Articulação Brasil Revista Catolicismo e acervo
Visão da Edição Catolicismo nº 249 | página 02-03

O NAZISMO:

UMA SEITA GNÓSTICO-MANIQUÉIA

Cunha Alvarenga

Catolicismo por mais de uma vez já se ocupou com o estudo da gnose, fundamento panteísta de todas as grandes heresias que vêm flagelando a Cristandade desde os tempos apostólicos. A gnose se acha presa por assim dizer aos flancos da Santa Igreja, terrível erro religioso que, combatido pela verdade católica — e até mesmo a ferro e fogo — quando sua presença se torna insuportável, pode dar a ilusão de completo desaparecimento em certa quadra histórica, passando, porém, como uma brasa acesa, a viver sob cinzas, para logo reaparecer e produzir novas e indizíveis devastações.

A gnose, no correr dos tempos, tomou vários aspectos. Distinguimos, assim, o fundo gnóstico encontradiço em todas as heresias e os sistemas gnósticos propriamente ditos, nos quais aquele fundo tomou corpo nos primeiros séculos do cristianismo. Falando de modo geral, podemos registrar uma gnose pagã e uma gnose dita cristã. A origem da gnose pagã se perde na noite dos tempos. Nela se achava mergulhado o mundo antigo. Entre os gnósticos-maniqueus há a tradição de haver ela existido antes do dilúvio na Atlântida, na Lemúria e na Hiperbórea, civilizações pagãs que aquele tremendo castigo teria destruído. Para nos reportarmos à fase propriamente histórica, antes da era cristã vemos a gnose pagã na Pérsia, na Índia, na Grécia e entre outros povos.

Após o advento do Redentor, fala-se da gnose cristã, designação imprópria, pois as várias heresias gnósticas não passaram de tentativas de acobertar o velho erro pagão sob roupagem católica. No seio da Santa Igreja procurou a gnose esgueirar-se por detrás do dogma católico, assumindo para isso os mais variados disfarces.

Nos primórdios do Cristianismo a gnose aparece nas heresias que lhe tomam o nome. Ao contrário do que nos ensina a Revelação, segundo a qual toda a criação é boa, tanto a dos espíritos quanto a dos seres materiais, o gnosticismo afirma a oposição entre o espírito (princípio do bem) e a matéria (princípio do mal), aquele preso a esta em consequência de um desastre cósmico. Evolucionista, suspira pelo advento de uma era em que, ao cabo de mutações sucessivas, de novo o espírito se liberte das cadeias físicas que o prendem. Panteísta, confunde o gnosticismo a Divindade com esse mesmo espírito preso à matéria. Vão os gnósticos contra o dogma da Criação, confundindo o Criador com a criatura. Repudiam o dogma da Santíssima Trindade e o da Encarnação do Verbo, pois negam a união hipostática do Verbo Divino com a natureza humana em uma mesma Pessoa. Dentro da lógica interna de seu erro monstruoso, repudiam também a Santíssima Virgem como Mãe de Deus, verdade proclamada pelo Símbolo de Nicéia, que condenou os gnósticos da época e a tendência esotérica que com eles se ia infiltrando no Cristianismo. Com efeito, outro aspecto fundamental e inseparável dessa heresia é seu caráter secreto, mágico e ocultista, assumindo ora a feição de magia negra, ora a de magia branca.

Os corolários sociais e políticos da doutrina gnóstica

Desde os tempos apostólicos as consequências sociais e políticas desse conjunto de erros não se fizeram esperar. É bem expressivo, nesse sentido, que entre os primeiros hereges gnósticos surgidos nas fileiras da Santa Igreja, alguns, chefiados por Simão Mago e usando o nome de ebionitas, isto é, pobres, tomavam a pobreza não como um conselho evangélico, mas como um preceito, e essa negação da propriedade privada levava-os ao igualitarismo e ao comunismo. E em seu horror às coisas materiais, justificavam os gnósticos o suicídio ritual e eram também contra o Sacramento do Matrimônio, que santifica a procriação de novos seres nos quais, segundo eles o espírito se acharia ignominiosamente preso à matéria.

Repetição monótona dos mesmos erros

O fundo panteísta carreado pela gnose surge na era cristã sob os mais variados disfarces. Nesse primeiro período, vemos as chamadas heresias indo-helênicas negarem o dogma da Encarnação do Verbo, rejeitando ora a divindade de Nosso Salvador, ora sua humanidade, o que acaba dando na mesma. O maniqueísmo foi então o principal grupo gnóstico: sustentava um duplo panteísmo, o panteísmo do espírito, cujo princípio emanador era o bem, e o panteísmo da matéria, cujo princípio emanador era o mal, ambos necessários e fazendo um jogo de antítese. Professavam seus adeptos o repúdio das coisas materiais e afastavam-se do casamento como propagador do mal, e da posse dos bens terrenos como forma de apego a um mau princípio. São também desse período, entre outros, os neoplatonistas da escola de Alexandria, os montanistas, os docetistas, os antitrinitários, os sabelianos, os patripassionistas. Vieram depois o arianismo, o pelagianismo, o nestorianismo, o eutiqueísmo, o monofisismo, o monotelismo. O nestorianismo veio explorar novo filão herético, aquele que não mais tocava na existência das duas naturezas em Nosso Senhor Jesus Cristo, mas nas relações entre elas e em suas operações recíprocas. A unidade da Pessoa começou a ser atacada, como o havia sido a dualidade de natureza. Na esteira do nestorianismo veio o eutiqueísmo, que sustentava que a natureza humana fora de tal modo absorvida pela Divindade, que o corpo do Nosso Senhor seria um corpo humano quanto à forma e quanto à aparência exterior, mas não quanto à substância. O eutiqueísmo deu lugar ao monofisismo, que admitia apenas uma natureza em Nosso Senhor: a natureza divina, e ao monotelismo, que admitia apenas uma vontade em Jesus Cristo: a vontade divina.

Essas fantasias, em seu aspecto teológico, foram fulminadas pelo seguinte decreto do IV Concílio de Calcedônia: "Conforme o ensinamento dos Santos Padres, declaramos, com voz unânime, que se deve confessar um só e mesmo Jesus Cristo Nosso Senhor; o mesmo, perfeito na Divindade e perfeito na humanidade; verdadeiro Deus e verdadeiro homem; sendo, como homem, composto de uma alma racional e de um corpo; consubstancial ao Pai segundo a Divindade, consubstancial a nós segundo a humanidade; em tudo semelhante a nós, menos o pecado; engendrado do Pai antes dos séculos segundo a Divindade; o mesmo, nascido nestes últimos tempos segundo a humanidade; um só e mesmo Cristo, Filho unigênito, Senhor em duas naturezas, sem confusão, sem mudança, sem divisão, sem separação, sem que a união suprima a diferença das duas naturezas, uma e outra conservando sua propriedade, e concorrendo em uma única Pessoa e subsistência; de modo que não se acha partido ou dividido em duas pessoas, mas é um só e mesmo Filho unigênito, Deus o Verbo, Nosso Senhor Jesus Cristo, como os Profetas e o próprio Nosso Senhor nos ensinaram, como o Símbolo dos Padres nos transmitiu".

Recordamos estas noções fundamentais e as características do erro gnóstico para acentuar que ulteriormente, através da História, vemos simples e monotonamente ressurgir essa velha hidra revestida de novas roupagens. Sempre combatida, mas nunca completamente extinta, a gnose caminha subterraneamente através dos séculos, e em plena Idade Média se esgueira na Cristandade, surgindo um de seus mais poderosos focos na França meridional, na região do Languedoc, sob a denominação de catarismo ou heresia albigense.

O neomaniqueísmo cátaro foi exterminado no Sul da França por meio de uma verdadeira Cruzada, pregada pela Igreja à vista das devastações que o erro ia causando entre os fiéis. "É antes de tudo evidente que o poder civil se inquietou com a existência e o desenvolvimento das heresias tanto quanto a autoridade religiosa, ou talvez mais. As heresias que mais o preocupavam não eram aquelas que se mantinham no puro campo teológico, pois não vemos que ele se haja comovido pela negação por Berenger de Tours do dogma da Transubstanciação. As que o inquietavam eram aquelas cujo erro teológico se aliava a doutrinas anarquistas e antissociais; e eis Príncipes excomungados pela Igreja que as perseguiam pelo menos tanto quanto os Papas, porque no triunfo eventual delas viam, segundo a própria expressão de Roberto, o Piedoso, "a ruína mesma da pátria" ("L'Inquisition Médiévale", por Jean Guiraud, Ed. Bernard Grasset, Paris, 1928, p. 81).

No declínio da Idade Média vemos de novo pulular o erro gnóstico por todos os lados, embora de forma encoberta, e não somente os precursores da heresia protestante, como Wiclef e João Hus, mas o próprio Lutero se deixaram influenciar pela gnose. Gnóstica também foi, por exemplo, a facção puritana de Cromwell na Inglaterra, e sobretudo a partir dos séculos XVIII e XIX vemos ressurgir por toda parte um enorme movimento subterrâneo de tendência nitidamente gnóstico-maniquéia, mágica e ocultista.

Uma estranha missão nas ruínas de Montségur

O que até agora dissemos, a guisa de preâmbulo, é matéria pacífica para quem se disponha a acompanhar a história religiosa mundial em todos os seus refolhos. O que para muitos pode parecer surpreendente é que correntes modernas neopagãs como o nazismo se mostrem completamente mergulhadas na gnose e no ocultismo. Entre outros, no livro "Le Matin des Magiciens", Louis Pauwels e Jacques Bergier procuram levantar a ponta do véu que encobre esse mistério, embora de forma um tanto folhetinesca. Surge agora na coleção intitulada "Os enigmas do universo" a obra "HITLER ET LA TRADITION CATHARE" (Ed. Robert Laffont, Paris, 1971), cujos autores, JEAN e MICHEL ANGEBERT, apresentando-se em posição nitidamente anticatólica, oferecem impressionante documentação sobre as origens gnósticas e ocultistas do Terceiro Reich nacional-socialista.

O capítulo preliminar desse livro tem por título "Otto Rahn e a cruzada contra o Gral". Lê-se ali que no verão do ano de 1931 um jovem alemão, Otto Rahn, surgiu no Sul da França em missão misteriosa. Nas proximidades da cidade provinciana de Lavelanet visitou longamente as ruínas do castelo de Montségur, o fabuloso Montsalvat dos trovadores provençais e, blasfematoriamente dizem os autores, "Tabor dos cátaros da Occitânia e último refúgio da heresia albigense, um desses altos lugares em que sopra o espírito. Desde tempos imemoriais, o Pog ou espigão rochoso sobre o qual foi construído o castelo tem sido considerado como um sítio sagrado" (p. 27). As características singulares desse edifício fazem crer que ele foi construído não em função de imperativos militares, mas segundo um plano de arquitetura religiosa: "é pois lícito pensar, e toda a epopeia albigense o confirma, que Montségur foi verdadeiramente um templo, votado a um culto, lugar sagrado chamado a oferecer, em caso de invasão, uma resistência desassombrada" (p. 29). Aliás, também outros castelos occitanos apresentam características semelhantes, e de alguns deles se sabe com certeza que foram ocupados por albigenses. Acresce considerar que no Sudoeste da França pacientes pesquisadores descobriram cerca de quarenta subterrâneos dos séculos XI e XIII e puderam verificar que todos eles contêm uma sala-capela provida de uma espécie de altar, e que, para uma mesma região, todos se acham orientados de tal sorte que convergem para o mesmo ponto. "Depois de um estudo aprofundado dessas construções, Henri Coltel se convenceu de que elas não eram única nem essencialmente refúgios, mas sobretudo lugares de culto nos quais os cátaros, já antes das perseguições, celebravam cerimônias iniciáticas" (p. 29).

Três meses passou Otto Rahn na região de Lavelanet e em 1937 voltou para uma estadia mais curta. Nesse meio tempo, em 1933, publicou o livro "Kreuzzug gegen den Gral" ("A Cruzada contra o Gral"), que teve grande repercussão na Alemanha e no qual situava em Montségur o misterioso Gral, apontando os cátaros como seus derradeiros depositários.

O curioso é que o que levou Rahn a por duas vezes se demorar pesquisando sigilosamente as ruínas de Montségur e seus arredores foi uma missão recebida de Alfred Rosenberg, o famigerado teórico do nazismo.

O Gral, cálice sagrado da Última Ceia ou mito gnóstico?

Segundo lenda medieval, o Gral ou San-Gral seria um cálice sagrado feito de enorme esmeralda do diadema de Lúcifer, gema que teria caído na terra quando aquele arcanjo foi precipitado no inferno. O cálice formado por essa esmeralda, lapidada em 144 faces, foi — ainda conforme a lenda — usado por Nosso Senhor na Santa Ceia, e com ele José de Arimatéia recolheu o Preciosíssimo Sangue do Salvador proveniente da chaga aberta pela lança de Longino. Esse vaso sagrado, portador de virtudes extraordinárias, teria desaparecido misteriosamente a partir de certa época, depois de ter estado em poder de um dos cavaleiros da Távola Redonda.

Segundo os autores de "Hitler et la Tradition Cathare", "para os partidários da unidade da Grande Tradição, isto é, da unidade fundamental e transcendente de todas as religiões, lendas e mitologias diversas, é óbvio que os cristãos se apropriaram do mito do Gral para dele fazer a taça de esmeralda que contém o Sangue de Cristo, desviando desse modo o símbolo de seu sentido primeiro". Nesse "sentido primeiro", a perda do Gral "pode ser assimilada à perda da Tradição, com tudo o que isso comporta de empobrecimento espiritual". Assim, "o mito do Gral é o reflexo de um ensinamento perdido. Essa foi a interpretação dos nacionais-socialistas que desenvolveram seu pensamento vendo no Gral-pedra uma lei de vida somente válida para certas raças" (pp. 32-33) .

A missão de Otto Rahn no Sul da França e sobretudo suas buscas nas ruínas do castelo de Montségur tinham por objetivo descobrir o Gral-pedra contendo o segredo da gênese do mundo: o Gral seria o livro sagrado dos arianos, perdido e reencontrado, e por fim escondido em Montségur pelos cátaros. "É a este título que Otto Rahn, o grande especialista do catarismo, foi enviado pelos pontífices do nazismo à região albigense a fim de ali descobrir o famoso Gral-pedra evocado em suas poesias por Wolfram d'Eschenbach (ver "Parzival"), que fala de uma "pedra preciosa". Ora, os maniqueus, originários da Pérsia (portanto a esse título arianos), associavam a palavra "Gorr" (pedra preciosa) à palavra "Al" (brilho), o que daria o "Gral" por contração, no sentido de "pedra preciosa gravada", e seria pois a noção historicamente mais fundamentada, por sua própria origem etimológica. Isto nos permite compreender todo o interesse que os dirigentes hitleristas, com Rosenberg à frente, tinham nessa pesquisa" (p. 34).

Esse mesmo Rosenberg dizia enfaticamente em seu famoso livro "O Mito do Século XX": "Hoje desperta uma nova fé, o mito do sangue, a fé de defender igualmente com o sangue a essência divina do homem em geral" (apud "Hitler et la Tradition ..", p. 34) . A apreciação entusiástica de Adolf Hitler sobre esse livro assume assim todo o seu significado: "Quando lerdes o novo livro de Rosenberg, compreendereis essas coisas, porque é a obra mais vigorosa no gênero, maior que a de H. S. Chamberlain" (Otto Strasser, "Hitler et Moi", Paris, 1940, apud "Hitler et la Tradition ..", p. 35). H. S. Chamberlain e o Conde de Gobineau podem, do ponto de vista racista, ser considerados como precursores do nazismo.

Outro destacado filósofo nazista, A. Baumler, escrevia, pensando no mito do Gral: "O mito do sangue não é uma mitologia ao lado de outras mitologias, não põe uma nova religião ao lado de antigas religiões. Tem por conteúdo o fundo misterioso da própria formação mitificante. É de seu princípio estruturador que todas as mitologias procedem; o conhecimento desse princípio estruturador não é, por seu turno, uma mitologia, mas É o PRÓPRIO MITO, enquanto vida contemplada com veneração. O desenvolvimento de sua realidade oculta é o ponto de inflexão de nosso tempo". Depois de transcreverem esse texto, acrescentam Jean e Michel Angebert: "Podemos, à luz de tais explicações, penetrar em profundidade o neognosticismo ou, se se preferir, o maniqueísmo dos dirigentes e dos intelectuais nazistas, apoiados sobre uma gnose racista. A adaptação de todos esses mitos ao pensamento do século XX deveria ser a grande preocupação dos nazistas" (p. 35).

Um movimento conduzido por bruxos e mágicos

O gnóstico Otto Rahn gozava de grande prestígio entre os chefes hitleristas e um segundo livro seu, "A Corte de Lúcifer na Europa", foi imposto por Himmler "aos principais dignitários do nazismo, conferindo-lhe assim valor de evangelho" (p. 64). Esse mesmo Reichsfuehrer S. S. Himmler, vivamente interessado nas pesquisas de Otto Rahn em Montségur, fez reconstruir o castelo de Wewelsburg, perto de Paderborn, na Westfália. Nele, e situado sob uma sala de reuniões de tamanho impressionante, achava-se o "santo dos santos", câmara abobadada em ogivas que devia receber o prestigioso Gral sobre um altar de mármore negro marcado pelas letras S. S. de prata em alfabeto rúnico. "As meditações dos hóspedes de Wewelsburg diziam respeito à mística biológica, à moral da honra, ao mito espiritual do sangue e aos outros temas gnósticos e dualistas caros às elites de além-Reno. Esses retiros tinham por cena uma sala de quase quinhentos metros quadrados, situada sobre o local em que estava o altar da nova religião" (p. 65).

Como vemos, o nazismo não se apresenta aqui como mero fenômeno político, mas como um movimento conduzido por bruxos e mágicos, e isto em um país dos mais avançados no campo técnico e científico, confirmando a verdade, já experimentada pelo Fausto de Goethe, segundo a qual o extremo racionalismo científico conduz à magia. E o propósito dos autores do livro que estamos comentando parece nesse sentido muito claro: "É portanto uma análise do pensamento nacional-socialista através do dédalo das tradições esotéricas que propomos ao leitor deste livro: sendo o tema central a gnose com sua mais significativa projeção, representada pelo profeta Manés, o desenvolvimento se ordena naturalmente em torno do catarismo, característica aparição neognóstica da Idade Média, e prossegue com o estudo dos templários. Em seguida a gnose se oculta, degenerando, com a Rosa-Cruz e os iluminados da Baviera, para dar, após várias voltas, no misterioso grupo Thule" (p. 72).

Ao contrário das explicações pseudo-históricas que vêem no Terceiro Reich o continuador do Reich de Bismarck e de Guilherme II, a Alemanha de Adolf Hitler aparecia aos olhos de seus fundadores e de seus iniciados como a terceira época do gênero humano (p. 193). Segundo declaração do próprio Fuehrer, "houve os tempos antigos. Há o nosso movimento. Entre os dois, a meia idade da humanidade, a Idade Média, que durou até nós e que vamos encerrar" (Hermann Rauschning, "Hitler m'a dit", Paris, 1939 — apud "Hitler et la Tradition ...", p. 193) .

Segundo certos autores, Hitler teria sido levado por Rudolf Hesse à prática de métodos ocultistas. Não pensam assim Jean e Michel Angebert. Para eles o chefe nazista já havia chegado a tais práticas por sua formação pseudomística anterior e sua filiação ao grupo Thule (p. 195).

"Hitler dançará, mas eu é que escrevi a música"

Entre os grupos gnósticos que deram nascimento ao nazismo, citam os autores a Sociedade do Vril e o grupo Thule ou Thulegesellschaft, a primeira fundada na Alemanha no princípio do século, e o último criado em 1918 pelo Barão von Sebottendorf. Mas parece ter sido Dietrich Eckart, escritor e jornalista de renome e membro da Thulegesellschaft, quem lançou verdadeiramente Hitler, fornecendo-lhe os primeiros fundos necessários para sustentar sua campanha política inaugural. Rudolf Hess, Alfred Rosenberg, Dietrich Eckart, Karl Haushofer, Max Amann, "toda essa gente, como pudemos verificar, pertencia a sociedades secretas, seja ao grupo Thule, seja à Sociedade do Vril. Não espanta, pois, que todos sejam encontrados, sempre, envolvidos na realização dos ritos da nova religião da cruz gamada. Dispondo desde então de uma base política, de apoios financeiros importantes e de um aparelho secreto (que podia guiar Hitler), o partido nacional-socialista ia transformar-se na máquina de guerra desses novos gnósticos, tendo à testa um formidável detonador, Adolf Hitler, o único homem que possuía as qualidades suficientes para despertar a Alemanha de seu sono letárgico e dela fazer o instrumento dócil de seus desígnios mágicos. Em seu leito de morte, em 1923, Dietrich Eckart confessava a seus íntimos: "Deveis seguir Hitler. Ele dançará, mas eu é que escrevi a música. Nós lhe demos os meios de se comunicar com eles [quem seriam esses misteriosos "eles"?]. Não me lamenteis:- eu terei influenciado a História mais que qualquer outro alemão (p. 209).

Renan, o ex-seminarista precursor do nazismo

A gnose hitlerista pretendia agir sobre o homem para transformar o universo, do mesmo modo que, por processos místico-religiosos, ela pretendia agir sobre o universo para transformar o homem: "Nessa perspectiva, a matéria age sobre o espírito e o espírito sobre a matéria, de modo a provocar uma transmutação de todos os valores que, só ela, é susceptível de impelir o super-homem para o ponto ômega, que é o da perfeição. Tal é o significado da palavra (nessa interpretação): "Eu sou o alfa e o ômega" [em nota ao pé da página: "Reportar-se a esse respeito à obra de Teilhard de Chardin, esse gnóstico que não ousa dizer seu nome"] e do mito gnóstico da serpente que morde a própria cauda. Na base de uma tal doutrina reservada a pequeno número de iniciados, manifesta-se o orgulho demente que deseja fazer do homem seu próprio deus, calcando aos pés a moral tradicional e desprezando a quase totalidade da humanidade, votada a regressar (como no maniqueísmo e no catarismo) ao caos (hyle) das origens" (p. 217) .

Nessas elucubrações gnósticas sobre a raça, o nazismo encontrou um apoio inesperado em Renan, o blasfematório autor da "Vida de Jesus", o qual escrevia em seus "Dialogues Philosophiques" (Paris, 1876) "Uma larga aplicação das descobertas da fisiologia e do princípio de seleção poderia levar à criação de uma raça superior, tendo seu direito de governar, não somente em sua ciência, mas na própria superioridade de seu sangue, de seu cérebro e de seus nervos. Seriam espécies de deuses ou devas, seres décuplos em valor do que nós somos, que poderiam ser viáveis em ambientes artificiais. A natureza não faz nada que não seja viável nas condições gerais; mas a ciência poderia estender os limites da viabilidade". Renan conhecia o ciclo das lendas arianas de Asgaard, país mítico dos homens brancos superiores, os hiperbóreos, ancestrais dos atuais indo-europeus. Daí dizer em continuação: "Uma fábrica de ases, um Asgaard poderia ser reconstituído no centro da Ásia. [...] Do mesmo modo que a humanidade saiu da animalidade, assim a divindade sairia da humanidade. Haveria seres que se serviriam do homem como o homem se serve dos animais... Mas, repito, a superioridade intelectual acarreta a superioridade religiosa; esses futuros senhores, nós os devemos sonhar como encarnações do bem e da verdade; cumpriria subordinar-se a eles". E prossegue: "Desse modo, concebe-se um tempo em que tudo o que reinou outrora no estado de preconceito e de opinião vácua reinaria no estado de realidade e de verdade: deuses, paraíso, inferno, poder espiritual, monarquia, nobreza, legitimidade, superioridade de raça, poderes sobrenaturais podem renascer por obra do homem e da razão. Parece que, se uma tal solução se produzir em qualquer grau sobre o planeta Terra, é pela Alemanha que ela se produzirá" (apud "Hitler et la Tradition ..", pp. 217-219) . Eis, portanto, o racionalista Renan como profeta do nazismo.. .

A cosmogonia hitlerista recebeu larga contribuição das teorias do profeta do gelo eterno, o cientista austríaco Hörbiger, a cujas elucubrações gnósticas o Fuehrer dava pleno apoio. "Hörbiger, que se abeberou nos mitos profundos que se acham no inconsciente da humanidade, é partidário da teoria dos ciclos adotada por Platão. A Terra, a vida, a humanidade não conheceram uma evolução contínua, mas uma ascensão em dentes de serra, entrecortada de quedas que fazem a criação retroceder a seu nível anterior. Depois das civilizações dos gigantes, a Terra teria assim conhecido catástrofes sem nome que teriam tragado continentes inteiros (a Atlântida, a Hiperbórea), acarretando a degenerescência do homem superior. Para reencontrar o homem-deus, é necessário realizar uma nova mutação que tornará a dar vida a nosso universo sob o signo de um novo ciclo. Reencontramos aqui o fundo de todas as especulações hitleristas sobre o homem e sobre o mundo" (pp. 224- 225) .

No início do século XX Bergson profetizava: "O universo é uma máquina de fazer deuses". Teilhard de Chardin devia fazer-lhe eco admitindo a hipótese de uma "dérive" que dá origem a "alguma forma de ultra-humano": a famosa teoria dos mutantes biológicos acabava de nascer (p. 230). Os líderes nazistas viram nela um apoio para seu desejo de criar o super-homem ariano. "O homem novo vive no meio de nós. Lá está ele, exclamava Hitler, em tom triunfante. Isto vos basta? Vou contar um segredo. Vi o homem novo. É intrépido e cruel. Tive medo diante dele" (Hermann Rauschning, "Hitler m'a dit" apud "Hitler et la Tradition . ..", p. 230) .

Depois do milênio em que imperaria o nazismo é que a evolução chegaria ao seu auge, quando os dois grandes princípios, o verdadeiro e o falso, o espírito e a matéria, se separariam e voltariam à sua raiz: a luz retornaria à grande luz e a obscuridade voltaria à obscuridade acumulada. "As últimas parcelas de luz se reunirão em uma gigantesca forma que subirá ao céu, ao mesmo tempo que a matéria formará uma enorme esfera (bolos) semelhante ao caos original. É assim que no fim dos tempos, como o fogo e o gelo, os dois princípios antagônicos serão de novo separados um do outro, tal como se achavam na origem" (p. 229).

"Nossa única fé religiosa é o nazismo"

O nazismo era uma nova religião, simbolizada pelo Volk, fundo mítico da deificação do sangue e da raça. Em consequência, não podia ele deixar de colidir com o Cristianismo. O chefe da "Frente do Trabalho" hitlerista, Dr. Ley, foi muito claro e preciso quando declarou: "Nossa fé, que só ela nos pode salvar, é o nacional-socialismo, e essa fé religiosa não tolera nenhuma outra fé ao seu lado" (p. 245). O antagonismo entre a Igreja e os nazistas não foi, como querem os observadores ingênuos ou por demais sabidos, um conflito político, mas a luta de uma religião neopagã contra a verdadeira Religião de Nosso Senhor Jesus Cristo. A Concordata negociada pelo Terceiro Reich com a Santa Sé, por intermédio de Von Papen, nada mais foi que o anestésico destinado a adormecer o adversário para mais facilmente se poder destroçá-lo.

O chamado "cristianismo positivo" nazista era, na realidade, a religião da raça e do sangue, isto é, a Weltanschauung nacional-socialista, um dos piores perigos que a Santa Igreja teve que enfrentar ao longo da História. Esse "cristianismo positivo", nunca explicitado de modo claro, não passava de um pseudocristianismo nacionalista, socialista e gnóstico, que tomava do Catolicismo, como o fizera a heresia americanista do Padre Hecker, os elementos que reputava positivos, as virtudes ditas ativas etc., rejeitando as virtudes "passivas" e os elementos "negativos", em particular o Antigo Testamento e as Epístolas de São Paulo. Os chefes nazistas eram os únicos credenciados a definir o "cristianismo positivo", como bem acentuou a revista dos S.S. "Das Schwarze Korps" ("O Corpo Negro"): "Sendo o Cristianismo positivo um termo que o nacional-socialismo introduziu, só o nacional-socialismo está qualificado para o interpretar" (p. 247).

Continua na pág. 4


EXPOSIÇÃO EM BARRA DO PIRAI

A TFP esteve presente na XXIV Exposição Agro-Pecuária e Industrial do Sul Fluminense, realizada em Barra do Pirai nos dias 25 a 29 de julho p.p. No recinto da exposição ela montou um stand com fotos e gráficos de suas atividades e com exemplares das obras divulgadas pelos seus sócios e militantes (foto).


CAMPANHA EM RIBEIRÃO PRÊTO

Uma caravana de sessenta jovens que haviam participado da IV Semana Especializada para a Formação Anticomunista, pouco antes promovida pela TFP em São Paulo, esteve em Ribeirão Preto no dia 23 de julho difundindo "Catolicismo" e os ensaios "A liberdade da Igreja no Estado comunista" e "Baldeação ideológica inadvertida e diálogo", do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira. A iniciativa teve grande repercussão junto à população local. — Na foto, os propagandistas da TFP com suas capas e estandartes, na praça principal de Ribeirão Preto.