Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 461 | página 22-23

|REVOLUÇÃO FRANCESA...| (continuação)

Em 25 de abril de 1792, a guilhotina funcionou pela primeira vez na França. A partir daí ela não teve mais descanso durante toda a Revolução. A corrente revisionista quer ver nessa carnificina um fato extrínseco aos princípios revolucionários.

considerado suspeito, conduzido à prisão e frequentemente morto) e a guilhotina. "Pode-se negar que nessa imensa eclosão de liberalismo, que domina a França entre 1750 e 1850, o Terror não foi senão um breve parêntese e uma contra-corrente? Pretender que ele foi necessário para fazer triunfar a Revolução liberal é próprio a uma metafísica finalista, não à História" (7).

Com François Furet, ex-presidente da "École des Hautes Etudes" e atual diretor do Instituto Raymon Aron, nasceu a corrente do "revisionismo crítico e reinterpretação da Revolução Francesa".

Uma historiografia sob medida

Olvidada em seus primórdios pelas tubas da propaganda, a "escola revisionista" adquiriu rápida notoriedade a partir de 1983, quando o socialismo de Mitterrand, aplicando a política de coabitação com o centro, inaugurou a "era consensual", caracterizada pelo "fim das paixões político-ideológicas" (8).

Os socialistas visavam com essa nova tática a eliminação dos fatores religiosos, políticos e culturais que pudessem criar conflitos de opinião ou antagonismos doutrinários. No campo historiográfico eles realizaram, através do revisionismo crítico, uma espécie de "perestroika" da Revolução Francesa.

Desmitificando embora a legenda revolucionária fabricada pela historiografia marxista, os revisionistas esvaziaram o conteúdo ideológico da secular polêmica em torno da Revolução. Adaptaram-na, assim, à mentalidade do europeu de 1989, que de nenhum modo deseja reavivar a lembrança de Austerlitz ou Waterloo, batalhas onde tombaram milhares de soldados franceses, ingleses e alemães.

E com base nesse pretendido consenso histórico, nessa coexistência ecumênica e contraditória entre adeptos das ideias dê 1789 e refratários a elas, que o governo socialista francês comemora o bicentenário da Revolução.

Nesse sentido, afirma o escritor revisionista Guy Chaussinand-Nogaret, em livro recentemente editado no Brasil: "É possível hoje festejar simultânea ou sucessivamente o milenário dos Capetos - dinastia à qual pertencia Luis XVI e que governou por séculos a França - e o bicentenário de 1789. Um mesmo cidadão pode participar de uma e de outra comemoração sem crise de consciência, podendo se reconhecer, sem ter que fazer escolha, como legatário das duas heranças" (9).

Não se trata, portanto, de contestar os princípios revolucionários, mas apenas de "superar a crença romântica nos efeitos purificadores da violência" que outrora animou os líderes da Revolução: "O Terror nuclear é a consequência de uma retórica inventada por homens de letras fracassados, como Robespierre e Saint-Just" (10).

Fim da distinção entre verdade e erro

Defender as ideias revolucionárias e ao mesmo tempo rejeitar suas consequências práticas, como historicamente se manifestaram, é uma contradição flagrante. Violentar a natureza dos fatos para justificar tal paradoxo, enquadrando-os numa interpretação ecumênica absurda, é transformar a historiografia numa atividade cultural dirigida e pré-concebida.

A Revolução Francesa foi um dos principais movimentos ideológicos da História e só é compreensível a essa luz. Nunca, talvez, a oposição de princípios separou tão profundamente os homens quanto aquela que dividiu em dois campos irreconciliáveis os partidários e os adversários de 1789. Por trás das preferências entre Monarquia e República, duas mentalidades, dois sistemas filosóficos se entrechocavam numa luta de vida ou de morte.

Neste triste ocaso do século XX, o princípio de contradição parece banido da mentalidade relativista do homem contemporâneo. Embotada essa noção elementar e primeira, pode-se celebrar simultaneamente o rei e a guilhotina que lhe decepou a cabeça...

"Oxalá foras frio ou quente; mas porque és morno, e nem frio nem quente, começar-te-ei a vomitar da minha boca" (Ap. 3, 15-16). Condenação terrível, expressa na Sagrada Escritura, contra todos aqueles que procuram uma composição entre a verdade e o erro, o bem e o mal.

Notas

(1) "O Estado de S. Paulo", 27-12-88.

(2) "Folha de S. Paulo", 26-2-89.

(3) Cfr. Réné Sédillot, "Le CoQt de Ia Révolu-tion Française", Perrin, Paris, 1987.

(4) "Le Point", Paris, 8-8-88.

(5) Cfr. Reynald Secher, "Le Génocide Franco-française: Ia Vendée Vengé", P.U.F., Paris, 1986.

(6) "30 Giorni", jan/89.

(7) François Furet, "La Révolution Française", Fayard, Paris, 1973.

(8) "O Estado de S. Paulo", 17-12-88.

(9) Guy Chaussinand-Nogaret, "A Queda da Bastilha", Jorge Zahar, São Paulo, 1989.

(10) Jean-Paul Dollé, "Le Magazine Littéraire", 1986.

Caricatura publicada em "Le Soleil" (22-10-88), de Québec


A DISCRIMINAÇÃO E O FEITIÇO DO IGUALITARISMO

Gregório Lopes

DISCRIMINAÇÃO é um bem ou um mal? Depende. Se ela se exerce de modo injusto, torna-se condenável. Mas se é exercida por motivos justos, então é louvável.

O que são, de si, as prisões, senão lugares onde permanecem segregados aqueles que por seus atos delituosos se tornaram indignos do convívio social - e conforme o caso até perigosos para ele - ao menos temporariamente? A discriminação do criminoso, praticada em todas as épocas, por todos os povos, embora de modos diferentes, é o que há de mais necessário.

E ainda conforme à razão a discriminação daqueles que, mesmo sem culpa própria, põem em risco grave a saúde e a vida de seus semelhantes. Os leprosários medievais - quando ainda não se conhecia a cura da lepra - e antes deles a discriminação dos leprosos preceituada por Deus no Antigo Testamento (cfr. Lev. 13, 1-8), são exemplos muito marcantes. Os pobres infelizes que eram portadores da lepra - doença terrível e contagiosa - deveriam retirar-se do convívio social e viver entre si. E uma cruz bem pesada, mas necessária.

A Santa Igreja, de pena dos leprosos, suscitava vocações admiráveis: pessoas havia, inteiramente sãs, que passavam a viver nos leprosários só para tratar dos doentes, expondo-se voluntariamente ao risco iminente do contágio. Porém, de outro lado, a própria Igreja tinha um rito pelo qual o leproso era considerado como morto para a sociedade, e só podia viver segregado. Tal procedimento é bem característico da Santa Igreja. Com uma das mãos impunha a Cruz necessária às costas do enfermo, e com a outra encontrava os cireneus que o ajudassem a carregá-la. Enérgica, contudo mais materna ainda do que enérgica, multiplicando-se em manifestações de afeto no mesmo momento em que exercia sua energia.

Aidéticos e loucos

Hoje em dia, um verdadeiro feitiço do igualitarismo levanta-se cegamente contra quaisquer discriminações, até as mais necessárias. Nos Estados Unidos, grupos de homossexuais lutam para obstaculizar - e já têm obtido resultados ponderáveis - qualquer discriminação contra os aidéticos, procurando impedir, por exemplo, que os enfermeiros que lidam com doentes infectados usem roupas protetoras especiais. E tentam evitar, igualmente, que sejam realizados testes sanguíneos em pessoas pertencentes aos grupos de risco da doença. O que vem tornando a AIDS a primeira epidemia politicamente protegida da História, aumentando assim extraordinariamente sua disseminação e o risco de contágio dos sãos (cfr. "Catolicismo", no 458, fevereiro de 1989).

Outro grupo de pessoas que, para seu próprio bem e o da sociedade, tradicionalmente vive confinado, de preferência em grandes granjas agrícolas, é o dos loucos. E uma das discriminações que contra eles normalmente se exerce é a de que não podem votar. Nada é mais natural. Pois o voto, de si, exige pleno conhecimento de causa, lucidez para analisar os problemas da nação e saber optar pelas soluções adequadas, inscritas no programa deste ou daquele partido político. Como pedir isto a um pobre doente mental?

Mas vai longe o horror irracional à discriminação, como também a superstição e o feitiço do igualitarismo.

No Canadá "50 mil pessoas atingidas por doenças mentais (e sob curatela) poderão votar nas eleições, como resultado de uma decisão tomada pela Corte Federal de Justiça" ("Le Devoir", Québec, 18-10-88).

A partir dessa incrível decisão, funcionários da justiça eleitoral passaram a percorrer os hospitais psiquiátricos para alistar os doentes. Tais funcionários "não eram obrigados a julgar a capacidade de cada doente mental para exercera voto" (idem, 15-11-88). Portanto, podiam alistar mesmo os loucos furiosos!

Os pobres doentes, porém, parecem ter mostrado mais bom senso: "No Hospital Robert-Giffard, de Québec, dentre os 1.850 beneficiários da medida, só uns 370 se inscreveram para votar" (idem, ibidem). Ou seja, só 20% dos loucos desse hospital resolveram inscrever-se. Menor ainda foi a porcentagem dos votantes no Hospital Douglas, de Montréal (12%): "Cerca de 650 pacientes do Douglas têm o direito de votar. Apenas 75 demonstraram desejo de exercer seu direito" (idem, 22-11-88).

Com vistas ao futuro

De futuro, quando os presentes horrores tiverem cessado, e a harmonia da Civilização Cristã - fruto do triunfo do Imaculado Coração de Maria, predito por Nossa Senhora em Fátima - voltar a brilhar com fulgor incomparável, tais absurdos deverão ser lembrados. Assim, as gerações que nos sucederem poderão conservar a ideia de quão fundo é o poço em que hoje caímos, e, em consequência, tomar as providências necessárias para não tornar a nele resvalar.

Caso contrário, sempre haverá indivíduos de mentalidade otimista e folgazã - ou então velhacos perigosos disfarçados de otimistas - que conduzirão o mundo de novo a este ponto. Os fatos típicos do espírito revolucionário (sensual e igualitário) de nossa época deverão então ser elencados e proclamados, para evitar novas ruínas.

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