dos seminários e universidades, nas pregações das paróquias, nas reuniões das Comunidades Eclesiais de Base, na atuação dos órgãos de pastoral.

Expansão da TL

Conhecidas editoras católicas, como Vozes e Paulinas (Brasil), Orbis Books (Estados Unidos), Sal Terrae e Studium (Espanha), e muitas outras, inclusive protestantes, têm contribuído poderosamente para a divulgação e popularização da TL.

De maior alcance é a presença de teólogos da libertação em seminários e universidades católicas, uma vez que atingem os futuros sacerdotes. Para mencionar tão-só alguns nomes mais representativos, Frei Leonardo Boff leciona no Instituto Teológico Franciscano de Petrópolis; Frei Clodovis Boff, depois de ensinar durante anos na Universidade Católica do Rio, leciona atualmente

(continua)

Entre uma viagem e outra a Havana, Moscou ou Pequim, Frei Betto ainda encontra tempo para assessorar políticos de esquerda. Na foto, de óculos, com o vice-prefeito de São Paulo, Luís Eduardo Greenhalgh.

Entre uma viagem e outra a Havana, Moscou ou Pequim, Frei Betto ainda encontra tempo para assessorar políticos de esquerda. Na foto, de óculos, com o vice-prefeito de São Paulo, Luís Eduardo Greenhalgh.