Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 249 | página 08

O CASO DA ILHA DE MALTA E A EXPANSÃO RUSSA NO MAR MEDITERRÂNEO

Gustavo Antonio Solimeo

Em junho último, as manchetes dos jornais anunciavam que o novo governo de Malta, pouco antes empossado, expulsara de seu Quartel-General de La Valetta o Almirante Gino Birindelli, Comandante das Forças Navais da NATO no Mediterrâneo Central. Os comentaristas internacionais acentuaram a gravidade do incidente, proporcional à importância que a pequena ilha tem para a defesa do flanco sul da Aliança Atlântica, já que ocupa uma posição geográfica de excepcional valor estratégico, situada como está a meio caminho entre a Europa e a África do Norte, dominando a passagem entre a parte ocidental e a oriental do Mediterrâneo.

Por escassa maioria (28 deputados contra 27) obtida nas eleições parlamentares de junho, os trabalhistas voltaram ao poder em Malta, depois de treze anos, e seu líder, Domenic Mintoff, assumiu a chefia do governo. Cabe aqui também, e com toda a propriedade, a expressão com que o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira qualificou o "triunfo" eleitoral do marxista Allende no Chile: vitória de opereta! E, como no país andino, também na ilha mediterrânea os socialistas conquistaram o poder graças ao apoio, ou pelo menos a omissão, de representantes da Hierarquia Eclesiástica, como veremos.

Perfil de Mintoff, pelo Arcebispo de Malta

Vale a pena conhecermos o personagem que ocupa o cargo de Primeiro-Ministro em La Valetta. São interessantes os dados que sobre ele forneceu o venerando Arcebispo de Malta, Mons. Michele Gonzi, em entrevista que concedeu a esta folha em Roma, por ocasião da primeira sessão do Concílio ("Catolicismo", n.° 245, de janeiro de 1963).

Dom (abreviação de Domenic) Mintoff pertence a uma família católica da Ilha. formou-se em engenharia em sua terra, e obteve depois uma bolsa de estudos em Oxford. Enquanto estudante em Malta nunca tomou parte em atividades religiosas, e era apelidado de "Stalin" pelos colegas, por causa de suas tendências esquerdistas. Durante os anos de Oxford essas tendências se acentuaram.

De volta à pátria ingressou no nascente Partido Trabalhista, e conseguiu fazer-se eleger seu secretário. Iniciou então a propagação de ideias esquerdistas no seio da agremiação, influenciando sobretudo os correligionários mais jovens. Por fim, logrou derrubar o líder do partido e tomar-lhe o lugar à testa dos trabalhistas malteses.

Em suas campanhas eleitorais Mintoff sempre se proclamou católico, apesar de sua aversão pessoal a tudo quanto diz respeito à Igreja, porque sabia que, se manifestasse seus verdadeiros sentimentos, perderia grande número de adeptos, já que noventa e nove por cento da população maltesa é católica. Graças a seus dotes de orador e de demagogo, e à injustificada confiança de muitos católicos, obteve a maioria no Parlamento nas eleições de 1955 e tornou-se Primeiro-Ministro.

No início de seu governo apoiou a política do "Colonial Office" inglês, chegando a propugnar a integração de Malta no Reino Unido. Recebeu por isso ajuda britânica representada por milhões de libras, e com esse dinheiro realizou obras que lhe grangearam a fama de grande administrador. Indispôs-se mais tarde com Londres e passou a advogar a independência de Malta fora da "Commonwealth". Durante os três anos que passou como Premier tomou uma série de medidas anticatólicas; mais de uma vez, e às escâncaras, declarou que seu partido era socialista. Em 1958 demitiu-se do governo.

Na mesma entrevista a "Catolicismo", Mons. Gonzi ressaltou que o objetivo de Mintoff era implantar o socialismo na Ilha, razão pela qual o Arcebispo e seu sufragâneo, o Bispo de Gozo, por ocasião das eleições de fevereiro de 1962 alertaram os fiéis quanto às tendências esquerdistas e anticatólicas do líder trabalhista, e as associações religiosas fizeram uma oposição cerrada à sua candidatura. Posteriormente, em 1966, Mons. Michele Gonzi chegou mesmo a suspender cinco Sacerdotes que haviam manifestado simpatia pelos trabalhistas (cf. "O Estado de São Paulo", de 11 de julho de 1971). Os ventos "pós-conciliares" ainda não haviam soprado sobre a Ilha...

Essa oposição da Hierarquia manteve os trabalhistas no ostracismo por treze anos, mas parece que ao chegarem as últimas eleições o clima havia mudado. "The Economist", de Londres, afirma que agora eles voltaram ao governo graças a uma "dramática reconciliação" havida em 1969 entre Mintoff e o velho Arcebispo, "o qual com a ajuda do Papa e da organização McKinsey, decidiu modernizar-se" (cf. "O Estado de São Paulo", 18 de julho). Foi assim que os malteses puderam escolher um Primeiro-Ministro cujo advento o "Pravda" saudou calorosamente.

Uma simples "barganha financeira"?

Já antes das eleições Mintoff havia manifestado suas intenções a respeito da NATO, mas os observadores políticos não esperavam que ele inaugurasse o seu governo, anunciado como "neutralista", com atitudes de tão ostensiva hostilidade para com a organização ocidental de defesa, como a expulsão do Almirante Birindelli e a proibição da visita da VI Frota norte-americana ao porto de La Valetta, ao mesmo tempo que mandava informar a Inglaterra de sua intenção de renegociar os tratados vigentes até 1974, pelos quais Londres e seus aliados ocidentais têm a faculdade de usar as bases navais e aéreas construídas em território maltês.

É preciso esclarecer que Malta não é membro da Organização do Tratado do Atlântico Norte, e é o acordo de defesa estabelecido com a Inglaterra que vincula a Ilha indiretamente à Aliança Atlântica. Durante anos o Primeiro-Ministro conservador Borg Olivier, derrotado nas últimas eleições, pleiteou a admissão de seu país como membro de pleno direito da NATO, mas a própria Inglaterra — desejosa talvez de manter uma posição especial no que se refere à defesa de sua antiga colônia — e os países escandinavos a isso se opuseram. Mintoff aproveita-se agora dessa situação para anunciar uma política de "não alinhamento" em relação às grandes potências presentes no Mediterrâneo.

Comentaristas houve que procuraram reduzir a atitude assumida pelo Primeiro-Ministro em face da NATO a uma simples barganha financeira. Dom Mintoff teria tomado as medidas drásticas a que aludimos (ademais da insinuação de que poderia ceder as bases da Ilha aos russos, ao afirmar que "pode negociar em outras partes"), apenas com o intuito de obter mais dinheiro para seu país.

Essa versão, que à primeira vista parece plausível, não leva em consideração os antecedentes do personagem, nem os vigorosos elogios com que os soviéticos saudaram o desafio de Mintoff à NATO, e ainda menos as iniciativas do Cremlin destinadas a estabelecer relações mais estreitas com o minúsculo membro da "Commonwealth". Ademais, o "Pravda" anunciou, na ocasião, que Moscou decidira apoiar La Valetta em seu intento de afastar-se da Grã-Bretanha e da Aliança Atlântica.

A maneira como Mintoff conduziu as negociações com a Inglaterra e seus aliados não indica o propósito de chegar a um acordo. Com efeito, o Primeiro-Ministro maltês exigiu a exorbitante importância anual de 72 milhões de dólares pelo uso das bases — construídas, aliás, pelos ingleses — em vez dos 12 milhões que seu país até então recebia. Os britânicos e outros membros da NATO ofereceram 29 milhões. A contraproposta aliada não foi aceita e as negociações foram suspensas, em consequência do que a NATO anunciou, no mês passado, que vai retirar de Malta o QG de suas forças navais mediterrâneas.

A Rússia tomará o lugar da NATO?

Em princípios de julho, no auge da controvérsia provocada por Dom Mintoff sobre o uso das instalações militares britânicas de Malta, o Embaixador russo em Londres, Mikhail Smirnovski, viajou para La Valetta. Embora esteja também acreditado ali, sua viagem naquele momento, suscitou sérias preocupações nos círculos diplomáticos e militares ocidentais. A visita de Smirnovski foi interpretada como visando sondar as intenções do Premier trabalhista com relação a um desligamento efetivo da NATO e ao estabelecimento de uma representação diplomática russa permanente em Malta, recusada pelo governo anterior. A instalação da embaixada soviética representaria um passo considerável na concretização da aspiração de Moscou de ocupar as bases maltesas. Uma segunda visita do diplomata russo a La Valetta, desta vez em caráter oficial, menos de 48 horas depois de a NATO ter anunciado sua retirada de Malta, em meados de agosto, e a notícia de que Smirnovski participaria de reuniões com Mintoff e funcionários do governo, vieram aumentar os temores de que a Rússia ganhe uma base naval na antiga colônia britânica.

La Valetta já antes se vinha convertendo em escala habitual de navios russos mercantes e de passageiros, e é frequente a presença de belonaves soviéticas nas águas próximas. A visita que em meados de junho o Marechal Grechko, Ministro da Defesa da URSS, em companhia do principal comissário político junto às Forças Armadas, General Yepishev, e do Comandante da Marinha, Almirante Gorshkov, efetuou a uma frota de guerra de seu país ancorada no Mediterrâneo, "para discutir tarefas imprescindíveis", traduz a exigência da Rússia de ser considerada uma potência mediterrânea.

A presença soviética no "Mare Nostrum" não é, aliás, fato novo, e nos últimos oito anos vem adquirindo um caráter alarmante. Nesse curto lapso de tempo a pequena frota costeira russa foi transformada na segunda força naval do mundo, e hoje mais de sessenta de seus navios de guerra navegam naquelas águas, contra apenas quarenta belonaves norte-americanas. A VI Frota dos Estados Unidos vai aos poucos sendo superada pela esquadra russa do Mar Negro, que tem, através do Bósforo, livre acesso ao Mediterrâneo.

A situação criada em Malta vem agravar ainda mais as condições do sistema defensivo ocidental na área, já tão comprometidas depois que o fechamento da base aérea de Whlelus, na costa líbia, por pressão do regime pró-soviético do Coronel Gitdhafi, privou o "Strategic Air Command" norte-americano de sua maior base no Mediterrâneo Central. Enquanto isso o Egito e a Síria concediam à Rússia vantagens especiais de ancoragem e de manutenção, depósitos logísticos em vários pontos do litoral mediterrâneo e o uso de aeródromos militares próximos à costa.

Malta será a Cuba do Mediterrâneo?

A política de Dom Mintoff de desvincular-se da Grã-Bretanha e da NATO e de aproximar-se da Rússia vem suscitando inquietação entre os observadores, que chegam mesmo a falar de perspectivas de uma "Cuba mediterrânea". E não há dúvida de que, se o Primeiro-Ministro maltês — apesar de seus desmentidos de estilo — entregar as bases navais e aéreas de seu país aos russos, o antigo reduto dos Monges-Cavaleiros de São João de Jerusalém acabará por ter o mesmo destino que a Pérola das Antilhas. Domenic Mintoff — sorridente, baixote, de óculos, fumador de cachimbo, educado em Oxford, casado e de meia-idade (55 anos) — talvez não assuste tanto como o tiranete barbudo do Caribe. Mas tudo o que este tem feito pela extensão do domínio comunista no mundo não é nada em comparação com o que representaria a entrega a Moscou dessa Ilha que é chamada a justo título o ferrolho do Mediterrâneo.


ANTIGO FEUDO DE MONGES-CAVALEIROS

Com seus 27 quilômetros de comprimento por treze de largura, e uma área de 246 km2, a Ilha de Malta é, fisicamente, um penhasco de rocha calcária, impróprio para a agricultura, produzindo apenas umas tantas variedades de frutas, um pouco de trigo e legumes, e muita pimenta; em seus montes as cabras e ovelhas procuram entre as pedras um alimento escasso. A superfície total do Estado maltês, que compreende as Ilhas de Malta, Gozo e Comino, é de 316 km2, e sua população vai pouco além de 300 mil habitantes; estes falam uma língua semítica, derivada talvez do antigo fenício, mas com fortes consonâncias árabes. Os malteses importam da Sicília três quartas partes dos víveres que consomem, e a grande fonte da renda nacional é representada pelo movimento do porto de La Valetta, importante entreposto comercial entre o Mediterrâneo Oriental e o mundo ocidental, bem como pelo trabalho nas bases e estaleiros britânicos. A população é profundamente católica e conservadora; as mulheres vestem ainda hoje a tradicional faldetta, espécie de capa com grande capuz. Não é, como se vê, sua economia nem sua extensão territorial — pequeno ponto no mapa — que conferem importância a Malta. Esta lhe vem de sua invejável posição geográfica, que lhe valeu o nome de "ferrolho do Mediterrâneo", pois lhe permite controlar a passagem entre o leste e o oeste do antigo "Mare Nostrum" romano.

Seu valor estratégico foi compreendido já pelos fenícios, cartagineses, gregos e romanos; mais tarde pelos árabes, normandos e espanhóis, sucessivos senhores da ilha. Em 1530 Carlos V deu-a como feudo aos Monges-Cavaleiros do Hospital de São João de Jerusalém (conhecidos a partir de então como Cavaleiros de Malta), os quais durante dois séculos e meio mantiveram seu domínio sobre a ilha e desenvolveram um inapreciável trabalho de policiamento do Mediterrâneo, infestado por piratas berberes que atacavam as embarcações cristãs; mais ainda, a presença da Ordem representou ali um poderoso obstáculo ao avanço do Crescente sobre a Europa meridional.

Napoleão também compreendeu o valor estratégico de Malta e capturou-a em 1798 — graças à traição ou incompreensível debilidade do Grão-Mestre Hompech — quando se dirigia para o Egito com formidável armada. Os ingleses, sob o comando de Nelson, sitiaram a ilha nesse mesmo ano e a conquistaram definitivamente em 1800.

Ao começar a Segunda Guerra Mundial, o desenvolvimento que a aeronáutica atingira levou Hitler a jactar-se do formidável poderio da Luftwaffe: "Não existem mais ilhas!" — proclamou o Fuehrer. Malta provaria o contrário. As esquadrilhas da RAF e os navios britânicos com base na ilha infligiram um tão grande dano aos comboios que transportavam material de aprovisionamento e de guerra para as forças do Eixo na África, que o Conde Ciano, genro de Mussolini, chegou a escrever: "Dessa maneira, nossos navios mercantes não durarão nem um ano!" E o Almirante Doenitz anunciava em setembro de 1941: "Não poderemos sustentar durante mais um ano uma nova campanha de Rommel. É preciso destruir Malta!" A ilha foi, com efeito, submetida durante quase dois anos a impiedoso bombardeio pelos aviões alemães e pela Regia Aeronáutica italiana, e sofreu um terrível bloqueio marítimo. Contudo, o antigo feudo dos Cavaleiros Hospitalários não se rendeu.

Legenda: Vista do porto de La Valetta no século XVIII